Ao dobrar os 60 anos, o maestro Andrzej Grabowski pegou uma caixa de sapatos e guardou as partituras das seis sinfonias que compôs sem sucesso, apesar de amigo de uns tipos na Filadélfia e em Berlim. Nenhum se interessou e ele não teve coragem de jogar no lixo. O fato era que Grabowski não era nada, apesar de ter morado em Florença e em Nova York. A carreira se resumiu a postos obscuros de maestro em uma banda dos bombeiros de Petrolina e regente de sinfônica em Jaú.

Aos sessenta e três anos, jogou a toalha e se aposentou. Foi dedicar-se às coisas simples: andar, comer e dormir. Alugou apartamento no Centro Cívico, fazia caminhadas matinais ao São Lourenço. Encontrava o poeta Pignatari e o ator Mello, mas quem daria um tostão furado a um sujeito que fez seis peças sinfônicas inexpressivas? Esta foi a razão que o levou para a companhia de Genocídio, sujeito bem humorado, de origem nordestina. Genocídio tratou de esclarecer a origem de seu nome:

“Coisas do Norte.”

A mãe ouviu no rádio e gostou. Ele ainda tinha irmã de nome Melindra, que não vem ao caso. Grabowski gostava de ouvir Genocídio falar dos estranhos sonhos da noite anterior. Era divertido.

“Sonhei com uma chuva de sapos. Sapos enormes caindo sobre mim e eu sem guarda-chuva.”

Uma manhã ele apareceu descontraído e quase feliz.

“Ouvi uma música do senhor, tocada por um monte de gente.”

Grabowski não gostou. Ninguém executara nada seu. Mas ficou curioso:

“Onde?”

“Em meu sonho.”

Ainda assim, estranho. Que música? Genocídio:

“Começava assim.”

E com a boca fez sons, imitando instrumentos. O regente empacou, comprou caderno e caneta num bazar da Mateus Leme e pediu.

“Comece de novo!”

E tomou nota da forma que ouvia. Ao fim daquela manhã, no apartamento, Grabowski percebeu que tinha diante de si um allegro e um adagio. Aquilo o encabulou. Nas duas manhãs seguintes, Genocídio veio com a mesma história. Grabowski reuniu o scherzo e o finale maestoso. O regente precisou de um pouco de paciência e habilidade para dar forma final à peça. E quando terminou, tinha 49 minutos de música. Ficou tão eufórico, que a enviou a seus amigos na Filadélfia. Ainda naquele ano a sinfonia número 7 de Grabowski foi executada pela Filarmônica da Rádio Filadélfia e no ano seguinte pela Sinfônica do Tabernáculo de Chicago. Foi levada a Tóquio e Sydney. E, através de uma notável orquestra búlgara, foi ouvida na Itália, França e Alemanha. Os críticos mais empedernidos de Londres e Munique a chamaram de vigoroso estertor da música tonal. Tudo isso em dois anos e meio. Em seu apartamento no Centro Cívico, Grabowski espalhou recortes de artigos pelo chão e tentou entender o que aconteceu e o que deveria fazer da vida. A hipótese que engendrou, presumo a mais sábia. Ele parou de andar com Genocídio, apesar de ficar sem amigo. Estava claro que o sujeito perscrutava outros universos através dos sonhos. Grabowski suspeitou que existiam ramificações no tempo, multiplicando o número de passados, presentes e futuros ao infinito. O compositor que Genocídio ouviu era Grabowski, de um universo no qual o seu outro engendrava obras-primas. Ele não tinha o direito de se apropriar delas, sem abalar as leis do universo. Mas, pelo menos, agora, sentia orgulho de, em algum lugar, ser tudo o que sempre desejou, um grande compositor de sinfonias. No entanto, por segurança e honestidade, desautorizou novas execuções da sinfonia número 7.

Publicada em O Estado do Paraná no dia 24 de junho de 2004.

Written by edilsonpereira