Meu próximo livro deveria sair em março. A loirinha do Charlton Hotel é uma série de histórias curtas feitas para a Tribuna do Paraná em 2012. No final tem uma história longa, O estigma de Judy Garland, novela publicada na plataforma digital em 2013. Ao longo do tempo burilei, mudei títulos e acrescentei situações e diálogos nas histórias curtas e conclui que estavam prontas. Faltava publicar. Mas fui adiando. A primeira tentativa foi em 2012 e a última em 2017. Estava angustiado com isso. E este ano atravancou como O Encalhe dos Trezentos, do Domingos Pellegrini.

Meu plano ia além. Queria lançar no segundo semestre a novela policial escrita no final do ano passado. Uma ficção baseada em história real para a Tribuna. A derradeira, antes de deixar o jornal em novembro de 2015. Mas quando ia viajar no começo de março para Maringá para finalizar os dois livros com o Jessé Vidigal, que faz projeto gráfico e diagramação de meus livros depois de 2016, o vírus chegou ao Brasil. E com ele temores, precauções e quarentenas. E mortes. Achei que com rigor tudo estaria controlado entre julho e agosto.

Mas aí entrou em cena o Capitão Cloroquina e parte da população que achava que era gripezinha e ia morrer apenas quem tinha que morrer. Virou uma esbórnia sem fim. Um esculacho. E não podia ser diferente. O resto todos sabem. Estamos vivendo o pesadelo que não sabemos quando termina. Como saia todos os dias, comecei a ficar neurótico no apartamento do São Lourenço. Na metade de maio peguei a cachorra e fui de carro para o litoral. Minha ex-mulher não passava bem. Fiquei oitenta dias. Ela se recuperou e para mim foi excelente mudar de ares.

Fiz passeios por praias desertas com a Belinha. A Cocker Spaniel velha se adaptou por lá. Retornei por causa do câncer dela. Belinha passou por duas cirurgias, a primeira em 2016 e a segunda um ano depois. Mas novo tumor apareceu no começo do ano. A veterinária disse que teria que operar entre agosto e setembro. Mas quando voltei no começo de agosto ela achou melhor esperar mais um pouco. Por estes dias vou pedir para ela buscar a cachorra para um terceiro exame. E, talvez, a terceira cirurgia. A estadia de oitenta dias no litoral rendeu vinte e dois contos para um livro sobre tempos de pandemia. Que espero publicar no ano que vem.

Na volta a Curitiba revisei os contos da praia e a novela para o segundo semestre. O livro tinha 280 páginas. Cortei sessenta. Ficou enxuto. Como as projeções sobre a pandemia foram para o lixo, para não perder trabalho e salvar o ano resolvi ir a Maringá. Teria que ser de ônibus ou avião. Ônibus levaria de seis a sete horas. Avião uma hora. E apenas quarenta reais mais caro. Meu filho Samuel comprou no final de setembro duas passagens para Maringá – ida e volta – pelo cartão de crédito, para os dias 5 e 6 de outubro.

Passei dez dias angustiado. “Será que faço a coisa certa”, pensava dia e noite. Mas os dois livros estavam entalados na garganta e não me deixavam tranquilo. O dia da viagem chegou. Meu filho mais velho, Francisco, me levou ao aeroporto. Quando entrei no avião da Azul, um susto. Não tinha uma poltrona vazia. Fui ao lado de uma velha que retorceu as mãos a viagem inteira. Não era só eu que me preocupava. Jessé me esperava no aeroporto. Cheguei meio dia e vinte em Maringá e fomos direto para a casa dele, num lugar afastado e quase deserto, terreno amplo, para além do Vale Azul.

Pedimos marmitex para não ir a restaurante. Depois do almoço, por volta de treze e quinze, começamos a trabalhar. Fomos até as vinte e três e trinta, com intervalo de meia hora para comprar e comer uma pizza. Fui dormir cansado. Os dois livros estavam finalizados. E gravados no pendrive. Miolos e capas. Agora era acordar na manhã seguinte, esperar as horas passar e voltar para casa. No dia seguinte, continuei na casa do Jessé até perto da hora de voltar, 20h10. Jessé me levou. Mas o avião atrasou e por fim o voo foi cancelado. Jessé tinha voltado pra casa.

A Azul deixou duas opções: voltar de ônibus que sairia em meia hora do aeroporto de Maringá até o Afonso Pena ou de avião na manhã seguinte. Fiquei com a segunda. E, por conta da companhia, fiz um lanche na lanchonete do aeroporto e em seguida fui de táxi para um hotel perto do aeroporto. Nóbile Suítes. Bacana. Terceiro andar. Silencioso. Tomei ducha e cai na cama. Acordei sete horas do dia seguinte, tomei outra ducha e fui para o café da manhã que em hotel bom é sempre bacana. A passagem custou 225 reais e a companhia, pelo atraso, gastou 280 reais comigo com lanche, táxi e hotel.

Saí de Maringá às 10h45 para Campinas. Ao lado de outra velhinha que também foi esfregando as mãos. Quatro poltronas atrás uma velha ainda mais velha, de uns noventa anos, entrou de cadeira de rodas e se alojou. Eu pensei: “Este povo não está sabendo da pandemia?”. Mas quem era eu para perguntar? Também estava ali. Cada um devia ter seus motivos. Cheguei em Campinas pouco depois do meio dia. Esperei o Embraer da Azul, que saiu 14h00 e chegou em Curitiba às 14h35 do dia sete, quarta-feira passada. Francisco me esperava e me levou para casa.

Tudo resolvido. Mas fiquei preocupado. Tomei cuidados, máscara, álcool em gel, até luvas de borracha, mas as coisas em tempos de pandemia são sempre suspeitas. Já se passaram seis dias. Até agora tudo bem. O livro já foi para a gráfica. Deve demorar alguns dias para ficar pronto. A gráfica também está com pessoal reduzido. A aventura ainda não terminou. E tudo pode acontecer. Sobre o livro eu falo amanhã.

Written by edilsonpereira