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Nasci sete anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial. O conflito esteve presente na minha vida porque um episódio recente que consumiu a vida de 50 milhões de pessoas não pode ser esquecido de uma hora para outra. Ele marca a história e gerações. E a minha, a primeira depois dele, naturalmente seria atingida. Esteve presente de várias formas. Nas comemorações do aniversário da cidade em que morava pelo desfile dos Pracinhas, brasileiros que voltaram vivos da campanha na Itália, onde estiveram como soldados da Força Expedicionária Brasileira.

Depois soube que a presença brasileira no conflito foi mero arranjo diplomático e não teve a influência no desfecho. Os brasileiros integravam um avanço norte-americano. Que, por sua vez, foi mero detalhe diante da carnificina da frente oriental, onde os alemães perderam para os russos milhões de soldados, milhares de aviões, milhares de tanques e também o respeito e a própria guerra. Os russos enfrentaram 100 divisões alemãs e os americanos apenas 6 divisões na Europa. Os números não mentem.

Americanos e ingleses apressaram os planos para entrar no conflito europeu e não ver a Europa sob domínio soviético e comunista. Assim a política do pós-guerra já se anunciava durante o fim do conflito. Veio a guerra fria e o controle do mundo entre duas visões hegemônicas e antagônicas. A pró-americana e a pró-soviética. E veio a liberdade de antigas colônias europeias na África e Ásia, o surgimento da China como nação comunista, as bombas atômicas e de hidrogênio e a revolução cubana. Tudo no rastro da segunda guerra.

Os americanos trataram de fazer o Plano Marshall para remontar uma parte da Europa destruída para ela não cair sob domínio soviético. A criação do estado de Israel e a transferência das tensões mundiais para o Oriente Médio foram consequência do fim da guerra. Os judeus que sofreram tentativa de extermínio, assim como ciganos e minorias perseguidas como homossexuais, não deixaram esquecer os estragos provocados pelo nazismo. Grandes estragos não só materiais como milhões de vidas.

A guerra acabou e deixou um mundo a ser reconstruído. No caso de Alemanha e Japão, material e psicologicamente. Eu não poderia ignorar a guerra porque ela deixou sequelas em todos os campos da atividade humana. Entrei em contato com o pré-guerra e a guerra através de fascículos populares, entre eles História do Século 20 e História da Segunda Mundial, da Editora Abril. Que eram de boa qualidade. Mas também através de livros de bolso e filmes americanos, através dos quais a gente tinha a impressão de que os americanos fizeram todo o serviço.

Quanto mais lia sobre a guerra mais perplexo ficava com uma coisa: está certo que houve o pesado ônus imposto pelo Tratado de Versalhes. Mas os alemães conseguiram equilibrar as coisas. Como se deixaram enredar por algo que parecia conduzi-los a uma tragédia prevista até por seus generais? As perseguições a judeus, democratas e socialistas já insinuavam um percurso tortuoso. Os alemães eram um povo inteligente e se deixaram guiar por um louco assassino. Pareciam hipnotizados. Eu não entendia.

Hoje, quando meu país se vê mergulhado numa patética ópera trágica conduzida por um maluco, que magnetiza milhares de pessoas, acho que entendi um pouco da tragédia alemã. Há um componente bovino e estúpido latente em parte das multidões. Ele espera uma chance para despertar. É fruto de ressentimentos e quando um populista tosco surge com discurso desconexo que faz sentido para ela, baseado em falsas premissas, ela o segue como bêbada numa orgia. O resultado é a tragédia.

A soma de erros cometidos pelos nazistas na guerra foi tão grande que se houvesse alguém de bom senso no meio daquela gente teria impedido que a coisa fosse até onde foi. Mas erros também são cometidos aqui no Brasil. E a caravana insana segue adiante, turbulenta e delirante. Nesta quarentena vejo filmes e leio livros. Um destes filmes, um documentário da Netflix, é O Contador de Auschwitz. Eu fiquei perplexo com o episódio. Um contador de 94 anos é levado a julgamento por admitir que esteve no campo de concentração.

O nome do cara é Oskar Gröning. Que só foi descoberto porque apareceu numa entrevista para a BBC admitindo que esteve em Auschwitz. Ele não matou ninguém. Era um Zé Ruela, embora fosse oficial SS. A função era pegar objetos de valor dos judeus antes de eles irem para o forno crematório. Ele pegou quatro anos e não foi para a cadeia porque era velho demais. Patético. O julgamento feito em 2015 foi uma encenação hipócrita. Um ato de hipocrisia da sociedade alemã. Que tenta passar borracha num passado vergonhoso, enquanto não fez o que devia quando teve chance para isso. Milhares de carrascos dos campos de concentração e de integrantes dos Einsatzgruppen (Einsatzgruppen der Sicherheitspolizei und des SD) foram presos e liberados depois da guerra.

Generais assassinos pegaram poucos anos de prisão e foram cuidar de suas vidas. Oficiais que mataram milhares de pessoas indefesas saíram impunes. Aí aparece um contador e paga o pato de todos estes crimes. Isso é um embuste. Charlatanismo. Pelo menos o filme da Netflix mostra algo interessante. Os julgamentos dos criminosos no pós-guerra foram conduzidos pelo poder judiciário alemão integrado por juízes que fizeram parte do regime nazista. Eles achavam que os criminosos eram combatentes. Que os julgamentos eram injustos. Eles eram contra os julgamentos. Não faz sentido. Assim, centenas de milhares escaparam de ser punidos.

Agora, uma extrema-direita ascendente na Europa alardeia que os crimes que a história registra não aconteceram. A ignorância, a hipocrisia e a tentativa de manipulação são assustadoras. É como um vírus que infecta não apenas na Europa, mas no mundo todo. Aqui no Brasil milhares de pessoas dizem que o nazismo é ideologia de esquerda. E no meio da confusão querem conduzir a sociedade para o caos. O filho do presidente está envolvido em denúncias e o Poder Judiciário contemporiza. O próprio presidente age como criminoso e o judiciário finge que não vê.

Tudo se repete. O mecanismo é o mesmo. Hipocrisia de um lado e covardia e conivência do judiciário de outro. Eu termino de ler um livro chamado “Adeus a Berlim”, de Christopher Isherwood, publicado em 1939. Antes de a guerra começar. Ele relata prepotência, violência, arbitrariedades e perseguição dos nazistas. Está tudo lá. Ele anota os primeiros acordes de uma ópera trágica que conduziu a morte milhões de pessoas. Tudo se repete. E as pessoas de bom senso parecem não conseguir mudar o rumo das coisas. Até ser tarde demais e elas também serem engolidas por este inferno cavado por mãos humanas.

 

Written by edilsonpereira