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A batalha decisiva da Segunda Guerra Mundial foi a de Kursk entre forças alemãs e soviéticas na Frente Oriental, perto de Kursk, a 450 quilômetros de Moscou, entre 5 de julho e 23 de agosto de 1943. A vitória alemã era fundamental para tentar virar o jogo seriamente abalado com a derrota em Stalingrado (23 de agosto de 1942 a 2 de fevereiro de 1943), onde os russos ganharam com a ajuda do general inverno e de snipers, centenas deles, mulheres. Os soviéticos tiveram duas mil snipers na guerra, apenas 500 sobreviveram. A frente oriental foi infernal para soviéticos e alemães. Stalingrado foi uma carnificina: 2 milhões de mortos. Mas em Kursk não tinha general inverno e mesmo assim os soviéticos foram eficazes na contraofensiva e mais uma vez não economizaram vidas e munições.

A vitória soviética decretou o fim da ofensiva nazista. Ali Hitler perdeu a guerra. Seus generais sabiam. O resto da guerra seria correria dos nazistas pra casa com os soviéticos correndo atrás e matando nazistas até Berlim. Eles estavam furiosos e tinham seus motivos. Na Batalha de Kursk os soviéticos tiveram em 45 dias 863 mil mortos ou desaparecidos contra 198 mil dos alemães. Os russos perderam 1.950 aviões contra 681 dos alemães. Os russos literalmente deram a vida pela pátria.

Como parte do conflito, ocorreu a Batalha de Prokhorovka, considerada ainda hoje a maior batalha de blindados de todos os tempos. De quebra nesta batalha aconteceu o maior custo de perdas aéreas em um só dia na história da guerra. Depois disso restou aos alemães recuar até o fim. E os soviéticos iriam até as praias de Portugal não fosse o providencial desembarque na Normandia em 6 de junho de 1944, quando a fatura estava liquidada. Os aliados foram lá para evitar que perdessem a Europa continental para Josef Stalin. Além da ofensiva russa, a resistência na maioria dos países europeus ocupados era feita pelos comunistas, como o caso do Marechal Tito, na Iugoslávia. A direita achava melhor conviver com nazistas do que com os comunistas. O colaboracionismo rolou solto inclusive na França. Isto é história. O bicho ia pegar, desta vez, com outro inimigo.

Embora seja a mais decisiva, a Batalha de Kursk não é considerada a maior batalha da guerra que fica por conta da Batalha de Berlim, entre 16 de abril a 2 de maio de 1945, que consumiu a vida de 1 milhão e 300 mil pessoas. É muita gente indo pro céu (ou pro inferno, aí o critério não depende de mim) de uma vez. A Batalha de Berlim é considerada a maior pelo elevado número de vítimas e também porque decreta o fim do conflito. Detalhe: esta batalha, como a de Kursk, envolveu dois países: União Soviética e Alemanha. Entre as cinco maiores batalhas da guerra, soviéticos e alemães estão em outras duas: Batalha de Moscou e Batalha de Stalingrado. Todas as quatro foram vencidas pelos soviéticos. Por isso que se diz que quem ganhou a guerra foram eles.

A única batalha envolvendo aliados (Grã-Bretanha, Canadá, Holanda, Bélgica, França e Polônia) entre as cinco maiores é a Batalha da França, de 10 de maio a 25 de junho de 1940, vencida por Alemanha e Itália. Ou seja: os aliados perderam. Isto é história. Mas no cinema a coisa é outra. Ali a fantasia corre solta. E a plateia compactua. Chora e lamenta. São tantos filmes de guerra com americanos e ingleses vitoriosos em batalhas heroicas que temos a impressão de que 90 por cento da coisa foram feitas por eles e que não fossem os aliados dar um carreirão com jeito de passeio de verão em Hitler, o mundo estaria perdido para os nazistas.

Não foi nada disso, embora sem a produção industrial americana que por volta de 1943 superou a alemã, os soviéticos não tivessem feito tanta firula. Ninguém brinca sem brinquedo. Mas filme é filme. E um destes filmes rende uma cena antológica até hoje. É sobre a batalha das Ardenas, desesperada contraofensiva quando os alemães já estavam com as calças nas mãos e se conseguissem alguma coisa, não conseguiriam impedir que os soviéticos entrassem em Berlim. Mas como se diz no futebol, o juiz não apitou o fim do jogo, então tem jogo.

O nome do filme é Battle of the Bulge (Uma Batalha no Inferno). Aconteceu nas florestas da Valônia, Bélgica, entre 16 de dezembro de 1944 e 25 de janeiro de 1945. Os alemães estavam virtualmente derrotados. Perderam milhares de soldados adultos, os melhores, na frente russa. Tinham que enfrentar americanos e ingleses. Pegaram o que tinham. A piazada alemã. Tudo garoto. E entregaram os melhores tanques que conseguiram fazer. É neste contexto que o filme se desenvolve. Tem uma cena fantástica que antecipa com olhares o desfecho da batalha. A cena envolve um oficial alemão (Ty Hardin, no papel de Schumacher) chamado para comandar os Panzers.

Mas quando ele aparece para conhecer seus soldados, é um bando de garotos. Um dos garotos percebe a decepção do comandante e começa a entoar a Panzerlied, acompanhado pelos demais. Aquilo emociona Schumacher. Mas provoca riso irônico em Conrad seu auxiliar, um cara experiente interpretado por Hans Christian Blech. Conrad sabe que com aquela piazada não vai a lugar nenhum, além do cemitério. Comandante é comandante. Schumacher percebe o drama, olha para Conrad e ordena: “Sing!”. O auxiliar se assusta, mas obedece a ordem e começa a cantar com os garotos, seguido pelo próprio Schumacher. E vão todos gloriosamente para a morte. Uma cena inesquecível não importa de que lado esteja. Isto é cinema. Fico imaginando o que não aconteceu na frente russa, onde houve a verdadeira carnificina no campo de batalha na parte europeia do conflito mundial. Aquilo o cinema não mostra. Porque cinema não se preocupa com a história.

 

 

Written by edilsonpereira