Uma das poucas coisas que sinto falta nesta quarentena é de perambular pelos sebos da cidade. Curitiba tem muitos e bons sebos, embora eu tenha vontade de vez e outra ir a São Paulo para fazer o mesmo naquela cidade ou ir a Porto Alegre conhecer o sebo Traça que pela internet fico sabendo que tem muitas coisas que me interessam. No entanto, vamos ver o lado positivo da quarentena. Ela me propicia uma oportunidade áurea de abrir pacotes que foi fechando e que contém volumes que quase sempre esqueci que eu tenho.

Tenho uma variedade de livros. Primeiras edições, por exemplo. Tenho a primeira edição de Marco Zero do Oswald de Andrade, da edição brasileira de O Velho e o Mar de Ernest Hemingway e de O Fiel e a Pedra de Osman Lins, para ficar em três exemplos e não espichar muito. Tenho livros autografados por Dalton Trevisan, Jorge Amado, Antônio Calado, Paulo Francis, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Valêncio Xavier e Leonardo Padura.

E muitos outros. Claro que no meio do caminho a gente tem algumas perdas. Perdi por exemplo o meu volume de Vista do Amanhecer no Trópico que me foi autografado pessoalmente por Guillermo Cabrera Infante em São Paulo, em agosto de 1988. Doeu. Mas na vida a gente atira mas também leva alguns tiros. Bola pra frente. O certo é que sempre gostei de livros. Não sei como a coisa começou. Talvez foi em 1962 quando eu ganhei da professora Dulce um volume das histórias dos Irmãos Grimm. Não me esqueço.

E a paixão prosseguiu quando comprei meu primeiro gibi, talvez no mesmo ano. Era Rocky Lane. Fortaleceu mais ainda quando descobri a biblioteca pública que ficava num prédio na esquina das avenidas Duque de Caxias e XV de Novembro em Maringá, onde também aprendi a jogar xadrez. E continuou quando colecionei os livros de bolso de Brigitte Montfort. E sempre subindo um degrau na qualidade dos livros, embora não desprezasse os degraus anteriores. E assim foi. Claro que a Banca do Massao em Maringá e depois a Livraria Bom Livro tiveram uma influência grande no desenvolvimento de meu gosto com os livros. Assim como a Livraria Iracema, de um nordestino chamado Hermenegildo.

Em Londrina, não posso deixar de mencionar o Seu Zezinho, da Livraria Arles. Que abriu no final dos anos 70 uma filial em Maringá no edifício do Centro Comercial. Foi ali em 1979 que conheci pessoalmente o Domingos Pelegrini Júnior. No lançamento de seu livro As Sete Pragas. Tinha uísque a rodo e fiquei de porre. Eu estava de visita a Maringá porque já morava em São Paulo. E por falar em São Paulo, não posso deixar de mencionar os dois anos em que vivi naquela cidade. Se alguns sujeitos tem saudades do tempo em que passou nos bordéis, eu tenho saudade dos tempos em que passei nas livrarias de São Paulo.

Foi ali que meu amor pelos livros foi aos píncaros cubanos da glória magadan. E é por este tempo que estou escrevendo este texto. Sentado aqui em casa nem percebo o tempo passar enquanto vou folheando livros que comprei neste período. Eu passei a ter o hábito de anotar dia e cidade em que comprei o livro. E muitos deles tem os selos das livrarias em que comprei. Eu sei que o brasileiro não lê muito. País tropical, tem sol lá fora, ninguém vai ficar sentado numa poltrona folheando livros. O contrário acontece em países com invernos longos. É a explicação que encontro para o fato de países do Hemisfério Norte terem muito mais leitores que o Brasil, embora tenhamos muitos e bons escritores.

Quando cheguei em São Paulo em julho de 1978, a primeira descoberta foram as livrarias. A Livraria Avanço, na Rua Aurora, perto da Praça da República, foi a primeira parada. Explico. Não sei qual era o esquema que a Avanço tinha com a editora Civilização Brasileira, mas ela sempre tinha, todas as semanas, liquidações de pontas de estoque da editora. E sempre coisas boas. Comprei lá todos os livros do André Gide. E também a primeira versão brasileira das entrevistas com escritores publicadas pela Paris Review. E não só. Foi lá que comprei minha primeira edição de Ulysses, de James Joyce, na tradução de Antônio Houaiss.

Outra livraria que ficou na memória foi, claro, o Círculo do Livro. Que ficava na Bela Cintra ou na Haddock Lobo, num edifício próprio a vinte metros da Avenida Paulista. Tenho dezenas de livros do Círculo. Foi do Círculo a leitura de Germinal de Emile Zola. Mas não esqueço da edição que tenho até hoje de Dom Quixote, de Cervantes. Mas percorri muitas outras livrarias, além da Cultura, Saraiva e da Brasiliense que nos anos 80 viria a se transformar na editora da moda ao lado da Nova Fronteira, como foi a Civilização Brasileira nos anos 60 e 70. A Companhia das Letras surgiu alguns anos depois.

Eu era um cara feliz porque as coisas estavam acessíveis. Nem sempre foi assim. O primeiro local a vender livros no Brasil foi o Collegio dos Jesuítas, no Morro do Castelo no Rio de Janeiro entre os séculos XVII e XVIII. Mas neste lugar eram vendidos bíblias e livros católicos, religião oficial no Brasil. Os que queriam outras coisas tinham que fazer encomendas, que levariam meses para chegar. Aí apareceu, como sempre acontece no Brasil, os muambeiros de livros. Marinheiros portugueses desembarcavam no Brasil com livros para ser vendido na cidade faturavam como aquelas pessoas que compravam uísque no Paraguai.

A primeira grande livraria do Brasil talvez tenha sido a Garnier, que ficava na rua do Ouvidor no Rio de Janeiro, criada pelo francês Baptiste-Louis Garnier e responsável pela divulgação das obras de um certo Joaquim Maria Machado de Assis. Depois apareceu e,m 1919 a Casa Editora O Livro, de Jacinto Silva, ex-funcionário da Livraria Garnier no Rio de Janeiro que foi tentar a sorte em São Paulo, assumindo a gerência da Livraria Garraux. Um ano depois fundou a livraria e editora O Livro. Jacinto era dinâmico e isso refletia em sua empreendimento. O comércio dele era o lugar predileto de Mário e Oswald de Andrade, Guilherme de Almeida e Emiliano Di Cavalcanti, entre outros.

Em 1943 apareceu a Brasiliense, fundada em 1943 por Monteiro Lobato, Caio Prado Júnior, Hermes Lima Arthur Neves e Leandro Dupré. Perdi a conta de quantas vezes fui na livraria na rua Barão de Itapetininga, 99, um lugar que marcou época na cultura paulista e brasileira. Era lá que se encontravam os caras do Grupo Santa Helena, dentre outros intelectuais. A Brasiliense foi palco da criação do Partido dos Trabalhadores com o então líder sindical Luis Ignácio Lula da Silva e Eduardo Suplicy em 1978. Chegou a vender cerca de 40 mil livros por mês.

Ela foi a editora que mais vendeu livro no Brasil na década de 1980. As suas coleções Encanto Radical, Circo das Letras, Primeiros Passos fazem parte da história do livro no Brasil. Mas também fui frequentador assíduo da Nobel fundada em 1943 pelo italiano Cláudio Milano em homenagem ao prêmio Nobel. Ela ficava na Rua da Consolação em frente à biblioteca Mário de Andrade. E não podia esquecer da Parthenon. Foi lá que mostrei um livro erótico para uma colega que estudava na Casper Líbero e a garota quase teve um orgasmo porque nunca tinha visto aquelas coisas. Este é o tipo de experiência que a gente não esquece.

A Parthenon tem uma história curiosa, além desta minha com minha colega. Ela nasceu em 1946 tendo como seus donos os bibliófilos José Mindlin e Cláudio Blum. Ficava na Vila Normandia, perto da avenida São Luiz. O José Mindlin ia para Europa comprar livros mais baratos por conta da crise econômica do pós-guerra. A livraria acabou ficando com cara de biblioteca. Quem gostava de livro adorou, porque tinha muitas raridades. O diacho era que Mindlin queria os livros fossem para a biblioteca dele. Assim, quando um livro era vendido, ele avisava o sujeito para comprar vender para ele quando não tivesse mais interesse em ficar com o livro.

Foi na Mestre Jou que comprei Bom Dia para os Defuntos de Manoel Scorza. Um livro que achei e ainda acho maravilhoso. A editora foi criada por um imigrante chileno, Felipe Mestre Jou, em 1952 na Praça Antônio Prado. Ele importava livros da Espanha, Inglaterra e França. Traduzia obras para estudantes universitários e professores. Mestre Jou faleceu em 1980 e sua livraria fechou as portas 1983. Também não me esqueço da Livraria Duas Cidades, que ficava na Bento Freitas 158 e publicava livros dos poetas concretistas. Ela foi inaugurada em 1954 pelo Frei Benevuto e pertencia a Ordem Dominicana.

Um dia saindo da livraria me deaparo com um sujeito parado na porta de uma loja próxima. Depois vim a saber que era o baiano Ronilson Nogueira Moreira, mais conhecido pelo nome artístico Rony Cócegas. A mulher dele ra dona de uma pequena loja. Vou parar por aqui. Não poderia esquecer do Sebo Tupy, perto da Praça da Sé e de muitos outros endereços. Não esqueço jamais as livrarias de São Paulo. Mas se tivesse que apontar qual a livraria em que me senti mais fascinado não poderia deixar de mencionar a Libreria Mas Puro Verso, em Montevidéu. Quem entra naquela bela livraria simplesmente não quer sair mais. Seria o melhor lugar do mundo para passar uma quarentena.

Written by edilsonpereira