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Em algumas épocas do ano, a lua fica azul lá pelas bandas da Lapa. E quando isso acontece, as pessoas que não se preservam se envolvem em paixões arrasadoras, algumas com desfechos trágicos. Quem disse isso foi Stanislau Adamowski, a respeito de um caso ocorrido há alguns anos. Foi numa fazenda na estrada para a Lapa, precisamente num lugar em cuja entrada havia uma grande árvore de fortes galhos retorcidos e uma porteira de tábua trançada.

Adamowski pediu para não entrar em detalhes:

“Toda exatidão é escandalosa!”

O caso que contou é o seguinte: um homem com mais de cinquenta anos se enamorou de Larissa, jovem de ascendência russa, cabelos loiros e dentes perfeitos. E com a anuência dos pais, levou a moça para morar em suas terras. O homem era austero, evitava os vizinhos e seus hábitos eram próprios de um asceta. Ele trabalhava durante o dia na lavoura e à noite bebia, comia e dormia, para, no dia seguinte, reiniciar o ciclo estéril.

Larissa a princípio tentou atrair a atenção do marido:

“Não entendo de vinhos.”

Ele resmungou e pediu mais vinho. Ainda assim, se apiedou do marido, que trabalhava como cavalo e sugeriu que contratasse um homem mais jovem para o ajudar com a terra. Ele a olhou, pensou um pouco e disse:

“Tem razão!”

E parecia ficar nisso quando, numa semana em que a lua estava azul, apareceu um andarilho pedindo água para beber e procurando emprego. O fazendeiro olhou o sujeito, fez algumas perguntas e o aprovou para a terra. Este sujeito era um grego de nome Julian Cristopoulos. Ele entrou para o exército porque não tinha onde ir e saiu porque não viu razões para ficar. Depois de um período no regimento em Curitiba, pediu baixa e foi para o sul como o mais infame dos andarilhos, na direção de São Mateus, atraído pela idéia de encontrar uma bela mulher. Foi este sujeito que ao chegar em casa o marido apresentou a Larissa.

“Começa amanhã e vai morar nos fundos.”

Larissa jamais confessaria, mas diante do jovem teve pensamentos estranhos. E lá no alto, a lua azul sobre os três. Não demorou para Larissa dar ao marido mais vinho que ele pedia e assim se ausentar para encontrar-se com o grego. E não demorou para os dois concluir que naquela história de três, estava sobrando um. Os jovens engendraram o crime, o executaram e enterraram o fazendeiro numa fossa abandonada. O sumiço do fazendeiro não despertou suspeitas. O que despertou suspeitas foi a felicidade do grego e de Larissa. A tristeza e a infelicidade se perdoa, mas a felicidade não. Os vizinhos passaram a fazer perguntas, cujas respostas não se harmonizavam. E, depois, fizeram suposições. E, finalmente, procuraram o homem em lugares estranhos e em um deles, na fossa imunda, o encontraram. Estava em condições hediondas, ainda assim foi reconhecido.

O grupamento policial prendeu o grego e os vizinhos penduraram Larissa em uma corda na árvore defronte à propriedade, para que os insensatos não duvidassem da fúria da virtude. Alguém a recolheu no dia seguinte e deu-lhe um lugar no solo. Com esse desfecho, a calma voltou à região. E os vizinhos nunca mais comentaram o episódio. Anos depois, Julian Cristopoulos ganhou a liberdade e continuou a andar sem rumo, às vezes ao norte, às vezes a oeste, nunca mais ao sul. Mas a lua azul, em algumas épocas do ano, ainda aparece lá pelas bandas da Lapa. É uma lua bonita, disse Adamowski, antes de se afastar, não como um polaco, mas com aqueles olhos de um grego desconfiado.

Narrativa publicada em O Estado do Paraná no dia 9 de agosto de 2004.

Written by edilsonpereira