Federico Maldini não era esperto, mas não era otário. Ele perdeu parada por ser desconfiado. Mas não entrou em fria pelo mesmo motivo. Era o velho negócio, em terra de cego que tinha um olho era rei, mas não adiantava chorar o leite derramado. E sem contar que águas passadas não moviam moinho e pior cego era aquele que não queria ver. Estava tudo escrito. Era só prestar atenção na resenha e seguir o recado. Todos sabiam que o apressado comia cru.

Por isso Maldini achava que saiu no lucro depois da aventura noturna na terça-feira em que Toshiro Hashimoto o convidou para conhecer a Boate Marrocos. A boate, na margem direita da saída para Marialva, era o fino da boemia. Coisa de devasso bacana. Era preciso ser amigo da noite para conhecer o ambiente. Hashimoto era amigo da noite e do dono da boate. Ele chegou faceiro como chegava em todo bordel. O japa era libertino. Além de Maldini, convidou Gilberto Gimenez, espanhol faceiro que se achava amante latino.

Quando os três entraram no recinto com insinuante música caribenha e luz escarlate, Maldini percebeu que à noite todos os gatos eram pardos e naquele lugar eram ainda mais sombrios. E nesta condição, todo cuidado era pouco. Porque, depois que a vaca fosse para o brejo não adiantava lamentar a morte da bezerra. Qualquer idiota sabia que de boas intenções o inferno estava cheio. Ele estava com estas ideias na cabeça quando uma morena de fechar o comércio e que parecia saída de um filme de Hollywood se arrastou faceira para o lado dele.

Ela se aproximou e disse com voz rouca e sensual de vedete mexicana:

“Meu garoto lindo, você acabou de encontrar a sua gata.”

Maldini sabia que a esperança era a última que morria, mas também sabia que os últimos poderiam ser os primeiros e neste caso os primeiros também poderiam ser os últimos. Ele viveu o suficiente para saber que prudência e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém. Sem contar que seguro morreu de velho. E o velho morreu sem deixar seguro.

A morena disse:

“Vem dar uma cafungada no cangote de sua morena.”

Em vez de partir para cima da morena e cafungar no cangote dela, Maldini recuou no mais clássico dos movimentos revolucionários: dois passos para trás, para dar um passo para frente mais adiante, se fosse o caso. A morena ficou decepcionada. Hashimoto deu riso malvado e sacana. No entanto, Gilberto Gimenez, ao ver aquele monumento esguio, se levantou trôpego e arfante e disse desaforado para Maldini:

“Se você não é macho para a morena, eu sou.”

Gimenez enlaçou a morena pela cintura, arrastou-a para o centro do salão, dançou, beijou os lábios dela e babou no cangote. E, depois, levou-a a um canto escuro do salão onde, sem escrúpulo e pudor, tentou apalpar as intimidades. Quando, no entanto, em vez de encontrar o monte de Vênus ele encontrou a Torre de Pisa, que mais parecia o câmbio intumescido de um FNM, Gimenez, que tomara pelo menos cinco doses de uísque, recuou assustado e saiu pelo salão gritando:

“Fui enganado! A fruta proibida é a mais apetecida. Mas a que apalpei estava dura e grande”.

Hashimoto se revelou canalha. Ele armou tudo, dobrou-se sobre si de rir. Maldini viu confirmadas as suspeitas. Gimenez cuspia sem parar como se os lábios pegassem fogo, enquanto dizia:

“Quantos beijos eu dei e de quantos eu me arrependi.”

Claro que a noite acabou. Enquanto entravam no Fusca 68, cor branca, Maldini disse solene para Gimenez:

“Macaco velho não mete a mão em cumbuca.”

Hashimoto acrescentou:

“Dama de Espada e Rei de Paus são cartas do mesmo baralho.”

E riu mais ainda.

 

Written by edilsonpereira