WANDERLE1

            Numa certa manhã de junho de 2020 acordei arquejante com o ruído do celular tocando ao lado da cama, sobre o criado-mudo. A sensação era de quem acabara de sair de um pesadelo e de perda de ar. Algo opressivo, angustiante. Percebi que dormi de barriga para cima e sempre que isto acontecia tinha pesadelos horríveis, como se estivesse na eminência de morrer. Era algo tão real que acordava admirado por ainda estar vivo. A sensação era familiar e conhecia sua origem. Era, segundo o meu médico, provocada pela pressão da barriga enorme sobre o corpo que impedia o fluxo normal de ar aos pulmões. Era a mesma causa de uma apneia que me fazia acordar atarantado de madrugada. A obesidade era algo terrível, eu sabia, mas não conseguia emagrecer. E quando emagrecia não conseguia manter o peso. E com todas as semanas recentes de quarentena tendo por único consolo a comida eu me inquietava só de pensar em subir numa balança.

O celular tocou pela quinta vez e murmurei:

“Deve ser mensagens no Watts Ap.”

Eram oito horas da manhã. Ainda sonolento, peguei os óculos e em seguida o celular e conferi. Eram mensagens no Watts Ap, mais precisamente cinco arquivos de áudio de minha vizinha Joelma, que há algumas semanas não via no condomínio e por isso procurei abrir os arquivos com certo interesse. Alguma coisa deve ter ocorrido. Eu presumi que ela teria ido para o litoral para a casa de um irmão até a pandemia passar. Talvez quisesse fazer algum pedido.

Abri o primeiro áudio do dia do grupo do condomínio.

Uma voz cansada e conhecida disse:

“Bom dia. Eu queria dizer pra vocês, meus amigos, que eu tive Convid. Fui internada no hospital e fiquei quarenta dias entubada. Não corro mais risco de transmissão. Pelo contrário. Eu fui hospitalizada, tomei antibióticos fortíssimos, foi horrível. Eu não desejo para a minha pior inimiga o que eu passei. Vocês não sabem o que é isso. Não quero falar em política. Mas para quem gosta do Bolsonaro, eu vou dar um aviso. Isto não é uma gripezinha, não. É um negócio muito forte e terrível. Este presidente está maluco. Ele é doido. Não ouçam o que ele está dizendo. Cuidem de vocês! Eu posso garantir. O vírus mata. Escapei por milagre.”

Aquilo era uma notícia desagradável. O vírus chegou ao condomínio e eu nem sabia. E, pelo jeito, os demais moradores também não sabiam. Quer dizer, alguém do condomínio foi contaminado. Aquilo me deixou aterrorizado.

O segundo áudio foi aberto automaticamente em seguida:

            “Vejam bem! Se o seu plano de saúde não for bom, você vai pro cemitério sem escala e dentro de um saco preto de plástico. É o protocolo. Foi o que aconteceu no hospital. Eu vi. Na minha frente. Os enfermeiros e médicos chorando. Não tem outro jeito. E os parentes não têm direito de ver o que aconteceu. Eu tive muita sorte de minha empresa pagar um bom plano de saúde. Plano top do Marcelino Champagnat. Tive tratamento de primeira. E mesmo assim foi difícil me manter viva.”

Em seguida veio o terceiro áudio:

“Por isso estou mandando este áudio para o grupo do condomínio. Ou vocês se trancam em casa ou vocês correm risco de vida. Este vírus é uma desgraça que acaba com a vida das pessoas. Usem luvas, usem máscaras, não esqueçam de lavar as mãos com sabão e de usar álcool gel. Eu fiquei internada. Meu pulmão parou, meu coração deu defeito e tive uma infecção hospitalar. Eu tive certeza de que ia morrer. É uma coisa horrível. Passei por um triz da morte. Não quero que vocês passem por isto.”

            Depois daquilo eu nem imaginava o que poderia vir no quarto áudio:

            “Eu escapei. Mas agora estou em casa. Aqui no meu apartamento. Minha família está de quarentena. Mas vocês nem imaginam como estou. Desaprendi a comer. Não tenho força nas pernas. Não consigo me levantar. E até para beber água tenho problema. Me engasguei com água. Tenho que fazer fisioterapia para o pulmão se recuperar. E isto ainda vai longe. Eu peço pra vocês que continuem as orações de vocês. Elas são muito importantes para mim, embora eu não seja da religião de vocês.”

            E por fim o quinto áudio:

            “Sabem, amigos, isso, pra mim, foi um exemplo, de que todas as pessoas morrem. Meus vizinhos, o vírus não veio só para as pessoas que estão em Cristo, como eu. Isso que aconteceu comigo foi um exemplo que o vírus veio pra todos, para matar todo mundo. Sem escolher cor, raça, religião e posição social. Por isto estou fazendo este alerta. O que me aconteceu foi um alerta de Deus. Precisamos ser prudentes. A gente não pode ser irresponsável. Tem que pensar nas consequências. Não pode sair do apartamento. Cuidado. Cuidado. Nós temos que ficar em casa até esse vento passar. Cuide da vida de vocês. Vocês não podem prejudicar uma pessoa amada de sua casa por um ato irresponsável. Não somos super-heróis. Somos de carne e osso. Esse vírus pode bater em nossa porta. E podemos ser um destes que não vai resistir.”

            Eu estava há dez semanas em quarentena e ouço uma coisa daquelas. A primeira reação foi esquecer. Mas era impossível. Eu estava tremendo. A primeira coisa que pensei foi em querer saber como Joelma foi infectada e onde. Seria no mercado? Foi na casa de algum parente? Não podia ser no salão porque ele estava fechado. Será que antes de ser internada ela tocou em alguma maçaneta ou no controle do portão do condomínio e eu também toquei nestes lugares? Bem, eu usava luvas quando saia do apartamento desde que apareceram as primeiras notícias de que o vírus chegou ao país.

            Eu murmurei:

“Por essa eu não esperava!”

E com estes pensamentos eu me levantei e fui para o banheiro tomar banho. Uma ducha quente me acalmou um pouco, embora ainda estivesse intranquilo. Peguei um vidro de perfume e cheirei. Aquilo me deixou um pouco mais calmo. A perda de olfato e apetite eram dois sintomas de quem foi contaminado. Senti o perfume e estava com fome. Conferi de novo o Watts Ap e li comentários de moradores desejando breve recuperação para Joelma e manifestando votos de solidariedade. Tudo aquilo que manda o figurino de boas maneiras entre bons vizinhos. Fui para a cozinha e tomei café. Depois fui ler alguma coisa no quarto de livros. Ao meio-dia almocei. E no final do dia ainda estava com aquela voz cansada e sussurrante na cabeça. E para não dormir inquieto e correr o risco de ter pesadelos de madrugada, tomei uma decisão que achei prudente. Liguei para Suely, moradora do bloco dois, que era advogada, jovem e uma pessoa sensata.

Ela atendeu.

Eu disse:

“Você ouviu o que a Joelma postou no grupo hoje de manhã.”

Ela respondeu como fosse algo natural:

“Sim. Acho que todo mundo no condomínio deve ter ouvido.”

Eu disse exaltado:

“Esta velha maluca pegou o vírus e nem avisou a gente!”

Suely respondeu meio constrangida:

            “Pois é. Uma coisa difícil. Mas temos que levar em contas que ela sobreviveu e o condomínio não corre mais risco de alguém ser contaminado por causa dela.”

            A resposta diplomática não me satisfez:

            “Mas vocês nem queriam que eu fosse passear com minha cachorra de manhã para não encontrar alguém com o vírus! Lembra disso?”

            Ela não gostou daquilo e respondeu:

“Eu sei. Mas o importante é que agora está tudo bem.”

Eu deveria ter percebido que minha opinião não encontrou ressonância.

Mas eu insisti:

            “Não está tudo bem. Se todo mundo tivesse pegado o vírus você não diria uma coisa desta. Todos iríamos morrer.”

            A voz dela era contidamente irritada:

            “Calma. Nem todos que pegam o vírus morrem. Apenas uma pequena parcela.”

            Eu funguei e acrescentei:

“Antes de o vírus se manifestar, ele fica incubado no hospedeiro por uns dez dias. E a pessoa contamina pelo menos outras vinte. E aí as estatísticas vão pro saco. Você acha isso justo?”

Ela disse com uma calma profissional, desta que as pessoas usam quando na realidade querem explodir:

            “Sim. O senhor está certo. Mas acontece que ela foi hospitalizada logo. Graças a Deus não morreu.”

            Eu pensei de forma egoísta, pena que não morreu.

Mas disse em tom de derrota:

            “Mas deveria ter avisado antes para a gente ter cuidados. Não pegar nas maçanetas sem luvas e coisa do gênero. Não aprovo este silêncio covarde e criminoso, além de tudo desprovido de solidariedade e humanismo.”

            Silêncio covarde e criminoso. Eu gostei daquilo. Era o máximo que poderia fazer nas circunstâncias. Pelo menos Suely iria entender o que eu estava querendo dizer.

            Ela respondeu:

            “O senhor está certo. Mas vamos considerar que Joelma passou por um momento difícil, está melhor e agora não ameaça ninguém.”

            Achei melhor parar ali. Havia má vontade de Suely com minha revolta.. Eu tinha certeza de que era justa.

            Eu respondi apenas:

“Tudo bem.”

“Boa noite.”

            Estava sozinho no apartamento. Eu e a cachorra. Achei melhor dormir. Estava tenso mas não havia nada melhor a fazer. A conversa com Suely foi útil para transferir meus pensamentos para ela por alguns instantes. E quando voltei a pensar em Joelma foi em outros termos. Na cama fiquei pensando em Joelma e na humanidade. Dois grandes infinitos. A primeira eu não entendia. E a segunda muito menos. Os humanos eram estranhos até para muitos humanos. Eu era um dos que achavam os humanos estranhos. Será que eu também era estranho? Era bom não iludir. Certamente seria considerado estranho por muitos outros humanos. Porra, a Joelma morava naquele condomínio porque eu a indiquei. Vagou apartamento. Dei dica pra ela. Que falou com a imobiliária. Antes morava no Boqueirão. Longe dos principais clientes de seu salão na zona norte. Tentei ser bacana. O apartamento ficava no mesmo bloco que o meu. Ela alugou. Antes de morar no condomínio era grande amiga, depois que mudou virou a cara. Nunca entendi aquilo. Contei para um amigo e ele respondeu.

            “Tudo isto é muito humano!”

            Se aquilo era humano, então pensei que a humanidade era uma merda. Achei a resposta vaga. Ainda acho vaga, mas acredito que entendi alguma coisa. O problema é que não sei exatamente o que entendi. Ali na cama tentei entender o que entendi. Joelma tinha a mesma idade que eu. Sessenta e oito. E um grande trunfo do qual se orgulhava. Foi cabelereira da Wanderléa quando se apresentou em Curitiba. Era uma jovem de dezesseis anos que estava aprendendo o ofício num salão do centro da cidade. Wanderléa gostou dela e a escolheu. As outras cabelereiras ficaram morrendo de inveja. Aquela noite ela nem dormiu. Na época aquilo não era pouca coisa. Ela passou o resto de seus dias contando esta história. Wanderléa se hospedou num hotel que ficava próximo ao salão e no final da tarde apareceu para fazer o cabelo e ela fez. Isto foi há muito tempo. Nos anos sessenta. Em 1968. A cantora gostou. Joelma viveu o resto de seus dias com aquele troféu imaginário até a pandemia aparecer.

            Eu pensei desanimado:

            “A melhor maneira de conhecer a humanidade era olhando dentro dos olhos de cada humano. Porque a turba era imperscrutável. E formada por centenas, milhares, milhões, bilhões de humanos que na essência não eram diferentes uns dos outros. Uma multidão sem olhos.”

Claro que a vida foi longa e tortuosa para Joelma. Casou, teve filho e ele foi embora com a mulher para a Nova Zelândia. Joelma continuou cabelereira. Até se aposentar. Se aposentou e continuou a trabalhar de cabelereira num salão da Barreirinha. Ficou deprimia e acabou sendo capturada por uma destas igrejas malucas que apareciam em todos os bairros todos os dias com seus pastores pilantras. Uma irmã mais nova veio morar com ela. E as duas solitárias formavam o que ela chamava de família.

            A cachorra se aninhou no tapete. Em minutos roncava.

Eu pensei, antes de cair no sono:

“Ainda assim, Joelma poderia ter avisado!”

            Claro que poderia. Mas não avisou. Porque era humana. E os humanos não prestavam. Não estavam preocupados com os outros. Apenas com si mesmos. Se fossem diferentes não seriam humanos. Eu fui dormir triste. Com mais medos dos humanos do que do vírus. O vírus um dia iria embora. Era o que falavam os infectologistas. Mas os humanos continuariam por aqui, empesteando e destruindo o planeta. Até um dia o planeta ficar de saco cheio e se livrar dos humanos.

Written by edilsonpereira