poorgregor

Durante a leitura de Metamorfose de Franz Kafka o leitor vai sendo assaltado por um horror crescente, na realidade um desconforto que se torna insuportável, como a dor de um doente. O leitor se sente solidário com Gregor Samsa e deseja que ele se livre daquele pesadelo que a cada página parece mais real embora também se pareça inacreditável e infactível. Afinal, um homem não pode se transformar num inseto de um dia para uma noite. E acordar um enorme inseto de uma noite para um dia. O tormento não pode continuar. É insuportável. Para Gregor Samsa e para o leitor. É, naturalmente, inaceitável. Como uma doença. Com a qual nenhum homem pode conviver. E por isto aquela situação não pode perdurar eternamente. O leitor e Samsa em sua angustia deseja a supressão daquele estado. E ele acontece. Com a morte. A morte que liberta o corpo de todas as dores e angustias e sobre o espírito ainda permanece a dúvida eterna. No final do livro, há a triste redenção para Gregor Samsa. E o alívio para o leitor com a morte daquele personagem bizarro. Então o leitor, aliviado, como a família de Samsa, se dá conta de que o tempo todo esteve ao lado dela. Da família que desejava se livrar daquele intruso. E não de Samsa porque no fundo, depois de algumas páginas, o leitor já suspeitava de que a jornada angustiante de Gregor Samsa não teria desfecho feliz. A história do pobre Gregor Samsa talvez seja uma metonímia da história de todo homem. E a do leitor seja a expectativa angustiante que todo homem tem diante de sua própria história. O leitor, como Samsa, também está sozinho no mundo. E a família é apenas um equívoco ilusório contra esta solidão.

 

Written by edilsonpereira