1a1a

Ele conhecia os moradores, menos um, daquele quarteirão da rua Tomé de Souza. Era um pedaço discreto e calmo da Zona Dois em que residiam alguns bacanas. As árvores de copas frondosas que transformavam a rua num túnel verde contribuíam para a discrição. Ali morava o prefeito. O juiz morou na esquina de baixo e o colonizador de terras Enio Pepino morava na esquina de cima do cruzamento com a rua Antônio Salema. Na outra extremidade, quase esquina de cima com a Germano Mayer, morava o Sr. Francisco, dono do maior comércio de pneus da cidade. Entre as duas esquinas de cima da rua, no meio do quarteirão, havia uma grande casa que ocupava dois terrenos. O dono estava sempre viajando e por esta razão apenas os empregados eram vistos por quem passava na calçada. Um dia ele passou diante desta casa olhando curioso para o seu interior e uma mulher com idade entre trinta e cinco e quarenta anos saiu no portão e o cumprimentou.

“Bom dia, tudo bem?”

“Tudo bem.”

“Você passa sempre por aqui.”

Era caminho entre sua casa e o centro da cidade para ir a igreja, aos dois cinemas do centro, aos circos que apareciam e iam embora, ao ginásio, enfim, ele se habituou a passar por ali. Havia a alternativa da avenida Cerro Azul. Mas ele usou aquele caminho para ir ao ginásio ou quando esteve apaixonado por Estefânia.

“Eu moro aqui perto.”

Ele não a conhecia e nunca a viu por ali. Devia ser governanta nova. E foi adiante. Ele passou mais vezes e ela o cumprimentava e ele respondia até um dia ela o convidar:

“Você não quer entrar?”

Ele pensou com seus botões:

“Entrar para fazer o quê?”

Era uma mulher de estatura mediana, um pouco maior que ele. Tinha cabelos negros e olhar astuto. Ele entrou. Ela começou a mostrar a casa como se ele fosse um comprador.

“Aqui é a cozinha. A cozinheira não veio hoje porque o patrão está viajando. Ele quase não para aqui. A patroa também não está e achei que seria uma judiação ela vir só para cozinhar para mim.”

“A senhora está sozinha neste casarão?”

“Não me chame de senhora. Não sou tão velha. Depois estou cansada de ficar sozinha neste casarão.”

Ela olhou divertida para ele e perguntou:

“Você está com medo de mim?”

“Claro que não. Achei a casa grande para uma pessoa ficar aqui sozinha.”

“Por isso eu chamei você. Estou cansada de ficar sozinha.”

Ela mostrou a sala, quartos, banheiros e depois o último cômodo.

“Aqui é o quarto do patrão.”

Parecia coisa de cinema. Cama de metal pintada de branco, cortinas esvoaçantes. Guarda-roupa enorme. Ele e ela pararam na porta. Ela colocou a mão sobre os seus ombros.

“O que você acha disso?”

“Acho chique pra caramba.”

Ela tirou a mão do ombro dele, foi para a cama e deitou.

“Olha que gostoso! Vem aqui. Vamos deitar na cama do patrão. Depois eu arrumo.”

Neste momento ele suspeitou das intenções da mulher. Seu coração disparou. Ele gaguejou:

“Mas se chegar alguém?”

“Não vai chegar ninguém até a semana que vem.”

Ele caminhou na direção da cama.

Ela disse:

“Feche a porta.”

Ele voltou para fechar a porta enquanto pensava:

“Mas se não vai aparecer ninguém, por que eu tenho que fechar a porta?”

Ele fechou a porta. Ela disse:

“Agora vem aqui.”

“Eu posso saber o seu nome?”

“Claro que pode. Meu nome é Perpétua. Não precisa dizer o seu. Agora vamos brincar de fazer mistério.”

Ele foi brincar de fazer mistério. E foi assim que aconteceu. A primeira vez. Duas horas depois ele deixou o quarto. Como é que fazia agora? Ele achou que não podia ficar por ali. Tinha que ir para casa.

“Acho que vou andando. Foi um grande prazer conhecer a senhora.”

“Eu já disse para você não me chamar de senhora.”

Ele ficou alguns dias sem passar por aquele pedaço da Tomé de Souza. E quando voltou a passar ele olhou para aquela casa. A família do bacana já tinha voltado. Ele não viu a governanta. Não aquela que conheceu e com quem dormiu na cama do patrão e não sabia o nome dele. Ele passou mais vezes até ter a certeza de que ela não estava mais ali. Ele nunca esqueceria o seu nome. Perpétua.

Ele murmurou agradecido aquele nome por alguns dias:

“Perpétua.”

Aos sábados e domingos ia ao cinema sozinho. Agora era diferente. Ele se julgava homem em muitos aspectos.  Não era mais uma criança embora não fosse um adulto pleno. Algo mudou no espírito. Ele entrava no cinema, escolhia uma poltrona, sentava e fechava os olhos e ficava ouvindo as melodias que antecediam a exibição da fita. Podia falar o nome de cada uma. A Summer Place, com Henry Mancini. Em seguida a música que indicava que a sessão ia começar. Blue Tango, com Leroy Anderson. A música dos primeiros anos da cidade e de seus primeiros anos. Sim. Ele sabia que um ciclo de sua vida terminou e começava outro ainda mais difícil. Ele não queria pensar nisto por aqueles dias. Ele queria ir ao cinema e antes de a fita começar, ouvir a música que inundava a sala de exibição.

Written by edilsonpereira