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Não é que eu amanheci hoje querendo bancar Sir Lawrence Olivier no papel de Hamlet entoando perplexo “ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre em nosso espírito sofrer pedras e setas com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja ou insurgir-nos contra um mar de provações e em luta por-lhes fim?”. Cena que me fez pensar profundamente no sentido da morte quando li a peça pela primeira vez em 1972. Peça traduzida pelo grande poeta e tradutor Péricles Eugênio da Silva Ramos meu professor em 1980, na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. Mas é que, desde então, tenho grande dificuldade em ser ateu. Primeiro é que eu desconfio das coisas fáceis e ser ateu é muito fácil. Hamlet descobriu e me passou a resenha. Depois, se o sujeito manja um pouco de estatísticas sabe é muito mais elementar e prático concluir que este planeta e nós somos mais resultado de um bom trabalho genético do que obra do acaso. Tudo ao nosso redor no universo é destruição e desolação. É ambiente nocivo, irrespirável, mortal, principalmente para nós. Como é que surgiu uma teteia como o nosso planeta no meio do nada, bacana, parecendo uma ilha da fantasia no Oceano Pacífico. Tem que ser muito criativo para não desconfiar. Eu desconfio que a dona natureza não tem todo este mingau. Ela tem mais o condão da fúria. Não da harmonia criativa.

Para ser sincero, também desconfio que estamos sozinhos no universo conhecido e esta onda toda sobre ETs não passa de desespero de humanos solitários para terem companhia mais bacana e inteligente. O que é uma bobagem. Na realidade eu acho bom que estejamos sozinhos, porque se estes cretinos destes seresinhos existem eles não vão dar moleza pra gente. É padrão entre seres vivos: os mais fortes destroem os mais fracos. E os mais fracos correm dos mais fortes. Até entre os astros a coisa funciona no mesmo padrão. A força gravitacional dos mais fortes atrai os mais fracos para a destruição. Não precisa olhar um ser humano que por sua vez é uma brilhante obra de engenharia genética construída com a reunião de outros milhares de minúsculos seres vivos para ver que um troço deste não é feito assim por acaso sem nenhuma manipulação. Sem nenhum toque genial. Não somos bolinho de chuva da natureza. Quer um exemplo? Olhem na cara de um cachorro, de um gato, de um tigre. São criações diversificadas, maravilhosas, complexas. Criações não resultado do acaso. Por isso tenho dificuldade em ser ateu.

Mas também não estou dando sopa para religiões que para mim, na grande maioria dos casos (98,7 por cento dos casos conhecidos por mim, de acordo com o último censo), são controladas por pessoas com personalidades que percorrem um leque psicológico variado que vai de estelionatários, cafajestes, ladrões, tarados, mesquinhos, mentirosos, safados, cínicos, avaros, moralistas imorais, moralistas amorais, politiqueiros, quando não loucos, cretinos e picaretas. Mencionei tarado? Ah, mencionei. Bispos gostam de ser tarados. Bispos católicos chilenos ou bispos pentecostais brasileiros. Mas eu sei que tem pessoas bem intencionadas nas religiões. No entanto, a maior parte dos bem intencionados que conheci não sabia me explicar nada a não ser revelar a própria perplexidade com a sua própria ignorância diante da existência. Aí, complica. É meio perigoso ir atrás de um sujeito que não sabe para onde vai. Então eu acho que sou um religioso sem religião. Pelo menos se estiver errado não levo ninguém pro buraco. E fico agressivo quando alguém vem com conversa mole religiosa pro meu lado. Por isso, me desculpem se deixei alguém nervoso com esta conversa mole.

De qualquer forma, se alguém apareceu por aqui para ler, aproveito a oportunidade para dar um recado bacana, a pedido de um amigo inglês, de Stratford-upon-Avon. Ele já morreu. Mas antes de morrer ele me pediu: “Edilson, filho de Edil, dá uma força aí pra mim, broder. Não deixe meu legado perecer”. Eu falei que ia me empenhar. Por isso vou dizer o seguinte: se tiverem um tempinho, leiam a passagem do “ser ou não ser” de meu amigo Bill Shakespeare na peça Hamlet. O cara escreve bem. É talentoso. Desconfio que tem futuro imenso no teatro. A passagem fica na Cena I do Terceiro Ato. Muitas pessoas acreditam que esta passagem se passa na Cena I do Quinto Ato, porque Hamlet pega a caveira de Yorick, um falecido bobo da corte e diz “era um tipo de infinita jocosidade e da mais notável fantasia. Ele me levou às costas mil vezes… que horrível, agora, é imaginar tal coisa. Como é nauseante. Aqui ficavam lábios que beijei não sei quantas vezes”. Mas quando Hamlet diz a famosa frase “ser ou não ser” ele está apenas com a sua própria caveira sobre os ombros. Nada mais. Como eu e você. Caveira que guarda um cérebro sofisticado. E que não acredito que seja obra do acaso. Só isso.  

Written by edilsonpereira