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O episódio começou assim. Em setembro de 1992, Jurgen Richter mudou-se de Pomerode para Joinville, onde comprou uma filhota de cadela preta. E deu a ela o nome de Lili Rockefeller, porque gostava de nomes bonitos e achava que com um nome bonito e importante a cadela ia desempenhar papel de alguma relevância na proteção da casa e de companhia aos filhos. Por causa do nome ou não, Lili Rockefeller superou as expectativas. Era um animal dócil, protetor da propriedade privada e com um comportamento amistoso e afetivo tão comum aos cães. Quatro anos depois, Lili Rockefeller ficou adulta e bonita.

Jurgen, então se mudou para uma enorme e confortável casa no bairro Anita Garibaldi, depois de ser acossado por constantes aumentos de alugueis feitos pela dona do sobrado em que morava. Aumentos ao quais ele sucumbia por ela provavelmente ter o Mal de Parkinson, pois toda vez que pedia aumento fora de hora a mão direita trepidava frenética como segurasse chocalho ou balançasse guizo. Na realidade aquilo podia ser encenação. Afinal, ela tinha os seus motivos. E o principal era um filho malcriado e ocioso que aos cinquenta anos não trabalhava, sobrevivia dos parcos recursos da mãe e ainda desposou uma prostituta, que também não fazia nada e comia tudo o que a velha colocava na geladeira.

O certo é que Jurgen mudou e levou Lili Rockefeller. A casa nova, no entanto, tinha passado por ampla reforma e o proprietário, o alemão Ormand Morgenstern, que levou a família para trabalhar na Austrália, onde dava um duro danado, impôs a condição de o inquilino não sujar as paredes. Lili Rockfeller tinha o péssimo hábito de colocar as patas nas paredes e para evitar a sujeira, Jurgen colocou o animal num canil no fundo do terreno. Lili não gostou da novidade e latia de dia e de noite. Os vizinhos reclamaram e Jurgen pegou a cadela e a levou para a rodovia ao sul da cidade e soltou o animal perto de um bairro pobre. Soltou e foi para casa sem remorso. Não pensou mais no assunto.

Até exatamente dez anos depois de abandonar Lili Rockefeller, já em Curitiba, onde morava num apartamento perto do Bosque do Papa, numa madrugada Jurgen Richter acordar assombrado por um pesadelo. No pesadelo, Lili corria atrás do carro de Jurgen, um Audi azul e quanto mais ele acelerava, mais o animal corria, até ele parar no acostamento e a cadela correr para os seus braços, lamber a sua mão e morrer esgotada. Aquilo foi de cortar o coração. Através do pesadelo ele tomou consciência do ato abominável. Ele passou a ter pesadelos todas as noites. Sempre o mesmo, acordando assustado e suado, com remorso.

Alheia ao drama do marido, Karlene disse que ia adotar um cão. Jurgen se opôs. Com a ajuda dos filhos, prevaleceu a vontade da mulher. Jurgen tinha motivos para não querer um animal, ainda mais um cão que se apega ao dono. Karlene levantava cedo para trabalhar e coube a Jurgen, que ia trabalhar mais tarde, a incumbência de levar o animal, também uma cadela preta, para passear todas as manhãs na ciclovia perto do prédio em que morava, para esticar as canelas, defecar e urinar, além de latir para os semelhantes. E, claro, ele recolhia os dejetos fecais, ante os olhares inquisidores dos transeuntes e dos atletas matinais.

A cachorra à qual Karlene chamou de Peggy Guggenheim se afeiçoou a Jurgen. Para ser honesto consigo, ele não se sentia à vontade com a situação de tutor de um animal indesejado. No entanto, observou que depois de Peggy Guggenheim entrar no apartamento, os pesadelos desapareceram. Por isso olhava assustado para o bicho achando que era reencarnação de Lili Rockefeller, a cadela abandonada na rodovia. Uma manhã ele encontrou um amigo espírita e perguntou:

“Alcebíades, você acha que os animais também reencarnam?”

O cara pensou que era gozação e respondeu:

“Não enche o meu saco, alemão!”

E foi embora. Mas Jurgen Richter falava sério. Até o jeito de Peggy Guggenheim olhar para ele era o de Lili Rockfeller.

Publicado originalmente na Tribuna do paraná no dia 9 de setembro de 2014.

Written by edilsonpereira