Naquela semana de 1960, ele soube que o Sr. Agnaldo Monteiro Jardim da Rocha tinha falido. Vislumbrando ganhar mais dinheiro, ele esperou tempo além do prudente para vender os estoques de café que abarrotavam seus armazéns. O preço teve queda em Londres e estourou na porta de sua empresa no Maringá Velho. Vendeu o estoque para o estrago não ser maior. E não foi suficiente. Teve que se livrar da casa, da fazenda e do Cadillac 1957, vermelho de capota branca. O garoto ficou sabendo que o sogro do Sr. Agnaldo veio do Rio de Janeiro e levou a filha e os dois netos, já rapazes. O Sr. Agnaldo não tinha onde morar. Perdeu tudo num golpe, numa fração de dias. Ele fora, até então, o exemplo de vencedor. Tinha porte altivo, olhar astuto e confiante. Era agora um homem assustado, de olhos esbugalhados e de face murcha. Alquebrado, era a encarnação do abandono.

“Vó, o Sr. Agnaldo é um perdedor?”

“Ele foi ganancioso. Um vencedor não pode ser ganancioso.”

A falência causou embaraço no garoto. Afinal, o Sr. Agnaldo chegou à cidade seis anos antes – comprava dos cafeicultores endividados com os bancos e revendia com boa margem para os grandes armazéns do Rio de Janeiro e de Santos. Ele saltou da condição de pequeno comerciante para o maior da cidade. Era um vencedor. E, agora, perdeu. O curioso foi na mesma semana, Pedro Sem Dente, saqueiro no armazém do Sr. Agnaldo e exemplo de perdedor, ganhar na loteria federal. Pedro tinha tanto dinheiro que a primeira coisa que perdeu foi o apelido: mandou o Dr. Newman colocar uma reluzente dentadura. Os dentes eram grandes e Pedro ficou dentuço como um cavalo. O novo apelido não demorou: Pedro Boca de Cavalo. Ele comprou caminhão para transportar café e ajeitou a vida dos cunhados. Pedro Boca de Cavalo estava ridente com os novos dentes.

A avó mexia com a colher num tacho sobre o fogão de lenha da cozinha.

O garoto perguntou:

“Pedro agora é vencedor?”

“Ele não é vencedor. Ele é ganhador. Ganhador de loteria.”

Mas qual a diferença entre vencedor e ganhador? A velha explicou que vencedor vence com esforço próprio e ganhador é ajudado pela sorte. E qual a diferença entre perdedor e não-ganhador na loteria? A velha explicou que perdedor perdeu e não-ganhador deixou de ganhar.

O garoto perguntou:

“O que a senhora está fazendo?”

“Doce de figo.”

Aquilo era bom.

Ele pensou em dizer mas não disse:

“Ser perdedor ou ganhador é relativo. Ninguém perde ou ganha até o jogo da vida terminar. E depois da morte, tudo é irrelevante.”

Algum tempo depois, Pedro Boca de Cavalo gastou o dinheiro que ganhou, vendeu o caminhão e voltou a ser saqueiro. O Sr. Agnaldo ficou louco e andou pelas ruas da cidade até ser encontrado num terreno baldio. Estava morto. A cidade esqueceu-se deles.

Written by edilsonpereira