AbrahamPotz12

O professor Xenocrates era o mais temido. Havia uma frase repassada pelos alunos velhos para os novatos que explicava o comportamento do mestre sem precisar esclarecimentos:

“Ele ficou louco no dia em que foi fazer o exame final.”

A história que se contava de ano para ano era a seguinte. Filho de família pobre, porém inteligente e esforçado, ele deixou o interior de Santa Catarina para estudar medicina em Curitiba. Era o melhor aluno da turma. Não se divertia, se alimentava mal na Casa dos Estudantes, estudava e fazia pequenos trabalhos para ter o dinheiro dos livros caros. Estudou de ano para ano sempre com notas boas. No entanto, no dia do exame final do curso, o esforço acumulado durante anos de dedicação foi demais para os nervos e ele sofreu um colapso. E passou a falar frases desconexas:

“As minhas mãos tem dez bisturis sujos de sangue que são os meus dedos.”

As palavras saíam da boca sem que ele controlasse. Os examinadores se entreolharam, foram pacientes, mas concluíram que o aluno mais exemplar do curso sofreu um esgotamento nervoso e precisava se tratar. Eles não lhe deram o diploma de médico. Aquilo foi um golpe para Xenocrates. Ele passou uns meses no sanatório e quando saiu era outro homem. Um sujeito silencioso, agressivo e de gestos inesperados. O antigo aluno de medicina se casou com uma moça pobre e por algum tempo deu aulas em algumas escolas da capital. Depois ele foi para o Norte do Paraná lecionar para o ginásio as disciplinas de física, química, matemática e desenho, em parte por seu conhecimento e em parte pela escassez de professores na região.

“Esta é a história do professor Xenocrates.”

O certo era que seus alunos o temiam e acreditavam na história, verdadeira ou não. Era o único que não pedia silêncio porque ninguém tinha intenção ou ânimo para algazarra em suas aulas.

“Eu sou o professor Xenocrates. Eu sou o professor de desenho.”

Aquele anúncio soou como profecia malvada. No entanto, os meses se passaram e se ele não foi o melhor aluno na disciplina, também não foi o pior. Chegou ao exame final precisando cinco e meio para ser aprovado. Estudou antes da prova até os minutos finais. E depois deixou o caderno embaixo da carteira. Quando terminou a prova, entregou-a para o professor. Ele pegou a prova e depois foi na carteira e puxou o caderno.

“Você colou as respostas do caderno.”

O caderno estava lá embaixo. Era uma forte evidência. Mas ele não colou. Não colou, mas sabia que estava perdido. A prova do crime não cometido nas mãos do professor.

“Eu não colei.”

“O que é isto?”

“É meu caderno. Estudei até minutos antes da prova. Mas não colei.”

“Colou e ainda por cima é um grande mentiroso. O que eu faço com este caderno?”

Ele perdeu a paciência. Estava perdido mesmo. E seus nervos também se esgotaram.

“Eu não colei. E o senhor pode pegar o caderno e enfiar na bunda.”

A sala inteira ficou surpresa. Incluindo o professor que deixou o caderno sobre a carteira e correu na direção do garoto. Que saiu pela sala como um foguete. No corredor, ele olhou para trás e o professor corria em sua direção. Ele correu sem olhar para trás. Quando no patio os colegas o viram correndo e perguntaram o que aconteceu, ele disse sem olhar para trás:

“O professor Xenocrates quer me matar!”

Ele atravessou o portão e foi embora. O pior não era a certeza de ficar para segunda época. O pior era a segunda época ser aplicada pelo professor Xenocrates. Ele ia perder o ano. Faltando alguns dias para o ano acabar, ele foi conferir as notas no edital. E ficou surpreso quando viu a sua. Seis e meio. Não ficou para segunda época. Foi aprovado. Ele pensou no professor Xenocrates. No drama do seu exame final. Se passou dias angustiados temendo ficar para segunda época numa disciplina, nem imaginava a angustia do professor de perder um curso inteiro num exame final. E voltou chorando para casa não as suas dores, mas a do professor. Ele não perdeu nada. Mas o professor perdeu tudo.

Written by edilsonpereira