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Deixei o litoral numa quinta-feira depois do almoço. Foram oitenta dias longe da capital. Seis de agosto quente e ensolarado para um inverno, com extensas camadas de nuvens, como flocos de algodão levitando no céu azul. A cachorra resfolegava no banco traseiro do carro, um Sendero branco. Latia sem parar. Parei duas vezes no caminho para ela beber água e urinar. Mas ela continuou a resfolegar e latir. Até cansar e deitar no banco traseiro. Eu voltava do litoral com saldo positivo. Mais de vinte contos na bagagem e oitenta dias de bons almoços, com peixes e vinho, e jantares frugais. E também imagens de passeios por praias desertas ao fim de cada dia. No começo, os passeios eram com máscara no rosto, ainda motivado pelo temor de ser contaminado pelo vírus. Não demorou para perceber que numa área em que não havia alma viva, lugar rústico e de pouco acesso, não fazia sentido a sugestão do protocolo. Era libertador andar sem máscara na imensidão de areia entre a restinga e o mar. Os passeios contribuíram para amenizar a angustia provocada pelos noticiários noturnos, sempre com notícias ruins.

Não aguentava mais ouvir:

“O número de mortos hoje chegou a…”

Era sempre a mesma ladainha macabra. Uma estatística interminável e crescente. A longa estadia no litoral contribuiu para eu atingir o segundo objetivo na pandemia que era não ficar louco antes de agosto, quando se acreditava que as coisas poderiam estar voltando ao normal, caso os índices de isolamento social sugeridos pela Organização Mundial de Saúde fossem respeitados. Chegar vivo à normalidade era o primeiro objetivo. Não fiquei louco até agosto, mas as coisas não voltaram ao normal. Quer dizer, houve relaxamento geral e as contaminações e as mortes aumentaram. Isto não poderia ser considerado normalidade. No entanto eu não poderia ficar longe de casa por tempo indeterminado. Por isso decidi na terça-feira à noite voltar, ainda que para ficar entocado no apartamento. Pelo menos teria a companhia dos livros. A volta ficou acertada para quinta-feira depois do almoço. Estava agora no interior do automóvel que cortava a estrada com montanhas e vegetação nas duas margens e aproveitei para fazer ligeiros balanços.

“Vi tudo o que era para ver e descansei o que era para descansar.”

Na bagagem trazia histórias que ouvi, anotei e escrevi. Era o que tinha para fazer nas horas vagas. Escrever e ler. À noite, até pedaços de velhas novelas da Globo, reprisadas por causa da pandemia, eu vi. As produções foram interrompidas. E os artistas estavam em quarentena. Nenhuma novela era com a minha amada Viviane Malone. Mas nada era perfeito. A viagem durou duas horas e meia. Ao chegar na capital me espantei com a agitação e aglomerações. Pequenos congestionamentos. Se ao sair para o litoral em maio, as ruas não estavam desertas como seria prudente, mas pelo menos com pouco movimento, ao voltar estavam cheias de gente e carros.

Murmurei como estivesse em outro planeta:

“Isto é absurdo!”

Era inevitável pensar que o vírus iria fazer festa e a pandemia não teria prazo para terminar. Como seriam os próximos meses eu não tinha a menor ideia. Ao chegar ao apartamento, depois de tirar o que havia no carro, atendi uma ligação do litoral. Era Macedônio Hernandez, o argentino dono da churrascaria a poucos metros do mar e que me emprestava o Fusca para conhecer as praias distantes e desertas de Guaratuba.

Ele perguntou como se não soubesse:

“Você foi embora mesmo?”

Eu sentei na poltrona da sala, olhei através da janela do apartamento o céu azul cheio de nuvens e disse sem entusiasmo:

“Não posso fugir do vírus até o fim de meus dias. Vi tudo o que tinha para ver. Fui onde tinha para ir. Estava na hora de voltar. Não tinha mais o que fazer aí. O lugar é agradável, bom para se escapar do vírus, mas agora estou de volta pro meu aconchego, trazendo na mala bastante saudade.”

Ele riu do outro lado.

“Pois acho que você está enganado!”

“Por quê?”

“Sabe quem esteve aqui ontem à noite jantando no restaurante com a irmã?”

Eu não tinha a menor ideia.

“Não!”

“Viviane Malone!”

Aquilo foi um choque. Ela era o meu xodó.

“Viviane Malone?”

“Exatamente.”

“O que ela estava fazendo aí?”

“Ela está em casa de parentes. A duas quadras de onde você estava. A família tem casas aqui na cidade há muitos anos.”

Mal acabara de botar os pés no apartamento e já estava perplexo, um pouco arrependido de ter voltado.

“Não acredito!”

“Ela está aqui há dois meses. E vai ficar até a pandemia acabar.”

Eu murmurei atônito:

“Viviane Malone!”

Macedônio Hernandez riu do outro lado enquanto dizia:

“Exatamente.”

“Ela perguntou de mim?”

Macedônio Hernandez soltou uma gostosa e humilhante gargalhada e disse zombeteiro:

“Ela nem sabe que você existe!”

Era verdade. Viviane Malone nem sabia da minha existência. Mas eu sabia quase tudo da existência dela. Incluindo os três casamentos.

Eu pensei:

“Como as atrizes gostam de casar!”

Eu disse com uma ponta de suspeita:

“Mas o restaurante abriu na pandemia?”

“Está tudo aberto aqui, amigo. Não tem como controlar este povo irresponsável. O prefeito desistiu.”

“Que loucura!”

“Eu adoro este país. Mas ele mais parece um hospício que outra coisa.”

Eu pensei que era verdade.

E perguntei:

“E se aparecer alguém contaminado?”

Macedônio Hernandez respondeu;

“Estou fazendo minha parte. Estacionamento exclusivo e mesas personalizadas.”

Aquilo era uma piada. Eu perguntei:

“O que são mesas personalizadas?”

“Foi um troço que eu inventei aqui. Mas existe algo parecido em Buenos Aires. Privacidade, intimismo e discrição. Gastei algum dinheiro com marceneiro e vidraceiro e valeu a pena.”

“O que você aprontou?”

“Separamos o restaurante em pequenos quiosques envidraçados. Totalmente isolados um do outro. Cada um distante do outro. Totalmente higienizados depois de usados. São dez quiosques. Quem entra não tem contato com ninguém. Não tem auto atendimento. É tudo a la carte. Só entra quem faz reserva antecipada. Cardápio escolhido com antecedência para não ter espera. Quem não segue a regra, não entra. Segurança total. Deu um charme elitista, mas funcionou. A clientela voltou. E só gente bacana.”

Por gente bacana ele queria dizer endinheirada.

Eu disse:

“Até Viviane Malone foi conferir!”

“Até Viviane Malone conferiu e gostou.”

“Puta que pariu!”

“Na crise estão as boas oportunidades.”

“E agora? O que eu faço?”

O meu amigo argentino disse:

“Acho bom você pegar a cachorra e voltar correndo. Talvez possa encontrar a sua amada no meu restaurante. Ou numa praia deserta. Numa praia deserta tudo pode acontecer. Pense nisso!”

Eu nem respondi. Era uma piada. Da qual só ele achou graça, porque estava rindo. Quando parou de rir, disse:

“Eu posso ficar alerta. Quando ela agendar para vir aqui de novo eu te aviso. O que acha?”

Achei que fosse outra piada:

“Não posso ficar mudando de planos como estas atrizes mudam de maridos.”

Era uma boa frase. Ele riu mais uma vez.

Ele disse:

“Este mundo é um pandeiro, meu amigo!”

Pensei: filme de 1947, com Oscarito e Grande Otelo.

E respondi:

“Este mundo é um hospício, amigo.”

Macedônio Hernandez disse:

“Filme de 1944, com Cary Grant, Peter Lorre e Priscilla Lane.”

Era isso. Não tínhamos mais o que falar. Macedôno Hernandez falou para eu me cuidar e desligou. Disse que se quisesse voltar ele dava um jeito. Eu não ia voltar. Não fazia sentido. Embora gostasse de Viviane Malone, ela não tinha ciência de minha existência. Assim como as quinze atrizes estrangeiras das quais eu fiz um perfil por dia para a minha página no Facebook enquanto estive no litoral. Era um passatempo e que meus amigos gostaram. Logo de cara arrumei um pequeno e bizarro problema. Me propus a fazer um perfil por dia. E limitei em quinze divinas. Na hora de escolher não sabia que critério usar. Porque as divinas me acompanharam da infância a idade madura. Achei justo ceder às pulsações emotivas e eróticas do adolescente que fui e eleger as que mais intensamente habitaram a minha imaginação até por volta de vinte e dois anos. Não sei se foi uma escolha racional ou se foi homenagem ao devoto dedicado que fui a elas.

Ali na poltrona fiquei pensando:

“Elas foram por muito tempo namoradas impossíveis, mas sempre presentes!”

Era uma forma de ver as coisas. Depois de cada sessão dominical ou no sábado à noite no Cinema Maringá, no Cine Paraná e depois no Cine Plaza muitos rapazes voltavam com as suas namoradas para casa. Eu voltava com elas. Com as divas dos filmes que acabara de ver. Voltava feliz pensando nelas. O problema era que o sujeito viciava em mulher bonita e inacessível e ficava arrogante. Ele deixava passar muitas vezes a oportunidade de entrar na realidade sexual através de uma garota da cidade, simplória e de natureza generosa. Como se sujeitar a uma simplória depois de dormir sonhando com grandes divas. Na minha lista para os perfis do Facebook estavam Greta Garbo, Marlene Dietrich, Vivien Leigh, Renate Muller, Lupe Velez, Hedy Lammar, Rita Hayworth, Ingrid Bergman, Ava Gardner, Sophia Loren, Jeanne Moreau, Marilyn Monroe, Catherine Deneuve, Julie Christie e Rachel Welch. Quinze. Ainda nesta idade provecta elas me causavam embaraços. Quando terminei de publicar o último perfil senti um profundo remorso por ignorar Lousie Brooks, Jean Harlow, Lauren Bacall, Gene Tierney, Grace Kelly, Audrey Hepburn, Maria Félix, Kim Novak, Gina Lollobrigida, Jane Fonda, Brigite Bardot, Candice Bergen, Monica Vitti, Monica Belucci e Kim Bessinger. Quinze. E seria possível fazer outra lista com mais quinze. E depois dessa, outra. Era como as tivesse traído. No começo do ano, antes da pandemia, estive no litoral e me encontrei com Macedônio Hernandez. Eu lhe falei do entusiasmo juvenil por estas mulheres e ele ficou estarrecido.

Ele perguntou:

“Mas não há nenhuma brasileira entre elas! Você não gosta das brasileiras?”

Era uma boa observação. Eu respondi:

“Claro que eu gosto. Mas evito escrever sobre elas para não arrumar confusão.”

“Como assim?”

Então lhe contei o episódio entre eu e Sônia Braga. Aconteceu no primeiro semestre de 2013. No Facebook, este terreno escorregadio e dinâmico. Um amigo fez comentário um tanto empolgado sobre a atriz que nasceu em Maringá. O comentário foi embaixo de uma foto dela na rede social. Acrescentei algumas coisas. Em menos de cinco minutos apareceu uma mensagem no in box. Fui conferir. Era Sônia Braga.

Ela perguntava:

“Por que você está falando isto de mim?”

À princípio pensei que se tratasse de perfil falso. O Facebook tem muito disso.

Eu perguntei:

“Sônia, é você?”

“Sim. Claro que sou eu.”

“Onde você está?”

“Estou em Nova York.”

“E como você sabe que eu falei o que eu falei?”

“Porque a foto embaixo da qual você fez o comentário está na minha página.”

Eu não sabia. Não tinha reparado. Pensei que fosse publicação de meu amigo. Era quase sempre assim. Eles publicavam fotos de atrizes famosas e sempre aparecia gente para fazer comentários.

Eu perguntei tratando de encurtar a conversa:

“O que você quer de mim?”

“Quero que apague o comentário. Ele é de natureza excessivamente íntima.”

Eu fui lá e apaguei o comentário. Ela agradeceu e esta foi a única vez que falei com Sônia Braga. Não foi um diálogo inesquecível, mas foi o que houve. Quando Macedônio Hernandez ouviu a história foi como lhe contasse uma grande piada. Meu amigo argentino tinha um humor original e era acostumado a achar motivo de riso em situações que eu considerava um tanto constrangedora ou desagradável.

Macedônio Hernandez perguntou, ávido de curiosidade:

“Mas o que você escreveu?”

“Nada demais. Não foi ofensivo ou obsceno. Mas foi algo que ela não gostou.”

“Mas você não se lembra?”

Eu me lembrava, claro. Eu disse:

“A minha tia foi vizinha da mãe da Sônia Braga quando ela morou em Maringá. Eu mencionei isto. Eu presumo que ela considerou a observação provinciana e não gostou.”

Macedônio Hernandez ria. Ele queria mais detalhes. Mas não havia mais detalhes. Foi apenas aquilo.

Ele disse, ainda enxugando as lágrimas dos olhos:

“Me diga que isto não aconteceu! Me diga que foi apenas uma boa história que você inventou para me divertir! Isto não pode ser verdade!”

Eu fiquei perplexo com tamanha excitação:

“O pior é que tudo isto foi verdade!”

E minha observação foi motivo para ele rir mais ainda. Ele achava cômicas estas situações. Como, agora, o episódio de Viviane Malone. Que foi frustrante. Ele me ligou apenas para eu saber o quanto irônico o destino foi comigo.

Como se o destino fosse um amigo nosso, ele disse:

“O destino te sacaneou, meu amigo!”

Ele achava que era caso de rir. Mas aconteceu. Por isso eu era cauteloso em relação às atrizes brasileiras. Mas havia uma lista enorme desde a pré-adolescência de atrizes brasileiras que me atraíram. Leila Diniz, Irene Stefânia, Sonia Braga, Sandra Brea, Vera Fischer, Monique Lafond, Alcione Mazzeo, Rose Di Primo, Darlene Glória, Kate Hansen, a lista era enorme. Algumas delas eram amigas minhas no Facebook. Algo que parecia impossível na juventude. Eu trocava comentários que certamente eram esquecidos em meio a dezenas ou centenas de outros. Mas muitas vezes recebia respostas amáveis. Não podia descuidar. O temor de uma destas senhoras, atualmente com idade superior a cinquenta ou sessenta anos, ler um comentário indiscreto e não gostar dele, por prudência, me manteve num território seguro. Era como o vírus. Todo cuidado era pouco. Por isso que nestes tempos de redes sociais em que um comentário feito no litoral do Paraná poderia ser lido em qualquer lugar do mundo vinte segundos teria de ser pensado antes de publicado. O risco com as divas estrangeiras clássicas e inacessíveis eram quase nulos. Elas certamente não se incomodariam com qualquer tagarelice ou inconfidência. A maioria não lia português e muitas sequer compartilhava este mundo conosco. As brasileiras estavam próximas e vivas e algumas até se transformaram em pastoras evangélicas. Havia risco em fazer qualquer inconfidência num ambiente virtual como se fosse uma mesa de bar. O episódio com Sonia Braga foi uma estranha e constrangedora coincidência, mas também um alerta. O episódio recente com Viviane Malone demonstrava que a prudência era necessária Ela tão próxima. A duas quadras da casa em que fiquei. Era estarrecedor

Eu murmurei:

“Por esta eu não esperava!”

Eu lembrei do sonho que tive de madrugada, antes de acordar para preparar as coisas para a viagem:

“Será que o sonho quis dizer alguma coisa?”

Os sonhos dizem alguma coisa. A bíblia está cheia de exemplos. Eles têm um significado. O diacho é que nunca consigo decifrar. Para mim eles sempre foram como hieróglifos. Eu não sou criptógrafo de sonhos. Mas o sonho incomum e enigmático foi o seguinte. Sonhei com um livro de textos sobre futebol chamado “Enfim, craque!”. Até aí tudo bem. O livro foi escrito por Henry Kissinger e publicado pela Editora Schwarcz. Não era Companhia das Letras. Era Editora Schwarcz que é o nome legal da Companhia das Letras. A Schwarcz era uma editora brasileira com filial em Berlim, que também estava publicando o livro, mas em alemão, claro. A Alemanha era a terra natal de Kissinger. Ele nasceu em Fürth e como era judeu os seus pais fugiram das perseguições nazistas para os Estados Unidos em 1938. Kissinger foi para Harvard e virou um bacana nos Estados Unidos. Ele ainda estava vivo com noventa e sete anos. Nem vou gastar tempo falando do sujeito ambíguo que foi na política. Infame principalmente para os países da América do Sul onde incentivou golpes de estado na Argentina, Uruguai e Chile. Mas ele gostava de futebol. O que fazia dele um sujeito estranho porque os americanos gostavam de beisebol, basquete, futebol americano, hóquei, boxe, automobilismo, tudo menos o que chamavam de soccer. Hoje mudou um pouco. Mas não muito. Kissinger gostava tanto de futebol que estimulou o nascimento do Cosmos, equipe de Nova York nos anos 70 que contratou Pelé, Carlos Alberto, Chinaglia e Beckenbauer. Mas este livro com o qual sonhei não existia. Assim como não existia uma unidade alemã da editora que o publicou. Achei o título do livro interessante. Mas era um livro que não existia.

Eu não conseguia estabelecer relação do sonho com coisa alguma:

“Não é possível que este sonho tenha alguma coisa com Viviane Malone!”

Claro que não tinha. Deixei a sala onde atendi o telefonema de Macedônio Hernandez e fui para o quarto de livros pesquisar alguma coisa sobre Viviane Malone. E depois passei a ver fotos dela. A garota que eu amava tinha entre vinte e poucos anos até trinta e oito. A Viviane Malone que foi se refugiar da pandemia em Guaratuba estava com quarenta e nove anos. Era linda ainda. Mas uma senhora. Não era mais a garota que eu gostava. Ou era?

Era motivo para reflexão.

Eu conclui:

“Ainda gosto dela!”

E por quê? Macedônio Hernandez também perguntou no começo do ano quando lhe contei a história de Sônia Braga e lhe falei das atrizes brasileiras de quem gostava.

Ele quis saber:

“Por que você gosta de Viviane Malone”

O argentino achava o rosto de Malone melancólico, embora de candura de mártir, como fosse madona renascentista. Tinha cabelos negros, olhos tristes. Um metro e setenta. Era mineira, filha de engenheiro e pianista irlandesa, de onde veio o sobrenome. A mãe a incentivou a se interessar por arte e ela fez teatro na faculdade. Aos quatro anos foi para a capital do Paraná onde passou dezessete anos e em seguida foi para o Rio de Janeiro. Atuou em trinta e sete produções para a televisão entre novelas e séries especiais e em vinte e três filmes para o cinema. Ganhou meia dúzia de prêmios e passou a desenvolver atividades ligadas aos movimentos populares. Conviveu com o antropólogo Darcy Ribeiro que influenciou seu interesse por causas sociais. Outra influencia foi o bispo catalão Pedro Casaldáliga que a levou a se interessar pelos destinos dos índios brasileiros. Ela o conheceu quando fez um filme no Araguaia. Estas preocupações eram consideradas bizarras nos meios artísticos que cultivam futilidades, vaidades e insignificâncias, mas sempre atraíram minha curiosidade.

Eu pensava com meus botões sobre o interesse dela por índios e pobres:

“Tudo isto é real ou não passa de mistificação?”

Com o tempo achei que o interesse dela era verdadeiro. Estas coisas poderiam sugerir que a vida dela fosse um livro aberto. Nada. Ao seu modo era uma espécie de Greta Garbo. Com muitos segredos. Talvez, ela repetisse apenas o calvário das divinas para chegar ao pedestal em que a admiramos e com ela sonhamos. Todas tinham as suas feridas. Vera Fischer se queixou de um pai violento, nazista convicto que a obrigava a ler Mein Kampf em alemão. Marlene Dietrich, a divina de Anjo Azul, era odiada em seu país por se opor ao III Reich. Ingrid Bergman foi considerada uma devassa por deixar os Estados Unidos para se casar com um cineasta italiano. E assim por diante. Acredito que por isso o destino não quis que conhecesse Viviane Malone. Para o encanto por ela não quebrar quando entrasse no sagrado território de sua intimidade. Era algo semelhante a um livro que não existia além da residência dos sonhos. E para mim restou nada mais que uma frase patética e insignificante para as últimas páginas de minhas memórias se um dia forem escritas:

“Estive quase ao lado dela durante oitenta dias da pandemia. Mas eu não vi Viviane Malone.”

Acho que isso era tudo.

 

Written by edilsonpereira