marisa1ab

Uma amiga contou que ela gostava de rapazes de cabelos curtos, bem penteados e que usavam Trim. Ele cortou o cabelo de uma forma que pudesse aplicar o creme, pentear e ficar com aparência asséptica. Ela também ia todos os domingos com a mãe e irmã nova na missa das nove na catedral de madeira. Depois que padre Jordão foi embora da catedral, ele deixou de ir à missa.

“Aonde você vai alinhado?”

“Eu vou à missa.”

A velha não acreditou. Olhou a filha que contraiu os lábios e abriu os braços numa expressão muda que traduzia a frase não dita:

“Eu não sei o que aconteceu.”

Como estava de acordo com seus preceitos a velha deu dinheiro para ele ir ao cinema. O dinheiro veio em boa hora porque ele soube por outra amiga que ela ia ao Cine Maringá à noite com Cassandra. Ele sabia tudo sobre ela. Estudava na mesma escola que ele, périodo noturno, também o dele. Estava três anos na frente e era um ano mais velha. Tinha o rosto fino, grandes olhos verdes, longos cabelos negros e era magra. Chamava-se Estefânia e Cassandra, a melhor amiga, estudava na mesma sala. A mãe chamava-se Raquel, era professora, viúva e morava na avenida Cerro Azul na margem oposta da sorveteria, na casa de madeira dos fundos de outra, a principal do terreno. A irmã chamava-se Edwiges.

Ele contou para o primo mais velho:

“Eu amo esta garota, primo.”

Ele tentou explicar o sentimento:

“Ela é contida, bonita, cabelos compridos e usa saia escocesa. Ela me olha de um jeito misterioso. Não diz sim, mas não diz não. Eu não consigo parar de pensar nela.”

O primo disse:

“Talvez ela goste de você. Mas a mãe não deixa ela namorar.”

Ele também achava. Estefânia não iria contrariar, talvez porque a mãe fosse viúva. A mãe achava que a filha não tinha idade para namoro. Ainda mais com um sujeito mais novo que foi birrepetente, não tinha mãe e o pai sumiu no mundo. O prontuário dele não era animador. Ele sabia. E podia ainda ser pior não fosse a velha. Por esta razão seguia a garota de seus sonhos de longe como um espião seguia James Bond. Sem perder de vista, mas sem aproximar demais.

“Sabe, primo. Essa garota é papo firme.”

O primo contou que também estava apaixonado. Ele olhou-o como se fosse o mais infeliz dos homens e disse:

“Sorte sua que pode vê-la todos os domingos na missa e na escola. Estou apaixonado por uma garota que não posso vê-la. O meu coração queima de amor por ela.”

Dois jovens apaixonados não correspondidos. Ele ficou curioso. O primo não era de abrir o coração. Ele perguntou:

“Por quem você está apaixonado, primo?”

O primo disse abaixando a cabeça envergonhado:

“Pela Wanderléa.”

“Que Wanderléa?”

O primo ergueu a cabeça:

“A Ternurinha.”

Ele não sabia quem estava ficando mais doido se ele ou o primo. Se achava sua paixão impossível, a do primo era absurda. Pelo menos mais dez mil homens estavam naquele momento apaixonados pela Wanderléa. Ele não disse e pensou que por aquele ponto de vista ele era um rapaz de sorte. Podia ver a garota de quem gostava. E continuou vendo. E sonhou com Estefânia. Ele foi dezenas de vezes à missa, comungou. Não podia ficar mais perto dela porque no interior da igreja os homens ficavam numa ala e as mulheres em outra. Ele a espreitou da sorveteria do outro lado da avenida Cerro Azul, para vê-la sair de casa e a seguir de longe. No cinema passava perto para sentir o perfume dela. A única coisa que conseguiu de mais íntimo em todos aqueles meses, o único diálogo com Estefânia foi numa manhã de domingo, quando ela voltava da comunhão, esbarrou nele e disse:

“Desculpa!”

“Não foi nada.”

Foi a única coisa que disse. Ele guardou o pedido de desculpa na memória como se ela tivesse dito:

“Eu te amo!”

Foi um longo, platônico e não correspondido amor. Que durou até o dia em que a professora Raquel mudou para Curitiba com as filhas. E depois que isto aconteceu, ele deixou o cabelo crescer novamente, parou de usar Trim e de ir à missa domingo de manhã. Ele ainda teve sorte. Porque se a distância de Estefânia matou a sua paixão, ela continuou alimentando a paixão do primo pela Wanderléa.

 

Written by edilsonpereira