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A última vez que a vi foi antes do primeiro caso confirmado em São Paulo numa quarta feira, dia vinte e seis de fevereiro. Um homem de sessenta e um anos que retornou de viagem para a Lombardia na Itália deu entrada no Hospital Israelita Albert Einstein com síntomas de quem foi infectado. Estava. No começo embora as fotos de caixões enfileirados na Itália publicadas na internet assustassem as pessoas, elas não achavam que o mesmo aconteceria aqui. Mas, por precaução, a gerência do mercado afastou pessoas consideradas do grupo de risco. O segurança velho e a senhora das flores que era diabética foram dois deles. Marcela, a garota do setor de vinhos, também. Ela tinha bronquite crônica. Na incerteza, foi para a quarentena. Quem me informava tudo era Claudia. Mas qualquer garota ou rapaz indagado támbém informaria. Não era segredo de estado.

Uma manhã, quando ainda não usava máscara, mas tomava os cuidados de não pegar na mão de ninguém e não dar abraços em conhecidos, eu passei com as compras pelo caixa de Claudia e observei:

“Estranho!”

“O que o senhor achou estranho?”

“Não vejo Serena no caixa há dois dias.”

“Ela está de quarentena.”

“Ela tem diabetes?”

“Não. Está grávida. A direção achou melhor deixar ela de quarentena.”

“Não sabia que ela estava grávida.”

“Ela também não.”

“Ela estava grávida e não sabia?”

Claudia morava na mesma cidade de Serena. Itaperuçu. Ficaram amigas porque vinham no mesmo ônibus para trabalhar na mesma empresa. Cinquenta e cinco minutos pela rodovia dos Minérios. Ela fez expressão marota e achei que estava perguntando demais.

Ela indagou:

“O senhor não sabia?”

“Sabia o quê?”

“O marido dela morreu.”

Achei aquilo confuso. O marido morreu e a garota engravidou. De quem? Não tive coragem de perguntar.

Disse apenas:

“Não sabia.”

Claudia leu no meu rosto que não estava entendendo nada. Ela olhou para os lados. Não tinha filas, nem clientes esperando. Além disso tinha outras duas caixas sem fazer nada. Então disse:

“O marido dela morreu atropelado.”

“Caralho!”

O caralho saiu sem querer. Levei um susto. Mas o caralho não impressinou Claudia. Ela sorriu um riso compreensivo e disse:

“Ele estava de moto. Uma camionete foi ultrapassar um caminhão e acertou ele em cheio. Morreu na rodovia mesmo.”

Aquilo era foda. Murmurei:

“Caralho!”

O segundo caralho incomodou Claudia. Um caralho ela suportava. Mas dois já era abusar da tolerância. Ela olhou para os lados. As outras caixas não ouviram o meu segundo caralho. Ainda bem. Ela continuou.

“Ela estava aqui. No mesmo caixa em que estou agora. A mãe dela apareceu. E disse para a supervisora que tinha uma notícia importante e precisava falar com a Serena. Contou o que era. A supervisora levou a mãe da Serena ali naquela sala de vidro da gerência e depois chamou a Serena. Ela saiu arrasada de lá. E voltou com a mãe para Itaperussu.”

“Pobre garota!”

Eu gostava de Serena porque como Claudia era atenciosa, meiga, não era fria, protocolar ou mesmo grossa como muitas outras funcionárias dos caixas. Sempre atendia com um sorriso natural, voz doce e olhar de quem via o mundo com simplicidade, sem maldade e sem grande ambição além de ter uma família e cuidar do marido e dos filhos. Parecia uma adolescente de dezoito anos. Perguntei um dia se ia fazer universidade e ela respondeu que era casada. Entendi. Era quase impossível ser casada, trabalhar e ainda por cima cursar uma faculdade. Ainda mais trabalhando em mercado de outra cidade com plantões e fazendo todos os dias uma viagem trinta quilômetros para ir e outra da mesma distância para voltar do trabalho. Chegava por volta de vinte e três horas em casa. O marido trabalhava na cidade em que morava mas quase sempre ia a Rio Branco e Tamandaré. Numa destas viagens foi atropelado. Eu estava sabendo agora.

Arrisquei uma pergunta:

“Ela conheceu outra pessoa?”

“Por que o senhor pergunta?”

“Como ela ficou grávida?”

“Ela ficou abalada com a morte do marido mas acabou superando porque descobriu que estava grávida dele. Pode uma coisa desta? Na última noite em que dormiram juntos ela engravidou dele.”

“Que coisa!”

“Acho que este nenê vai dar um sentido bom na vida dela. A mãe dela está feliz e disse que as coisas vão melhorar.”

“É o que eu desejo para ela.”

Umas três semanas depois daquele dia encontrei Claudia novamente. Ela não estava no caixa. Estava em treinamento para ser supervisora em outra loja da rede de mercados. Estava contente e quando passou por mim ela disse:

“Serena vai voltar na semana que vem.”

Achei estranho:

“Mas ela não está grávida?”

“Estava. Perdeu a criança. Está abalada. Esperando se recuperar para voltar.”

“Pobre garota.”

Ela moveu os ombros num gesto de resignação e disse:

“A vida prega algumas surpresas estranhas. Coitada da Serena. Dois golpes em sequência. Mas acho que isso é sinal de que alguma coisa boa a espera lá na frente.”

Era uma teoria sem base sólida. Talvez fosse uma espécie de mantra para a pessoa seguir em frente. Uma frase filha da velha frase:

“A esperança é a última que morre.”

Eu disse:

“Espero. Estas pancadas machucam muito.”

Claudia estava ficando importante e conversando menos. Eu fui embora. A partir da primeira semana de abril passei a ir ao mercado uma vez a cada três dias, para evitar aglomeração. E em horários de menor movimento. Fiquei um bom tempo sem ver a Claudia. E muito menos Serena. No começo de maio, quando encontrei Claudia novamente, estava na supervisão. Eu passei perto e perguntei:

“Vai ficar na supervisão agora?”

“Não. Meu treinamento terminou. Estou apenas esperando a transferência para outra loja. Deve sair ainda esta semana.”

“Parabéns!”

Ela deu um enorme sorriso por trás da máscara branca. Uma pena não ver aquele sorriso, mas era possível percebê-lo olhando em seus olhos que ficaram miúdos, quase fechados. Afinal, não era apenas a promoção. Era um salário maior. Ainda mais numa crise econômica sem precedentes que se anunciava ainda mais grave por conta do vírus que em São Paulo já levava centenas de pessoas para o cemitério, em Pernambuco virou caos e em Manaus se transformou em ópera macabra. Os trabalhadores não sabiam se ficavam em casa ou se iam trabalhar. Os empresários queriam gente comprando em suas lojas e alardeavam que as pessoas tinham que sair de casa. Uma balburdia. As ruas ainda estavam cheias e junto com as pessoas o vírus circulava infectando muitos e matando outros. Uma promoção em época de desemprego e crise era para comemorar.

Ela disse:

“Obrigada!”

Eu olhei para os caixas e perguntei:

“Eu não vi mais a Serena.”

“O senhor não sabia?”

“Não sabia o quê? Ela engravidou de novo?”

“Não. Ela morreu.”

Aquilo foi um choque.

“Como, morreu?”

Claudia ficou séria. Ela disse e os olhos miúdos ficaram marejados.

“Coitada da Serena. Não teve sorte.”

A observação fazia sentido naqueles dias. Para continuar vivo era preciso tomar muitos cuidados, ficar em casa, e ter sorte. Mesmo tomando cuidados pessoas eram infectadas. Eu, por exemplo, só saia de casa para ir ao mercado. Tirava a roupa com a qual fui ao mercado, deixava os sapatos fora de casa e lavava as mãos com sabão e higienizava as compras com alcool gel. Como ficava sozinho o dia inteiro dentro de casa, quando chegava ao mercado estava ansioso para conversar com alguém. Este alguém quase sempre era Claudia. E nos próximos dias nem ela teria para conversar porque seria transferida para outra loja.

“O que aconteceu com ela, Claudia?”

“Quando perdeu a criança teve de ir ao hospital. Sabe como é! Limpeza de utero. Estas coisas.”

Eu fiquei quieto. Achei melhor não fazer perguntas sobre assunto que pouco ou quase nada conhecia.

Claudia disse:

“Ela voltou para casa e descobriu que foi infectada.”

Eu arregalei os olhos e abri a boca por trás da máscara branca, uma máscara de cirurgia que me disseram ser mais eficiente. Mas ela ouviu o que eu disse:

“Caralho!”

Claudia disse:

“Caralho, mesmo! Ela passou mal. Foi internada. E aconteceu.”

“Aconteceu?”

Claudia me olhou. Serena, a doce garota do mercado, simplesmente deixou de existir. O mais estranho que a última vez que a vi foi antes do primeiro caso. Agora ela era mais uma das milhares de pessoas levadas por ele. Pelo vírus.

Claudia disse:

“Sim. Aconteceu.”

Eu fui embora para casa pensando que não era só velhos e doentes que ele levava. Ele levava quem encontrava pela frente, embora muitos conseguissem escapar, mesmo infectados.

 

Written by edilsonpereira