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Ezra Mazower está com 50 anos, acha que é velho, mas continua fumando o seu cachimbo sem se preocupar com os malefícios do tabaco. É o único brasileiro com este nome que conheço. Embora os nomes bíblicos no Brasil, os do Antigo Testamento, não indiquem que o sujeito seja judeu, Ezra é judeu. E não gosta do nome por causa do Ezra Pound a quem ele chama sem carinho de “aquele filho da puta”. Como sabem todos que conhecem um pouco da vida do poeta Ezra Pound, ele se ferrou depois da segunda guerra mundial porque se meteu a defender Mussolini e os fascistas quando estes estavam no poder. Quando a guerra terminou, foi enjaulado, condenado e escapou da cadeia porque disseram que ele era louco. O que não chegava a ser uma grande mentira. Ezra Pound cumpriu pena num sanatório americano. Menos mal.

Mas o nosso Ezra Mazower não quer saber de política. Está desiludido. Não acredita em partidos, não acredita em homens, tem raiva de demagogos, tem raiva de deputado, tem raiva de vereador, de governador, de presidente, de senador. Ele tem tanta raiva que às vezes fica cansado de ficar com raiva. Então procura levar a vida.

“Mas está difícil levar a vida porque na minha idade é muito complicado.”

E explica porque é complicado:

“Os neurônios da gente vão se derretendo e a gente às vezes nem sabe o que está fazendo.”

Então contou uma história que acredito que seja piada, mas ele contou como fosse verdade. Este é um dos traços do humor judeu: contar piada e não rir e ficar olhando a cara assustada de quem ouviu.

“Esta semana eu levei uma gata de primeira para o motel, imagina só.”

Eu esperei o desfecho do caso. Ele suspirou desconsolado e depois concluiu:

“Chegando lá eu esqueci o que fui fazer. Eu perguntei para ela: o que viemos fazer aqui mesmo, menina?”

Eu fiquei olhando a cara de desalento dele e depois perguntei:

“Mas já que você pagou o motel, você não fez nada?”

Ele disse:

“A minha sorte é que a gata levou um tabuleiro de gamão na bolsa e nós ficamos jogando gamão por um bom tempo.”

Eu ainda quis saber quem ganhou a partida. Ezra Mazower respondeu:

“Claro que foi ela. Eu não sei jogar gamão. Mas achei divertida a aventura no motel. Foi diferente.”

De qualquer forma, se foi verdade, foi a primeira vez que soube de alguém que foi ao motel jogar gamão.

Publicado originalmente na Tribuna do Paraná no dia 4 de junho de 2015.

Written by edilsonpereira