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Maria Cândida nunca deu bola pra Genival por isso o cara estranhou quando ele a encontrou vindo em sua direção com baita sorriso no rosto. Ele pensou com seus botões:

“Uma hora tinha que chover na minha horta. Até que enfim a danada abaixou a guarda, trancou o mau humor no armário e abriu um sorriso.”

A alegria durou pouco. Ele ficou ressabiado. O sorriso não parecia natural. Tinha coisa estranha. Genival olhou pra trás, pra ver se ela estava sorrindo pra outra pessoa atrás dele. Afinal, já aconteceu este tipo de engano. Ir pro abraço que era pra pessoa que estava logo atrás. Quando acontece isto, o sujeito não sabe onde enfiar a cara. Muito chato. Aconteceu uma vez; duas não. Mas, atrás de Genival não tinha ninguém. O sorriso era pra ele. Genival caminhou na direção de Maria Cândida preocupado com o sorriso da musa inspiradora, pra quem compôs dois sambinhas chamados “Meu tesouro” e “Não judia de mim”, o primeiro de uma nota só e o outro com um monte de notas. Quando aproximou, perguntou:

“Tudo bem doçura?”

Ela disse que estava tudo bem. Ele observou:

“Dá pra perceber.”

Ela perguntou:

“Como dá pra perceber?”

Ele saiu com esta sem saber que ia quebrar a cara:

“Com um belo sorriso no rosto, tudo pode estar bem.”

Ela disse que não estava sorrindo. Ele tinha certeza que aquele troço no rosto dela era um sorriso, mas se ela disse que não estava sorrindo, então ele se enganou.

Ela perguntou:

“Você não me achou mais jovem?”

Sinceramente Genival não achou Maria Cândida mais jovem. Mas disse que sim porque contrariar mulher nunca é bom negócio, principalmente se o cara não vai ganhar nada com isso. Então, pra ele não dar a impressão de que estava mentindo, de que não viu diferença nenhuma em Maria Cândida, além do sorriso idiota, que ela ainda ostentava, ele perguntou na maior cara dura:

“O que aconteceu com você, doçura, que está com uma aparência tão jovem?”

Agora ela sorriu e o sorriso ficou mais estranho que antes.

Ela disse:

“Eu coloquei botox no rosto, pra eliminar alguns pés de galinha. Gostou do resultado?”

Genival quase disse:

“Credo guria, por que você fez esta besteira? Você está com a cara do Coringa do Batman!”

Mas não disse claro, não era otário! Mas foi o que pensou.

Ele respondeu:

“Ficou bom.”

Mentir não é legal. Mas se a mentira vai evitar uma grande confusão e não vai prejudicar ninguém, que mal faz? Ele mentiu. E ali onde ele mentiu, qualquer um mentia. Maria Cândida parece que gostou da mentira e foi em frente, na direção oposta à de Genival, com aquele sorriso idiota no rosto, parecendo caricatura da Mona Lisa. Ou, pior, a versão feminina do Coringa. Genival foi embora pensando que mulher com sorriso no rosto é sempre um enigma. Mas ele estava tranquilo porque conhecia o enigma de Maria Cândida. O nome do bicho era botox. O de Mona Lisa, por exemplo, tem gente que diz que ela era banguela. De qualquer forma, até hoje ninguém sabe por que ela estava com aquele sorriso no rosto. De uma coisa Genival tinha certeza, botox não era. Apesar de Leonardo da Vinci ser grande inventor, além de pintor, ele não inventou o botox.

Depois de ver o resultado do botox no rosto de Maria Cândida, Genival perdeu o fascínio pela musa. Na galeria do Batman, ele gostava da Mulher Gato e não do Coringa. Agora se conformava em saber que Maria Cândida não dava bola pra ele. A Maria Cândida que ele gostava não existia mais. Genival já estava pensando em trocar o nome da musa nos sambinhas. Pensando bem, ele decidiu: ia trocar. Ele contou a história do botox pra Heloísa e ela disse que na ânsia de se parecer mais jovem, muitas mulheres exageram no botox e ficam com cara de quem faz careta.

Heloísa disse:

“E tem muitos homens também embarcando na onda do botox.”

Ela arrematou:

“Ninguém fica bonito quando fica velho, com exceção das pessoas que eram feias. Parece que na velhice os feios ficam bonitos e os bonitos ficam enrugados. Mas é melhor ser enrugado que ridículo.”

Maria Cândida era mais bonita antes do botox. E Heloísa, pensando bem, era uma boa candidata pra nova musa de dois sambinhas órfãos.

Publicado originalmente na Tribuna do Paraná no dia 24 de setembro de 2014.

Written by edilsonpereira