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Meus autores preferidos de romances policiais são Dashiel Hammet, Raymond Chandler, Lawrence Block, James M. Cain e David Goodis. Os dois últimos abordam misérias existenciais humanas (Cain) e sociais (Goodis). Os três primeiros são estilistas, cada qual a seu modo. Chandler odiava Cain. “O que quer que ele toque cheira a bode. Ele representa tudo que detesto num escritor. Gente assim constitui o verdadeiro rebotalho da literatura, não porque escreva sobre coisas imorais, mas porque o faz de uma maneira imoral”, dizia Chandler. Bateu pesado.

Por aí se percebe que embora os caras sejam bons não queria dizer que se entendiam. Mas escrevo sobre o subgênero hard boiled. Os cinco acima pertencem a ele. O hard boiled se desenvolveu no final dos anos 20 e começo dos anos 30 nos Estados Unidos durante a lei seca quando o sistema legal ficou tão corrupto quanto os bandidos. O hard boiled apresenta componentes obscenos, violência extrema, assassinatos e contextos eróticos que quase sempre levam ao sexo explícito. Os protagonistas quase sempre trabalham como detetives e são os heróis da história. Ou melhor, anti-heróis.

Este subgenero dividiu a literatura policial em duas. Antes e depois. O escritor argentino Jorge Luís Borges chamava a primeira de psicológica e a outra de naturalista. E ambas ganharam lugar de destaque em princípio apenas nas estantes de livros policiais. Depois na grande literatura. Em artigo célebre, Raymond Chandler disse que tudo aconteceu aos trancos e barrancos. “A pulp fiction jamais sonhou com a posteridade e quase tudo já deve ter adquirido uma coloração amarelada. E é de fato necessário uma mente bem aberta para enxergar além das capas desnecessariamente espalhafatosas, dos títulos de mau gosto e dos anúncios pouco aceitáveis, para reconhecer a força autêntica desse tipo de história”, disse ele.

Mas o que atraía o leitor nestas histórias, Chandler? “Possivelmente o cheiro do medo é que fazia com que essas histórias proliferasem. Suas personagens viviam num mundo que desandava, num mundo em que, muito antes da bomba atômica, a civilização já criara as engrenagens para a sua própria destruição”, acrescenta. É sobre esta sociedade que ele e outros autores da hard boiled escrevia. E não sobre salões com mordomos assassinos. O fato é que os dois subgeneros robusteceram a literatura policial. Conta-se em bilhões o número de livros vendidos no mundo. Se incluir os pocket books, estes bilhões aumentam mais ainda.

O curioso é que por décadas o romance policial não foi considerado gênero sério. Era entretenimento. Estava na estante da subliteratura e não por falta de leitores. Grandes escritores eram fanáticos por ele e Hollywood não o dispensou de olho gordo na multidão de leitores. No começo, tanto nos livros quanto nas telas, as histórias eram relegadas a mansões soturnas com mordonos estranhos e cadáveres misteriosos. Um detetive astuto usando métodos dedutivos tentava encontrar e encontrava o responsável pelo cadáver. Depois vieram os detetives americanos que não primavam pela elegância e tampouco pela sutileza e bons modos.

Mas vamos ao início desta história e como ela se desdobrou. É dado de barato que o romance policial como gênero literário nasceu em abril de 1841 com a publicação do conto “Os assassinatos da Rua Morgue”, de Edgar Allan Poe, na Graham’s Magazine, da Filadélfia. O conto trata de dois crimes brutais na Rua Morgue em Paris. Os casos parecem sem solução até o detetive C. Auguste Dupin entrar na parada e usando a inteligência como arma desvendar o misterio. Poe ainda escreveu mais duas histórias nos anos seguintes. “O Mistério de Mary Roget” em 1842 e “A Carta Roubada”, em 1844. Estas três histórias lhe rendaram o título de fundador do romance policial.

Poe e Dupin são precursores do romance policial psicológico em contraposição ao hard boiled dos anos 20 e 30 nos Estados Unidos que Borges chamou de naturalista. O romance psicólogico ganhou destaque com a criação de Sherlock Holmes pelo médico e escritor Sir Arthur Conan Doyle. Holmes, investigador londrino do final do século 19 e começo do século 20, apareceu pela primeira vez em 1887 na revista Beeton’s Christmas Annual com “Um estudo em vermelho”. Até 1927 habitou as páginas de quatro romances e 56 contos.

Ele usava o método de Dupin, a lógica dedutiva. É até compreensível que Holmes não fosse um grosso detetive como os americanos do hard boiled. Com exceção de uma, todas as histórias de Holmes ocorrem nas eras vitoriana e eduardiana, entre os anos 1880 e 1914. As histórias na maioria eram publicadas em jornais e revistas como folhetins e depois de comprovado o sucesso em livros. A grande ironia do romance psicológico também chamado de inglês por seus mordomos é que ele foi fundado por um norte-americano: Alan Poe.

O enredo clássico da escola psicológica era formado por um crime com vários suspeitos, seja roubo, assassinato ou sequestro. A identidade do culpado só era revelada nas últimas páginas. Por isso que esta escola foi também chamada de “Who Done It?”. Ou “quem fez isso?” Aliás, “Quem Foi?” era nome de uma revista de histórias policiais em quadrinhos publicada nos anos 50 e 60 no Brasil pela Ebal, com histórias como “A vingança é sempre inútil” e detetives improváveis como Marilyn Holmes, loira sensual como Marilyn Monroe e astuta como Sherlock Holmes. Criação brasileira.

Além de Conan Doyle a escola psicológica foi representada por uma das maiores autoras de romances policiais, a inglesa Agatha Christie, também chamada de “A Rainha do Crime”, criadora dos detetives Hercule Poirot, Miss Marple, Tommy e Tuppence Beresford e Mr. Quin. Agatha publicou mais de oitenta livros, alguns com pseudônomo de Mary Wetsmacott. Ela merece parágrafo à parte nesta história porque é a mais bem sucedida romancista da literatura popular em todo mundo.

Agatha Christie foi traduzida para mais de 100 idiomas e vendeu ao longo dos séculos 20 e 21 a espantosa soma de 4 bilhões de exemplares. Estes números a deixam atrás apenas de William Shakespeare e da Bíblia. O que também prova a força da literatura policial. Claro que além de Holmes e Christie existem outros autores de qualidade no romance policial psicológico. Estes números e nomes dariam para encerrar a história do romance policial não fosse a aparição do romance policial naturalista.

No romance naturalista os detetives não são dotados de inteligência quase superior, conhecimentos cientificos acima da média e outros recursos. Alguns são bem toscos intelectualmente. Mas em compensação os personagens são humanizados, os detetives bebem, se envolvem em romances e sexo com outras personagens sejam boas ou más. E é comum ocorrer neste subgênero tramas paralelas que se sobrepõem umas às outras. Mas como foi que ele surgiu?

Não se pode escrever sobre o hard-boiled sem mencionar a revista Black Mask. Foi em torno dela que surgiu, floresceu e deu origem a outras dezenas de revistas que recrutavam ávidas histórias de autores, muitos dos quais, como Dashiel Hammet, vieram a se tornar celebrados. Hollywood percebeu o sucesso das revistas pulp fiction (ficção de poupa, por usar papel jornal que era barato) vendidas a 20 cents e levou muitos autores como roteiristas para os estúdios da costa oeste, além, claro, de filmar histórias publicadas.

A Black Mask surgiu de maneira insólita. O jornalista Henry Louis Mencken e George Jean Nathan estavam desde 1917 no vermelho com a The Smart Set, fundada sete anos antes. A revista editada em Nova York era a coqueluche da Era do Jazz nos Estados Unidos. Só gente de primeira escrevia para ela. Jack London, Ambrose Bierce, D. H. Lawrence, Joseph Conrad, William Butler Yeats, Eugene O’Neill, Aldous Huxley e até James Joyce. Edmund Wilson era crítico. Era lida com avidez por Theodore Dreiser, Ezra Pound, Sinclair Lewis, F. Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway. Só nesta lista tem quatro Prêmios Nobel. Mas a grana não entrava. Mencken e Nathan para levantar dinheiro tiveram a ideia de publicar uma revista popular com papel barato destinada a trabalhadores e leitores sem preocupações intelectuais.

A revista iria publicar exclusivamente ficção policial, de mistério e detetive, histórias de amor e ocultismo. Tudo o que o povão gostava e ainda gosta. O primeiro número saiu em abril de 1920. O primeiro editor da revista foi Florence Osborne. Que por precaução, abreviou o nome para FM Osborne. Revista popular ia pegar mal. Depois de oito edições, Mencken e Nathan concluíram que o investimento inicial na Black Mask de 600 dólares foi muito lucrativo e resolveram vendê-la para os então editores, Eltinge Warner e Eugene Crow, pela importância de 12 mil dólares. Para eles foi um bom negócio.

A direção da revista passou então para George W. Sutton em 1922 e dois anos mais tarde para Philip C. Cody. Com este último, Black Mask se tornou mais sensacionalista. As histórias escolhidas para publicação eram maiores e complexas, com mais tiros, tripas, sangue e sexo. Estava consolidado o novo jeito de escrever histórias policiais. Do qual Hollywood se aproveitou e ajudou a projetar com os filmes B nos anos 40 e 50, dirigidos em grande parte por diretores que fugiam do nazismo e traziam na bagagem a experiência expressionista.

A revista projetou Dashiel Hammet como principal nome deste novo jeito de escrever. O seu livro, “O falcão maltês”, foi publicado em partes na Black Mask a partir de setembro de 1929 colocando em evidência o detetive Sam Spade. Raymond Chandler começou a escrever histórias policiais porque encontrava-se em dificuldades financeiras. Foi outro que se consagrou nas páginas das revistas populares. Chandler criou um dos maiores detetives dos romances policiais, Philip Marlowe. E além deles, muitos outros como James M. Cain. Depois da Black Mask, surgiram dezenas de outras revistas na mesma linha como Special Detective, True Crimes, Crime Cases, Crime, Women in Crime, True Detective, Popular Detective, New Detective, Crime does not pay, esta em quadrinhos, e muitas outras.

No meio de tudo isto tinha muitas histórias ruins. Mas também muitas histórias boas. E elas em grande sobreviveram. Era a Lei Seca. Os gangsteres estavam em evidência e dominavam amplos setores da vida americana, inclusive em Hollywood. Tudo conspirava para os temas tratados por estas revistas serem populares. Algumas décadas depois o romance policial ganhou novos nichos como thrillers jurídicos, subproduto do subgênero naturalista protagonizados por advogados, promotores, policiais entre outros envolvidos não só em investigar, como também em provar a inocência ou culpa de um personagem que contrata seus serviços.

O escritor Erle Stanley Gardner ganhou fama com este estilo jurídico ao criar o advogado Perry Mason. Os thrillers médicos são a mesma coisa. Os médicos usam seus conhecimentos para combater doenças e epidemias, erros médicos, além de descobrirem circunstâncias e causas de morte através de análises médicas. E assim como acontece com qualquer outro gênero literário, o romance policial se sofisticou e se multiplicou. Claro que não mencionei muitos bons autores neste artigo para ele não ficar ainda mais longo.

Mas o romance policial é irresistível. Tanto que até o poeta Fernando Pessoa criou um detetive chamado Abilio Quaresma. Maurice Leblanc criou Arsène Lupin, o ladrão-cavalheiro. George Simenon, o comissário Jules Maigret. Rex Stout, o Nero Wolfe. No Brasil, Luís Fernando Veríssimo criou Ed Mort, Luiz Alfredo Garcia-Roza criou o delegado Espinosa e Rubem Fonseca o advogado Mandrake. Acredito que com o tempo as fronteiras dos dois subgeneros foram quase rompidas. Mas aprecio uma explicação de Alfred Hitchcock para o interesse e predominância do subgenero psicológico na Inglaterra vitoriana e eduardina. Ele dizia que isto acontecia por causa do sistema economico vigente na época.

“O divórcio era difícil de obter. Um homem que não conseguisse divorciar-se procuraria ver-se livre da mulher do modo mais sutil que lhe fosse possível. Hoje porém os crimes no seio da família são em menor número, pois o divórcio é acessivel. As pensões pagas aos conjuges e aos filhos são deduziveis dos impostos”, diz ele. Assim, ninguém precisou mais cometer crimes engenhosos que exigiam um monumental exercício de inteligência do investigador para descobrir os autores. E com isso, segundo Hitchcock, o subgenero psicológico perdeu uma de suas mais rendosas fontes. É uma teoria interessante. Mas ele não desapareceu totalmente, claro. Afinal, o mundo tem muitos psicopatas para praticar crimes, destes que tiram o sono dos detetives e esquentam as suas cabeças. E se você chegou até aqui e está perguntando o que o título tem a ver com tudo isto eu respondo que foi apenas uma homenagem a Raymond Chandler. Gosto muito deste conto dele.

 

Written by edilsonpereira