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Era um rapaz que tinha há muito tempo a fama de ser mau. Seu nome era temido, sabia brigar bem, seu gênio violento, jamais gostou de alguém. Jordir Amarante tinha nome estranho e ninguém sabia porque era chamado de Pedroca pelos amigos. E ninguém procurou saber pois não queria encrenca. Mas todos os outros o chamavam de Elvis Presley. Pelo blusão de couro negro e pelo topete, além da Lambreta e dos lábios carnudos de bebê chorão. Ele gostou e ficou assim.

A onda dos Beatles e dos cabelos longos não afetou seu modo de andar e de viver. Ser conhecido por Elvis era uma honra. Este nome não era ofensa. Era título nobiliárquico. Como duque, conde ou marquês. Elvis era o bom da turma, do bairro e talvez da cidade. Merecia título de Elvis embora não cantasse nem parabéns pra você em festa de aniversário. O sujeito fumava Marlboro e Benson & Hedges. Lia Carlos Zéfiro e pegava a garota que queria. Era o tal. Tinha tudo. Todos previam futuro venturoso.

Nos bons tempos em que Jordir era o Elvis Presley da Zona Dois, ele conheceu uma garota chamada Creuza Xavier. Uma enxerida que as amigas chamavam de lambisgoia. Lambisgoia, ensinava o professor Hiran no ginásio, era substantivo de dois gêneros, que tanto podia significar pessoa afetada, metida, pretensiosa e atrevida, como mexeriqueira e intrometida. O velho mestre, comandante em chefe da fanfarra do Gastão, acrescentava que lambisgoia podia também ser pessoa magra, sem graça e antipática. Além de namoradeira, de trato fácil com os homens.

Creuza era. Ao contrário de Elvis, lambisgoia estava mais para insulto do que para elogio. Na turma de Elvis tinha um sujeito chamado Ronnie Bustos que insistia em dizer lembesgoia em vez de lambisgoia. A turma rachava o bico porque Bastos nunca acertava falar lambisgoia. E a turma apelidou Creuza Xavier de Srta. Lembys, com ípsilon, com sotaque britânico, sem que ninguém, além da turma, soubesse o significado. E como ela não gostava do nome, adotou de bom grado o Srta. Lembys. Por achar que parecia inglês, francês, qualquer coisa, menos brasileiro.

Jordir, o Elvis Presley da Zona Dois, quando adulto virou um Zé Mané. Para se segurar precisou de help de político corrupto abundante na cidade e no país. Até hoje vive disso. Tem sinecura num gabinete em Curitiba. O insuportável para a sua existência foi acompanhar a ascensão da Srta. Lembys. Com magresa, feiura e mexericos, ela galgou espaços na televisão estadual, regional e nacional. Começou com programa em Cascavel, migrou para Florianópolis, de onde escapuliu para Porto Alegre.

Quando Jordir percebeu, a dona comandava do Rio de Janeiro, com peruca loira, programa matinal de arromba. Ditava o que as donas de casa do Brasil deveriam fazer na cozinha, no quintal, no shopping e na cama. Com marido ou sem. E não só. A dona casava e descasava com quem queria. Fosse alemão de olhos verdes, francês de olhos azuis ou inglês de cabelos vermelhos. Ninguém recriminava porque a Srta. Lembys era líder em audiência. “Conversando com Lady Lembys” era um sucesso. E audiência era dinheiro.

E quem tem dinheiro não é feio. Sem contar que com dinheiro, até tartaruga fica bonita, fazendo uso de cirurgião e de produtos importados. A Srta. Lembys ficou linda. Linda de morrer. A garotada batia punheta pensando nela o que era na hierarquia masculina o mais alto grau de consideração. Era beautiful. Jordir, o Elvis Presley da Zona Dois, ficou feio. Pior: ela tinha dinheiro e ele não. Ninguém sabia por onde andava Ronnie Bustos, que batizou a Srta. Lembys. E o Brasil inteiro não sabe que Lady Lembys na realidade era uma lambisgoia. Como diz a velha canção sertaneja, o mundo judia mas também ensina.

 

Written by edilsonpereira