a-Kinski

Mieroslaw chegou no bar do Pilarzinho puto da vida. Desabou numa cadeira e perguntou para o Fiapo:

“Eu sou sexy?”

Fiapo olhou desconfiado. O cara tinha um metro e oitenta, olhos de louco e cara de mau, duas mãos que eram duas marretas. Além disso, casado com uma moreninha e dois filhos. Não bastasse, torcia para o Coxa e tatuou o distintivo do time no alto do braço direito. Para o pessoal ver o distintivo, andava de camisa regata até em dia frio. E, para combinar, bermuda verde e branco e sandálias havaianas, aquelas que, no pé do polaco, tinham cheiro. E não era dos bons. Agora, aquela conversa. Fiapo limpou a garganta, bebeu um gole da cerveja e perguntou:

“O que você falou mesmo, compadre?”

Mieroslaw encarou o Fiapo e disse, já sem paciência:

“Eu sou sexy, pô?”

Fiapo olhou para o Urtiga, como quem diz:

“E aí, o que eu falo?”

Mas Urtiga foi esperto, botou os olhos numa loira magrela na calçada, feia de dar dó e saiu pela tangente. E agora? Fiapo olhou as duas marretas do polaco e pensou em dizer sim, mas ia pegar mal. Se dissesse não, ele podia amassar sua cara. Fiapo bebeu mais um gole da cerveja e disse, cheio de diplomacia:

“Sabe, cara, você é meu amigo e pronto. Do jeito que é, está de bom tamanho. Não precisa melhorar.”

Mieroslaw ouviu e ficou triste.

“Todo mundo acha isso.”

E a coisa ficaria nessa conversa mole, não fosse o Araken estar por perto, de ouvido colado. Quando baixou o silêncio, ele se levantou, pagou a conta e correu para a oficina do Taquara. Bem, Mieroslaw e Taquara tinham um ódio autêntico entre eles, que só não deu em sujeira porque um e outro temiam levar a pior e ter que sumir do bairro. Assim, cada um ficava na sua. Mas Araken chegou provocando o Taquara:

“E aí negão, você fica fugindo do polaco, mas ele está meio bicha. Anda perguntando para os caras se é sexy. Pode?”

Aquilo abalou Taquara. Primeiro a história de fugir do polaco, depois que o polaco baitolou. Pior de tudo, teria de enfiar a mão na cara do sujeito, porque não ficava bem evitar um cara que, apesar de forte, estava com a fama comprometida. Ainda mais com o linguarudo do Araken por perto. Naquela noite resolveu decidir o assunto. Taquara chegou no bar com a camisa do Furacão e provocando. Disparou, sem mais, nem menos:

“E aí coisinha sexy!”

Mieroslaw gelou o sangue, arregalou os olhos e nem pensou duas vezes. Já estava azedo com a história de não ser sexy. Ele levantou e enfiou com gosto a mão na cara de Taquara, que voou e caiu na mesa do Araken. Mas Taquara se levantou e deu o troco. E aquilo esquentou. Todo mundo limpou a área e o acerto de contas correu solto. E foi pancada para bom terço de hora. Até os dois não se aguentarem em pé. Eles estavam de olhos inchados, dentes quebrados, narizes arregaçados, para ninguém duvidar dos dois. Mieroslaw então resolveu perguntar, bufando feito touro cansando:

“Que história é essa?”

Taquara olhou Araken:

“Ele falou que você virou bicha.”

Mieroslaw encarou Araken, que engoliu seco. Ele foi o primeiro a partir para cima do linguarudo. Para ninguém ficar duvidando de sua condição e sair inteiro por aí. Quando largou, o Taquara terminou o serviço, para o Araken aprender ficar de boca fechada. E, assim, as coisas voltaram ao normal naquelas bandas do bairro. Cada um na sua. Menos Araken. No dia seguinte ele se olhou no espelho e teve uma certeza danada. Se um dia teve uma chance, ela foi para o brejo. Com aquela cara estropiada, ele, sim, nunca seria um cara sexy. Nem no Pilarzinho, nem no fim do mundo, para onde teria de fugir.

Publicado em O Estado do Paraná no dia 31 de agosto de 2004.

Written by edilsonpereira