carnies1

Durante o sermão o bispo ameaçou moças e rapazes para não participar dos bailes de carnaval porque era coisa do demônio. O que deixava o bispo fora de si era encontrar na quarta-feira moças sonolentas na fila diante do altar para receber cinzas na testa ainda com confetes enroscados nos cabelos. Os olhos do bispo ficavam duros e frios. Afinal, ele disse nos dias anteriores várias vezes, até ficar rouco:

“Carnaval é coisa do demônio!”

Ninguém na igreja deu um pio. O bispo repetiu para ninguém esquecer:

“Do demônio!!!!”

E agora as moças apareciam com caras de sono e confetes nos cabelos. Era de exasperar. O bispo sabia que no carnaval as moças e os rapazes rompiam as fronteiras dos bons costumes e da moral cristã. Elas ficavam seminuas e eles aproveitavam. Ele também não gostava de máscara carnavalesca, em especial as de expressões demoníacas, porque era uma forma de a pessoa esconder o rosto para cometer pecados. A velha nunca se preocupou com isto porque ela não era sócia de nenhum clube e por esta razão o neto não ia para baile de carnaval. Mas tudo mudou quando um amigo do bispo montou uma espelunca perto do cemitério a que deu o nome de c,lube social e anunciou que ia organizar um baile de carnaval.

“Eu vou pular carnaval!”

Para a velha pular carnaval não era a mesma coisa que ser comunista, mas estava no mesmo lado. O lado do mal.

“Mas o bispo disse que carnaval é coisa do demônio.”

“Este carnaval é organizado pelo Sr.Primo, amigo do bispo.”

A velha ficou em xeque. O clube social era um galpão coberto com teto de zinco, chão de cimento, banheiro fétido e cubículo para vender cerveja e refrigerante. Não passava disso. Tinha mais aparência de puteiro decadente do que de clube. A velha autorizou desde que ele não usasse máscaras diabólicas. E fez um boné para ele usar. O baile era uma coisa sem graça e ele ficou de braços cruzados na beira do salão. Os primos e amigos também foram. A certa altura uma morena magra, da Vila Portuguesa, favela perto do cemitério, se assanhou para o lado dele. Era bonita e uns três anos mais velha. Ela se aproximou e o puxou pelas mãos. Era magra, de seios duros.

“Vem bobo! Vamos brincar que hoje é carnaval.”

Ele foi. Arrastado. Ele não sabia o que dizer e achou melhor perguntar:

“Qual o seu nome?”

“Imaculada.”

Ela não tinha cara de imaculada. Os primos morreram de inveja. Ele olhou para os lados e todo mundo corria em círculos e berrava tentando acompanhar a música. Em poucos minutos ele estava encharcado de suor. Ele ficou dando voltas no salão e pulando. No final do baile, Imalucada pediu o boné de recordação. Como no meio da folia ele a abraçou pela cintura e apalpou umas três vezes o seio dela, por cima da blusa, ele achou que não podia ser ingrato. Principalmente depois que ela disse:

“Por tudo que houve entre nós.”

Fazia sentido. Ele não gostava mesmo do boné. Ao chegar em casa, a velha o esperava:

“Cadê o boné?”

“Dei para uma garota.”

A velha queimou de ciúme. Um trabalho para fazer a coisa e o garoto deu para outra, que ela nem sabia quem era. Os primos decidiram se vingar da folia dele com a mulata.

“Foi uma mulatinha da Vila Portuguesa.”

Ela chamou os primos e um deles sacaneou:

“Olha vó, eu acho que ele engravidou a moça.”

“O que foi que você disse?”

“Ele arrastou ela para o cemitério e engravidou a mulata em cima de um túmulo cheio de velas acesas.”

Aquilo era deboche, mas por ciúme a velha acreditou. A cena dele fornicando a mulata em cima de um túmulo cheio de velas acesas era para deixar qualquer avó em pânico:

“Valha-me Deus. Luxuria e profanação. Você está perdido, menino!”

O mundo caiu na ca beça dele.

“Ela vai pegar o boné e fazer macumba com terra de cemitério.”

Ele ia passar o resto dos dias rastejando na Vila Portuguesa. Toda vez que a mulatinha dissesse o nome dele, correria como cão sem dono para prestar reverência, tudo porque o boné ia ser levado para o maior macumbeiro da região, que entendia da arte de transformar valentões em sujeitos assustados, destes que tremem de medo quando a noite se aproxima. A velha desandou a falar estas e outras coisas ainda piores e ele que teve uma noite agradável foi dormir apavorado. Medo de o dia chegar e encontrá-lo um servo assustado e subserviente de uma mulatinha chamada Imaculada.

Written by edilsonpereira