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O primeiro catecismo foi para fazer a primeira comunhão e tirar retrato no Foto Maringá. Ele ficou ajoelhado com vela numa mão e missal na outra. Tinha oito anos. Daquele catecismo se lembraria apenas da figura aterradora do demônio induzindo o homem a pecar. Era um garoto casto, inocente e generoso. Usava terno bege de calça curta. Foi um rito de passagem. Algo importante aconteceu. Não fosse a foto no fundo do guarda-roupa não se lembraria mais tarde do momento solene.

Quatro anos depois conheceu o segundo catecismo. Não foi cerimonioso e não teve fotos. Um garoto gordo de nome Cirineu Bastos, cujo pai tinha loja de secos e molhados na Joubert de Carvalho e morava na esquina da Estácio de Sá com Santa Maria, na Zona Dois, o apresentou. Era uma pequena revista. Bastos chamou de catecismo. Ele era matreiro e escolado em malandragem, sacanagem e assuntos correlatos, além de emergir como precoce líder estudantil.

Como seria líder se não soubesse rudimentos de malandragem e sacanagem? Bastos era aloprado. Fumava cigarros americanos comprados no bar do Maringá Clube e via filmes para maiores de catorze anos porque era gordo e alto e adulterou a data de nascimento na carteira de estudante. Agora andava com catecismos. Rui Santana recordaria para sempre da hora e local em que se deu a epifania pagã. Foi uma da tarde, na Avenida Cerro Azul, esquina com Antonio Salema. Ano da Redentora. 1964.

Bastos abriu dissimulado a pasta, olhou para os lados de forma suspeita. Disse que conferia a área para ver se não era observado por um agente da lei. E tirou a revista, abriu e mostrou algumas páginas só para atiçar.

Ele perguntou:

“Já viu algo assim?”.

A revelação profana chocou Santana ao mesmo tempo em que o arrebatou. As suspeitas se confirmavam. As inquietações dos amigos de rua eram corretas. Os adultos faziam aquilo. Eles faziam sacanagem. Chocante. Santana queria ver mais. Claro que queria. Mas Bastos, ardiloso e velhaco, fechou a revista e disse:

“Isto custa dinheiro”.

E quis alugar tal revista por algumas horas mediante pagamento de importância que era uma fortuna. O equivalente a uma semana de lanche no intervalo das aulas. Muito. Santana não tinha. Ele lamentou. Fazer o quê? Era a vida. Ficou jururu. Quando se recuperou do impacto, perguntou para Bastos:

“Quem fez este livro?”.

Bastos disse:

“Carlos Zéfiro. Um grande artista”.

Santana arriscou mais uma pergunta:

“Onde comprou?”.

Bastos soltou uma gargalhada:

“Ah, seu finório manhoso! Acha que vou entregar o mapa da mina sem mísera recompensa?”.

Nunca. Zombeteiro, troçou:

“Arrume dinheiro que eu te alugo. Nada além”.

Uma víbora gorda. Isto sim. Em seguida, penalizado, Bastos olhou mais uma vez para os lados e sussurrou:

“Não conto onde comprei para o seu próprio bem. A polícia procura por todo o Brasil quem faz estas revistas. O sujeito é mais temido que notório comunista. É procurado pela justiça. Nem Fidel Castro é tão odiado”.

Rui Santana achou que fazia sentido. Bastos explicou a razão de o autor ser marginal:

“Corrupção moral. Dizem. Mas eu gosto. Eu sou da fuzarca”.

E não revelou de onde veio a revista.

Ele disse:

“Você é um pirralho”.

Santana respondeu:

“Você também é.”

Bastos não se considerava pirralho. Ele pertencia a uma espécie de sociedade secreta. Os guardiões da fuzarca. Que repassavam os catecismos entre eles num ritual esotérico. A sociedade secreta dos libertinos. Para a qual muitos garotos queriam entrar. Mas nem todos entravam. Só os escolhidos.

 

Written by edilsonpereira