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Foi a Natália quem me avisou:

“A Belinha está doente. Ela está triste e com dores.”

Eu não percebera. Notei que ela estava calada, mas pensei que fosse o calor que a levou a escolher um lugar fresco e a ficar quieta. Fui pegá-la e quando a segurei pela barriga, ela gemeu. Isto aconteceu na tarde de terça-feira.  Na hora pensei que não ia adiantar bancar o esperto ou o omisso: ela não ia sarar sozinha e corria o risco de ficar choramingando à noite e não deixar ninguém dormir. E naquele momento decidi levá-la ao veterinário. Quer dizer, veterinária, que Marlene cuida dela desde que nasceu no começo de novembro de 2006. Marlene disse o que eu já sabia: Bela estava com dores. E disse também o que eu não sabia. Era problema de coluna.

Dores na coluna vertebral são terríveis em todos os seres vivos que tem coluna, já dizia Hipócrates, que não era hipócrita. Marlene aplicou uma injeção na Bela, receitou um monte de remédios para eu dar para ela e avisou:

“Ela está ficando velha. E de agora em diante, se você não tomar cuidado, estas crises podem ser cada vez mais frequentes.”

Cuidado, no caso, seria evitar que ela subisse e descesse escadas, o mesmo acontecendo com sofás e camas, coisas que ela adora fazer. Aliás, todos os cães. Não é fácil. Moro em apartamento e ela gosta de subir e descer as escadas, na ida e volta de suas caminhadas diárias. Acho que falar para um Cocker Spaniel ficar quieto é a mesma coisa que pedir para um tagarela ficar de bico fechado. Disse para a Marlene que vou tentar segurar o bicho e fui embora com a Belinha. Na volta, ela parava em qualquer sombra, esperando o mundo acabar em escada rolante, para não ter que caminhar para casa. No Parque São Lourenço, ela cismou de parar embaixo de uma árvore e olhar o movimento. Era quase cinco da tarde. Pela cara, ficaria ali o resto de seus dias. Tentei botá-la no colo, mas ela se sentia desconfortável e, além disso, estava pesada. Fiquei parado como uma estátua viva, destas que batem ponto na Rua XV, também observando o movimento. O primeiro pensamento que me ocorreu foi:

“De manhã tem mais mulher bonita caminhando no São Lourenço.”

Sorte minha, porque sempre vou de manhã. Mas era uma avaliação precária e injusta, porque estava ali há poucos minutos. E não tinha conhecido na área. Acabei de pensar e vi um tipo caminhando lento, cabeça baixa e mãos cruzadas nas costas. Parecia estar num funeral. Era o Ernesto. Que me viu, veio na minha direção e ficou parado ao meu lado, sem dizer nada. Os dois ali. Olhando o lago, skatistas, gansos, ovelhas, as velhas, os velhos, até que perguntei:

“Aconteceu alguma coisa, Ernesto?”

Ele balançou a cabeça, suspirou fundo e me olhou em silêncio.

Eu pensei:

“Agora vem chumbo. E é do grosso!”

Ele disse:

“Marechal está em seus últimos dias. Ele sofre e vai morrer.”

Eu quis saber o que estava acontecendo e ele respondeu o óbvio:

“Velhice, meu caro! Ele está cego, sem dentes e não para em pé. E sofre.”

Terminou de falar e chorou. Fazia tempo que eu não via um homem chorar. E ali onde ele chorou, qualquer um chorava. Mas dar aquela ideia de jerico, eu quero ver quem dava.

Ernesto disse:

“Eu tomei uma decisão drástica. Vou matar o meu amigo!”

Esqueci o drama de Belinha, e perguntei:

“Ficou louco? Não faça isso!”

Ernesto já tinha tomado a decisão. Por isso estava triste, cabisbaixo e andava olhando para o chão.

“Sabe, andei por esta pista com ele, anos a fio. Eu sou do tempo que podia ficar pelado na Rua Nilo Brandão por horas que ninguém aparecia, pois era tranquilo. Agora tem congestionamento toda hora. Todos estes anos Marechal esteve ao meu lado. Agora ele chora de dor. Ele não aguenta. E eu também não.”

E chorou mais uma vez. Ele disse que ia abreviar a agonia de Marechal com uma injeção letal. A eutanásia foi sugestão do veterinário. Era uma solução meio nazista, mas eficiente. Eu fiquei quieto. Ernesto foi embora em silêncio e sem se despedir. Peguei Belinha, botei no ombro e me afastei pensando na velhice, esta tempestade silenciosa que chega para todo mundo, até para os cães que tem a sorte de encontrar um amigo como Ernesto.

 

Publicado originalmente na Tribuna do Paraná no dia 31 de outubro de 2014.

Written by edilsonpereira