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Quando Dito Paca viu João Venâncio, o Sarrafo, na maior elegância evangélica – terno azul escuro, camisa azul claro, gravata cinza e bíblia embaixo do braço – deu uma gargalhada. Ele não sabia em que seita ou igreja o amigo entrou, mas estava na cara que mudou de vida. Virar evangélico é corriqueiro e não devia assustar ninguém. Ninguém que não conhecesse Sarrafo. A última vez que Dito Paca o viu ele era traficante. E estava se dando bem na atividade: era respeitado e não era preso. Por esta razão, Dito Paca debochou:

“Acabou caindo nos braços do pastor, hein mano?”

Sarrafo deu riso maneiro e respondeu:

“É isso aí, mano. Agora eu tô na área do Senhor!”

Os dois sentaram num banco da Rua XV e começaram a conversar alto, até parecia que a intenção deles era que todo mundo ao redor ouvisse o que falavam. Dito Paca estava impressionado:

“Então, tu parou de vender bagulho?”

Sarrafo respondeu:

“Maior verdade, maior verdade.”

Dito Paca perguntou se foi cacete da polícia ou se a concorrência pegou pesado. Afinal de contas, observou:

“Tu era respeitado na área e tava ganhando uns trocos legal.”

O de terno não se apertou:

“Vou te dizer uma coisa, na maior. Acredite, numa boa, a minha vida agora está melhor!”

Até aí tudo bem, mas o amigo queria saber o motivo da mudança. Sarrafo respondeu:

“Simples, a relação custo-benefício na criminalidade não compensa mais. É uma coisa simples. Se bandido esperto parar para fazer as contas, ele cai fora. O negócio não tá compensando.”

Explicação surpreendente.

“Que negócio é esse de relação custo-benefício, meu camarada?”

O outro esclareceu:

“Simples: o crime não compensa! Nunca teve aposentadoria, é atividade de risco, não tem plano de saúde. A concorrência está terrível, fornecedores jogam pesado e o principal: você não tem tranquilidade.”

Dito Paca não acreditava no que ouvia:

“Cê tá de gozação comigo, não é mesmo?”

Sarrafo contou o que aconteceu. Uns caras da polícia pegaram Sarrafo e em vez de prender, começaram a depenar o cara. Na primeira vez, levaram tudo que ele tinha em casa. Ele comprou de novo e na segunda, levaram outra vez.

“Se eu continuasse no ramo ia acabar na sarjeta. Quando eu fui fazer as contas eu estava trabalhando para os caras. É mole?”

Dito Paca sabia que estas coisas aconteciam. Mas se fingiu de otário para descobir mais detalhes:

“No me diga, meu camarada! Tu tava virando gigolô de fardado?”

Sarrafo respirou fundo:

“É desagradável dizer. Mas foi isto. Por isso eu digo: o crime não compensa. A alternativa era ser preso. Caí fora.”

Sarrafo entrou para uma igreja fundada por Cabelo, que foi pastor da igreja do bispo Herculano Robertão.

“Agora não tenho estresse, estou limpo, ninguém me grampea. Não é bonito?”

Dito Paca disse.

“Realmente cê tá mais bonito! Tás numa estica bacana.”

Com aquela pinta, a mulherada caiu em cima de Sarrafo que agora namorava uma professora divorciada. Vida tranquila nos setores material, financeiro, afetivo e religioso.

Dito Paca se interessou:

“Como eu posso entrar nessa boquinha?”

Sarrafo arrepiou:

“Que é isso, meu camarada. Você tem que esperar o chamado do Senhor.”

Dito Paca ficou intrigado:

“E se Ele não me chamar?”

Sarrafo encerrou a conversa:

“Aí o problema é teu, meu chapa!”

A verdade era que Sarrafo nunca deu força para os amigos, nem quando era traficante.

Publicado originalmente na Tribuna do Paraná no dia 28 de novembro de 2013.

Written by edilsonpereira