Se alguém compartilha o pensamento de Jorge Luís Borges (que disse: “Sempre imaginei que o Paraíso fosse uma espécie de livraria”) certamente vai gostar do filme “A Livraria” (The Bookshop, 2017) dirigido pela espanhola Isabel Coixet. Quem não tem grande interesse por livros pode achar o filme arrastado, embora cheio de paisagens e cenas bonitas, por conta da fotografia de Jean-Claude Carrieu. Portanto é um filme certo para pequeno público, embora quem goste de cinema, especialmente do cinema europeu, possa achar o filme interessante pela delicadeza e tom intimista. Eu vi o filme na Netflix ontem à noite como parte do Cine Quarentena. Ele me tocou.

O filme é baseado em romance da escritora inglesa Penelope Fitzgerald. É a história de Florence Green (Emily Mortimer) que perde o marido que, como ela, gostava de livros. E para manter a paixão do marido pelos livros – e também dela, claro – decide abrir uma livraria em Hardborough, uma pequena cidade portuária da Inglaterra onde foi morar. Isto em 1959. A cidade teve há mais de cinquenta anos um livreiro. Mas quando ele foi embora ninguém sentiu saudade. E tem um velho solitário que mora num grande casarão que é a propriedade mais antiga do lugar e ele passa os dias lendo livros. O nome do velho é Sr. Edmund Brundish, interpretado com sensibilidade pelo veterano Bill Nighy.

A cidade é uma típica cidade pequena. Todo mundo sabe o que acontece com todo mundo. As confidências criam asas e as histórias surgem do nada e tomam a dimensão de fatos reais embora nem sempre sejam. Dizem por exemplo que o Sr. Brundish mora sozinho porque a mulher num belo dia foi catar amoras para lhe fazer uma torta, mas morreu afogada no pântano. Por isso todos admiram e usam um ar solene ao falar dele. Na realidade, o Sr. Brundish foi casado seis anos e os dois eram amigos e chegaram a conclusão de que o casamento acabou. Ela foi embora para Londres. Isto foi há 45 anos. Desde então ele nunca mais a viu embora tenha notícias dela. Sabe por exemplo que ela está bem de saúde e engordou bastante porque gosta de comer doces. “Mas não me lembro de ela ter algum dia ter feito uma torta para mim”, diz ele sobre a última versão que corria na cidade sobre o fim de seu  casamento.

Fora o Sr. Brundich, a impressão que se tem é que ninguém mais na cidade se interessa por livros e deseja uma livraria. As pessoas como o banqueiro local não conseguem passar da terceira página sem cair no sono. E o barqueiro fica cansado ao ler. O que faz supor que o projeto da Sra. Green, além de arriscado, está destinado ao fracasso. Ainda mais porque enfrenta outras adversidades. Ela resolve comprar uma velha casa, de onde tira o nome da livraria que se chama The Old House Bookshop. Mas o banqueiro tenta aconselhar a não investir no negócio. Ela é convidada sem conhecer a anfitriã para uma festa da mandona do lugar: Violet Gamart (interpretada por Patrícia Clarkson), que tem outros planos para a velha casa. E se sente ofendida com aquela ideia de livraria.

A madame quer botar um centro de artes no lugar. E diz para a Sra. Green desistir de seu negócio e investir no centro de artes. Violet Gamart é casada com o general Bruno (Reg Wilson) que não comanda nada em casa, até porque a mulher é a maior controladora da cidade. Claro que a Sra. Green não aceita e vai adiante. Para ajudá-la nas tarefas diárias conta com Christine, menina espirituosa e cheia de frases inteligentes, mas que não gosta de livros. Christine é filha de uma senhora simplória e durona, mãe de cinco filhos, interpretada por Lucy Tillett. A garota está na livraria pelo salário. Mas aos poucos se interessa. Crianças são curiosas. Tem também um sujeito com panca de cafajeste, chamado Milo North, interpretado por James Lance, que faz a gente esperar uma sacanagem contra a livreira toda vez que aparece.

Claro que a gente desconfia que a Sra. Green vai se ferrar. E tudo indica que seja pelas mãos de Milo North, aparente capacho de Violet Gamart. Mas a coisa toma rumo surpreendente com o surgimento de uma livraria concorrente, que não aparece no filme, mas abala decisivamente os negócios da Old House. A livraria da velha casa fica isolada. O final não chega a surpreender. E assim fica-se sabendo que a narradora cuja voz é da veterana e talentosa Julie Christie não é a Sra. Green, mas a garota que foi trabalhar com ela. Christine cresceu e inspirada pelo exemplo da Sra. Green também se tornou livreira. Como se vê, não é um tipo de filme cheio de emoções. Mas onde está o atrativo? Nas nuances.

A livraria da Sra. Green não é apenas uma loja de vender livros. É loja de literatura. A gente percebe pelos títulos disponíveis. Ela diz: “Só vendo livros bons”. Ela repete a velha mania de quem gosta de livros, de pegar os volumes, folhear as páginas e sentir o cheiro de livro novo. Literatura é uma coisa, livros de uma maneira geral são outra. O escritor argentino César Aira diz que best-seller é aquele livro que vende muito e em grande velocidade. É o sonho de consumo dos livreiros atuais. Aira diz que é feito para um tipo de leitor que se não existisse o best-seller, não leria outra coisa. “O livro literário é sempre parte de uma biblioteca”, diz. E neste ponto converge com Borges, em sua visão do Paraíso. É isto que faz do filme uma metáfora sensível e deliciosa. No Paraíso não não há vaga para o best-seller. A Sra. Green quer vender literatura e não best-seller. O que torna o seu propósito ainda mais surpreendente. Parece que na cidade esta visão só é compartilhada pelo Sr. Brundish. E assim a gente desconfia que o destino dos dois estão entrelaçados.

Claro que tem pequenas armadilhas. Quando Milo North aparece mefistofélico com um volume de “Lolita”, de Vladimir Nabokov, embaixo do braço, certamente incentivado por Violet Gamart, a gente treme. “Lolita” foi escândalo ao ser lançado nos anos 50. Foi taxado de pornografia. E numa cidade pequena seria explosivo. Mas o livro atrai curiosidade e a gente não sabe se a livreira vendeu os 250 exemplares que encomendou. Deliciosa é a definição do gosto do Sr. Brundish: “Eu gosto de biografias sobre pessoas boas e romances sobre pessoas más”. Interessante também é a reação do Sr. Brundich ao conhecer “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury. Há uma ironia na passagem porque o livro trata de uma sociedade que colocou o livro, a livraria e os leitores na marginalidade.

Estes pequenos jogos fazem o filme ficar delicioso. Em especial na surpreendente e inesperada amizade entre o Sr. Brundish e a Sra. Green. E quando ele morre de infarto diante do portão de sua casa, depois de tentar convencer Violet Gamat a deixar a Sra. Green em paz, a gente percebe que o projeto da livraria foi para o brejo. O final está ali. Na morte daquele leitor que parece dar todo sentido ao projeto insano da livraria na pequena cidade em que além dele ninguém se preocupa com livros. Principalmente a elite mesquinha e invejosa. Neste aspecto, o filme deixa de ser uma história arrastada para se transformar em metáfora do que acontece em todas as pequenas cidades do mundo inteiro. A Sra. Green ofereceu à cidade provinciana a sua versão de um pequeno Paraíso. Mas ao Paraíso só vai quem deseja a salvação.

 

Written by edilsonpereira