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Giovanna Muriel olhou o rosto enrugado da mãe e constatou o óbvio: envelhecer não era agradável, embora todos envelheçam. Mas envelhecer tem uma vantagem: quem fica velho não morre jovem. Morrer jovem é desperdício. A velha Dorotéia, em seus 84 anos, andava arcada, parecendo frágil ponto de interrogação de cabelos brancos. Giovanna também envelhecia. Não tinha mais ânimo para a noite, ela que em certo período foi rainha das boates de Curitiba. Dinheiro, agora, vinha do salão de beleza. Ela terminava por onde começou: cabeça, unhas e aos pés das mulheres bonitas da cidade.

“Antenor, você devia comprar carro, filho.”

Quarenta e quatro anos depois a mãe a chamava pelo nome de batismo. Mãe é mãe. Ela não ia corrigir a pessoa mais importante de sua vida. Ela respondeu:

“Ah, mamãe, eu nunca gostei de carros, você sabe disso.”

A velha disse que gostaria de sair um pouco da cidade, ir para a praia.

“Sabe Antenor, faz tanto tempo que eu não vou a uma praia.”

Ela disse:

“Mamãe, as praias estão chatas, não é como nos anos 70 que a gente ia a Matinhos e descansava. Hoje está terrível e só tem gente feia.”

A velha disse que não queria entrar no mar. Ela queria ver o mar, talvez pela última vez. Giovanna disse que ia levar a mãe para ver o mar. A ideia doeu em seu coração:

“Vai ser a última vez que ela vai ver o mar.”

Na semana seguinte, Giovanna pediu adiantamento no salão e pagou grana para Vilnor levá-la com a mãe para o litoral, para ver o mar. A velha desceu a serra animada e estranhou o negócio de pedágio:

“No meu tempo não tinha isso.”

Estranhou a região cheia de casas, parecia mais desorganizada que em seu tempo. Mas o mar era sempre o mar – era o mesmo mar de seu tempo. Giovanna foi esperta: levou a velha para atravessar o ferry boat em Guaratuba. Só a travessia valeu a viagem. Para não ser incomodada, Giovanna pediu para Vilnor levar as duas para Caieras. E andou com a velha pelas areias molhadas e frias. A velha sentiu na pele o arrepio provocado pela água fria do mar. Giovanna olhou a mãe pelo canto dos olhos:

“Ela está feliz.”

E chorou: era a última felicidade da mãe.

Fim do dia, os três voltaram para Curitiba. A velha foi dormir e quando Giovanna acordou no dia seguinte e foi acordar a mãe, ela estava morta. Giovanna não descabelou. Sabia que um dia ia acontecer. Mas chorou, a mãe era a única pessoa que a entendeu, embora nunca deixasse de chamá-la de Antenor. Ela enterrou a velha, trabalhou a semana inteira até sexta-feira, quando à noite foi à boate Mata Hari e pediu para o gerente Giomedes deixá-la cantar.

Ele disse:

“Que é isso menina, faz dez anos que você não canta! Você se aposentou.”

Ela disse duas palavras mágicas:

“Por favor!”

Giomedes não era otário. Estava aposentada, mas se resolvesse ser a Giovanna dos velhos tempos a jugular dele poderia pagar a conta de um vacilo.

Ele disse:

“Tudo bem, querida!”

Giovanna passou batom, botou roupa de show e penas vermelhas na cabeça, umas joias falsas e foi para o palco com o coração despedaçado como nos velhos tempos. Talvez por isso, todo mundo ouviu com espanto e admiração a performance cheia de emoção:

“Como uma deusa, você me mantém. E as coisas que me diz, me levam além.”

Quando ela terminou, ajoelhou e chorou. E quem estava na Mata Hari aplaudiu a vibrou com a sua dor.

Publicado originalmente na Tribuna do Paraná no dia 26 de novembro de 2013.

Written by edilsonpereira