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            O nome era Valentina. Quando pensava nela eu a chamava mentalmente de Senhora Valentina. Uma mulher elegante. O marido era um homem que as pessoas do bairro de uma maneira geral consideravam distinto, bom e honesto. Ele me cumprimentava com um meneio de cabeça e sorriso como fossemos velhos conhecidos embora nunca tivéssemos trocado uma frase de conversa sequer em todos aqueles anos em que moro ali e que não eram poucos. Eles tinham uma bela casa próxima ao condomínio em que moro, no meio da quadra, depois da esquina. Uma casa grande e confortável. Tinham automóvel mas eu não sabia a profissão dele. O que me fascinava era o afeto que um tinha pelo outro. Iam ao mercado a pé, porque ficava perto de nossos lares, de mãos dadas e conversando como dois eternos namorados. Isto foi por uns dez a quinze anos. Sabia que tinham um filho. Até um dia, há três anos e meio, não vê-los mais juntos. Algumas semanas depois que isto aconteceu comentei com Armênia, a vizinha que tinha um labrador e que vez e outra encontrava nos passeios matinais com a cachorra nas ruas próximas:

            “Aconteceu alguma coisa séria com o Sr. Arnoldo. Eu não o vejo há várias semanas.”

           Ela disse:

           “Ele morreu!”

            Eu não sabia. E fiz expressão de espanto. Ela disse que um câncer repentino e agressivo apareceu e ele foi internado às pressas para uma cirurgia. O tumor foi extirpado, mas o procedimento não foi suficiente para conter a expansão da moléstia para outros órgãos próximos e ao fim de vinte dias ele não resistiu. Do hospital foi levado para uma capela ao lado do cemitério e os parentes foram convidados para a cerimônia de adeus ao Sr. Arnoldo. Armênia me disse que ele estava com cinquenta anos, o único filho se casou e a mulher tinha quarenta e cinco anos. Ela colocou a casa à venda. Queria comprar um apartamento porque a casa era grande para uma pessoa e no apartamento se sentiria mais segura. No entanto, os negócios imobiliários estavam parados há cinco anos por conta da longa e cada vez mais profunda crise econômica. Ela voltou a morar na grande casa. Depois disso eu a vi duas ou três vezes. Estou recordando tudo isto porque eu a vi hoje de manhã. À princípio não a reconheci. Era apenas uma mulher andando a esmo e oscilante, sozinha. Parecia bêbada.

            “Uma mulher andando sem máscara!”

            Era a terça segunda-feira de maio. As ruas estavam desertas. Como sempre desde o primeiro caso sai bem cedo para o primeiro passeio do dia com a cachorra. Sempre com chapéu marrom, máscara cirúrgica branca com válvula azul, casaco marrom longo, calça marrom de veludo, luvas negras e tênis branco. Não parecia haver vida naquelas casas da vizinhança. Ainda mais àquela hora. A minha expectativa era a cachorra defecar o mais rápido o que armazenou nas entranhas nas longas horas comendo ração dentro do apartamento para voltarmos. Mas ela tinha que obedecer aos instintos. E eles eram caprichosos. Ela cheirava tudo que via. O veterinário me disse que aquilo ajudava a relaxar e em seguida a defecar. Enquanto esperava que fizesse isso, a mulher no meio da rua veio em minha direção. A ausência de máscara me irritou. E quando estava a alguns metros eu a reconheci. Era a Senhora Valentina. E pelo jeito queria falar alguma coisa. Ela parecia implorar um abraço e aquilo me aterrorizou. Eu não podia abraçar ninguém. Ela percebeu meu receio, parou, hesitou, deu alguns passos.

            Ela se aproximou de disse:

“Maldito vírus. Esse vírus maldito!”

         E começou a chorar. Eu não sabia o que dizer. Ainda bem que eu estava de máscara. E com máscara o rosto não revelava emoções. A minha voz saiu abafada:

            “O que aconteceu minha senhora?”

            Ela sentou no meio fio da calçada da casa da esquina, como desabasse. E afundou a cabeça entre as mãos e disse desconsolada:

            “O Richard morreu, vizinho! Estou arrasada.”

         Aqui é necessário um esclarecimento. A maioria dos Curitibanos não sabe o nome de ninguém que não seja da família ou do ambiente de trabalho. Por isso chama todo mundo que não seja um total desconhecido de vizinho. Eu entendia que ela não soubesse o meu nome. Eu que sou uma pessoa civilizada e cheguei com mais de quarenta anos na capital tenho outros hábitos. Eu sabia o nome dela embora a chamasse apenas de senhora. Sabia que o nome dela era Valentina. E sabia o nome de seu marido. Senhor Arnoldo. E sabia que ele morreu de câncer há três anos e meio. Por que Armênia me contou. Entendia até o sofrimento dela se estender por tanto tempo. As pessoas em Curitiba por ficarem restritas ao ciclo familiar desenvolvem um apego muito grande por seus entes queridos e sofrem mais quando eles morrem. Até aí, tudo bem. Ainda mais a Senhora Valentina que nos anos recentes morava sozinha numa grande casa. Provavelmente deveria ver televisão o dia inteiro. E algumas horas da noite. Mas não entendia o motivo de ela errar o nome do marido. A explicação que encontrei naquele momento foi ele ter um segundo nome antes do nome de família.

            Eu observei polidamente:

            “A senhora se refere naturalmente ao seu marido, o Senhor Arnoldo. Eu não sabia que havia um Richard no nome dele.”

            Ela levantou a cabeça e me olhou com espanto. Ela limpou os olhos marejados com os punhos e disse;

        “Não, vizinho. O meu marido morreu há três anos e meio. Foi um grande companheiro. E depois que ele se foi eu me senti sozinha. Por isso passava o tempo vendo televisão ou na internet jogando paciência ou tentando encontrar parentes e amigos do tempo de faculdade no Facebook. Mas foi inútil, vizinho. As pessoas estavam cada uma levando as suas vidas e com pouco interesse na vida dos outros. Elas estão muito fúteis.”

            Eu comentei:

“Realmente. A internet por um lado nos aproximou e por outro nos distanciou. Não existem mais laços afetivos.”

Ela balançou a cabeça de forma afirmativa:

“Exatamente isto que eu quis dizer.”

        Eu não ia confessar. Mas eu também passava no computador horas antes e horas depois do almoço jogando paciência e no Facebook fazendo gracinhas que ninguém achava engraçadas. Por breves momentos eu julgava que estava fazendo papel de idiota. Depois achava que era melhor ser um idiota tranquilo do que ser um normal deprimido. Depressão era foda. Ela contou que acabou entrando num grupo da internet de antigos colegas do Centro Cultural Brasil-Estados Unidos preocupados em aprimorar o inglês e que reunia pessoas do Canadá, Nova Zelândia, Austrália, Inglaterra e Estados Unidos. Era um grupo heterogêneo com brasileiros que moravam fora do país e amigos que fizeram nestas cidades que tinham interesse em conhecer pessoas de outros lugares do mundo. Era um ambiente descontraído que permitia a pratica do idioma e de suas entonações regionais, além de troca de experiências, inclusive culinárias.

            A Senhora Valentina  se justificou:

            “O meu inglês estava desaparecendo. Eu era tão fluente! E aqui no Brasil não temos a necessidade de falar inglês. Mas sem prática a gente perde tudo. Vocabulário, gramática, expressões, tudo. E foi assim que o Richard me conheceu no grupo e me adicionou no Facebook. Ficamos amigos.”

            “Quando foi isso?”

“Faz um ano e meio exatamente.”

“Richard era professor de inglês?”

“Não. Artista plástico. Ele morava em Nova York.”

“Quantos anos tinha?”

“Sessenta e quatro.”

“Nova York?”

“Ele mora em Nova York.”

“Morava.”

“Sim. Morava.”

            Pensei em Nova York com ligeiro tremor. A pandemia atacou a cidade sem piedade. Milhares de mortos. Corpos abandonados em decomposição em caminhões abandonados. Velhos mortos aos montes em asilos ou pensões. Enterros coletivos em valas comum em Hart Island, no Bronx. Repentinamente entendia tudo.

             A senhora Valentina voltou a chorar.

“Quando ele morreu?”

“Ontem à tarde. Ele pediu para a irmã dele, Rosalyn, me avisar. O Brian também me ligou.”

“Brian?”

            “Melhor amigo dele. Brian me disse que eu fui a pessoa mais importante na vida dele nos últimos anos. Richard estava feliz e fazia planos para viver comigo em sua fazenda. Foi horrível ouvir aquilo porque era como receber a notícia de que um sonho foi desfeito repentinamente. O dele. E o meu. Brian disse que vai cuidar dos cachorros. Ele tinha dois cachorros. Sansão e Golias. Eram os melhores amigos dele, depois do Brian.”

            Ela chorou mais um pouco, balançou a cabeça e disse:

“Não dormi a noite toda. Estou chorando até agora. Não sei o que fazer da vida. E não tenho ninguém.”

         Como o número de mortos pelo vírus era grande naquele momento nos Estados Unidos, conclui que Richard morreu assassinado pelo vírus criminoso. Era o suspeito número um. Ainda mais morando em Nova York. Ainda mais que a Senhora Valentina se aproximou pronunciado a denunciadora frase:

            “Maldito vírus!”

Ela ficou em silêncio e eu murmurei assustado:

“Então o Richard foi mais uma vítima deste maldito vírus!”

Ela ergueu a cabeça desorientada e indagou:

“Que vírus?”

“O maldito vírus.”

“Maldito vírus?”

         “O Corona. Ele matou muita gente no oriente e agora está matando na Europa e na América. Nestes dias, principalmente em Nova York.”

            Ela de repente pareceu compreender tudo e disse desanimada:

“Não foi o vírus.”

Fiquei confuso. Eu indaguei:

“Mas se não foi ele, o que ele tem a ver com esta história?”

“Esta história. A minha história. A nossa história.”

          Começou como uma inocente amizade. Que fortaleceu a cada dia, com comentários sobre coisas triviais. Em pouco tempo ela sabia dele mais que os melhores e não escondeu segredos. Era apenas uma amizade. Talvez, mais que isso, embora no começo não soubessem.

            Ela respirou fundo e disse:

“Eu estava me sentindo muito sozinha e Richard preencheu o vazio que havia em meu espírito. Não que ele fosse tão especial. Mas não havia mais ninguém. E ele se tornou especial.”

Eu disse:

“Eu entendi.”

Ela me olhou e como tentasse traduzir suas emoções cantarolou com uma voz rouca:

“I found my April dream. In Portugal with you! When we discovered romance, like I never knew.”

            E não prosseguiu com a triste cantoria porque o corpo principiou a estremecer num choro convulso. Esperei aquilo terminar preocupado com a cachorra e também com o fato de estar demorando fora do apartamento quando deveria estar confinado para a minha proteção. Ela contou que há um ano encontrou Richard em Portugal. Ele queria conhecer o país e não queria ir sozinho. Pagou as passagens e se reuniram na Europa. E descobriram que eram especiais um para o outro e fizeram planos. Ele ia se aposentar em setembro. E, depois, pretendia conhecer o Brasil, dar uma volta ao mundo num cruzeiro e finalmente iriam morar na fazenda que ele tinha no Arizona. Valentina achou que uma nova primavera descortinava em sua vida. Aquilo era absolutamente fascinante e inesperado. Todos os detalhes do plano feito por Richard eram anunciados a ela. No dia em que tirou o passaporte, comprou as passagens. Eles conversavam todos os dias pela web cam. Depois do inverno, ele viria ao Brasil. Seria em abril. No entanto, estranhamente, depois de queixar de dores no estomago, em março ele parou de dar notícias. Ela ficou apreensiva. No começõ de abril, quando deveria vir ao Brasil, ele mandou uma mensagem.

            “Por causa do vírus, nossos planos terão de ser adiados.”

Na segunda semana de maio, entrou em  contato. Estava numa cama de hospital. A voz fraca. Ele disse:

            “Perdão, baby, por não ter entrado em contato. Mas fiquei muito doente. E fui internado. Pensei muito em você estes dias. Mas aqui não posso usar o celular.”

            Valentina estremeceu:

“O que você tem, Richard?”

“Câncer no fígado. O médico disse que vai operar. E quer posso ficar bom.”

            Aquele golpe foi mais forte do que se tivesse dito a ela que tudo terminara. Ela poderia resmungar que os homens eram assim mesmo. Daquele jeito não. Ele ainda gostava dela. Ele não veio ao Brasil por causa do maldito vírus. E, depois, adoeceu.

           Ele disse:

“O médico falou que eu posso voltar para casa, baby. Eu vou sarar e nossos planos serão realizados.”

Foram as últimas palavras que ouviu dele. Ele foi para casa. E no último domingo, Rosalyn ligou e disse:

“Valentina, tenho uma triste notícia. O nosso Richard morreu!”

Ela olhou para mim e disse:

“Sabe, foi terrível. Eu não tinha com quem dividir a minha dor. Chorei sozinha a noite inteira.”

           Depois de contar isso, ela se levantou e afastou oscilante com os olhos marejados na direção da ciclovia e do rio Belém, embora parecesse não ter rumo nem noção do perigo. Por falta do que dizer eu perguntei:

            “Onde a senhora vai?”

Ela se voltou e me olhou como não entendesse a pergunta. Por fim agitou a cabeça e disse apenas:

“Não sei.”

            A cachorra se contorceu e finalmente defecou na grama da calçada da casa da esquina. Com exceção da Senhora Valentina que descia para o rio Belém e de mim com a cachorra as ruas estavam desertas. Peguei no bolso do casaco um saco de plástico de supermercado e recolhi as fezes do animal e joguei no lixo. E depois voltei para o apartamento

Written by edilsonpereira