OITO
Vi ontem à noite o western de Quentin Tarantino “Os Oito Odiados” (The Hateful Eight), de 2015, que custou 45 milhões de dólares e arrecadou 155 milhões de dólares, o que acredito ser boa perfomance econômica. É um filme forte como café forte, como todos os Tarantinos que vi. É o melhor western que vi desde “Os Imperdoáveis” (Unforgiven), de Clint Eastewood, de 1992, pra mim um clássico do gênero. Só que o de Tarantino é um filme bem diferente. Comecei impressionado com a cena pura, branca de neve, numa tela panorâmica (Ultra Panavison 70), que não via fazia muito tempo. É o tipo de coisa que não passa em branco. Depois, é o oitavo filme do diretor e não passa em branco o oitavo do título. Achei engraçado e até menos cansativa a divisão do filme em capítulos. E com o filme rolando, não podia deixar de notar certas citações, referências ou reverência de Tarantino ao cinema.

Como, por exemplo, aos filmes de mistério, aos filmes de horror e também ao próprio Tarantino, porque o filme é uma espécie de “Cães de Aluguel” no Velho Oeste. Tem algo de Sam Peckinpah, mas a gente nunca sabe se é Peckinpah ou se é Tarantino mesmo. Logo no começo impressiona o fato de o bandido ser na realidade uma bandida que vai ser levada para a forca, uma escrota chamada Daisy Domergue capturada por um caçador de recompensa. Não me recordo de ter visto isto num western. Fiquei surpreso que o autor da trilha sonora fosse Ennio Morricone. A trilha é bem diferente do estilo inesquecível de outras trilhas memoráveis de Morricone que mereciam ganhar o Oscar, como as feitas para a trilogia do Homem Sem Nome, “Era uma Vez no Oeste”, a lindissíma feita para “Missão”, para ficar nas elementares. E foi justamente esta que ganhou o Oscar. Certamente para corrigir um erro histórico da academia ou as demais concorrentes eram muito ruins. Não vejo outra explicação. 
Marquis Warren (Samuel L. Jackson) leva um tiro no saco. Além de dolorido, letal. Não lembro de ninguém levar um tiro no saco num western. Achei que foi uma compensação moralista porque Warren obriga o filho de um general sulista a fazer boquete no seu pau grande de crioulo antes de matá-lo. O último capítulo pode ser interpretado como leitura original do duelo do OK Curral, talvez o mais famoso duelo da mitologia do Velho Oeste. E, finalmente, a cena final, que não vou contar para não estragar àqueles que ainda não viram o filme. Antológica. E que, na minha opinião, vale o filme. Um tributo a qualquer filme de terror. O pessoal da Hammer Film Productions ia adorar. O final escroto e sanguinário. Mas um filme que foge da pasmaceira de dezenas de produções jogadas para nós todos os anos. É um filme honesto, um bom Tarantino e sinceramente não sei se poderia ser melhor. A gente vai dormir com a sensação de que não perdeu tempo.  
Written by edilsonpereira