Cuba-Habana

O melhor livro sobre a Revolução Russa talvez seja “Os dez dias que abalaram o mundo”, do americano John Reed. Um clássico. É uma reportagem feita no calor dos acontecimentos. Virou belo filme de três horas e vinte minutos dirigido e interpretado por Warren Beatty. “Reds” (vermelhos) lançado no Natal de 1981 faz trocadilho com Reed. Levou três Oscars, inclusive o de melhor diretor. É bacana. Eu tinha trinta anos quando o vi em 1982. Talvez por isso o filme sobre a Revolução Russa que mais me impressionou foi “Doctor Zhivago”. Tinha catorze anos em 1966 quando o vi.

Nesta idade a gente não é criança e tampouco adulto. Um turbilhão de novidades aparecem. O filme de David Lean lançado em dezembro de 1965 chegou ao Brasil em fevereiro de 1966. Ele parte do romance homônimo de Boris Pasternak de 1956. O filme foi meu primeiro encontro com Julie Christie, a Lara Antipova, papel cogitado para Sophia Loren e Jane Fonda. Ainda bem que não deu certo. Julie nasceu para ser a bela russa. Foi paixão à primeira vista. O filme com duração superior a três horas (havia intervalo) custou uma grana preta e nas primeiras semanas empacou.

Foi a música de Maurice Jarre (“Tema de Lara”, sucesso do ano) que inverteu a tendência. Depois as salas ficaram cheias. Tanto que o filme levou cinco prêmios da academia (trilha sonora, fotografia colorida, figurino, direção de arte e roteiro adaptado) e foi indicado em outras cinco categorias. Quando vi tudo era novidade. Revolução, comunista e russa gostosa. Nunca vira os campos russos brancos de neve (embora o filme fosse rodado na Espanha e cenas no Canadá). A Rússia cenográfica não era muito diferente da original do começo do século.

Não recordo de ter lido um romance inesquecível sobre a Revolução Russa como estes dois livros e filmes. Escrevo isto para concluir que nunca esperei ler um bom romance sobre a Revolução Cubana. Até porque quem poderia escrever sobre o episódio teria que ter participado dele. E as pessoas que participaram ou saíram atirando contra os guerrilheiros de Castro, como o cubano Guillermo Cabrera Infante ou ficaram na defensiva do regime como o colombiano Gabriel Garcia Marquez. Os dois teriam condições porque acompanharam aquilo.

O primeiro não quis falar coisa bonitas sobre homens que considerava gangsteres e dos quais se sentia perseguido. O segundo preferiu não tocar no assunto porque achava que Cuba já tinha problemas demais com os Estados Unidos. Assim ficou difícil. Marquez sabia que a história real era mais complicada e que um romance não abarcaria tudo. A revolução foi nacionalista mas a reação americana empurrou Cuba para os braços soviéticos. E depois disso foi muito tenso. Parecia não haver clima para alguém escrever uma história bacana sobre este momento da América Latina sem ser acusado de capacho de Fidel ou lacaio de Tio Sam.

Por isso me surpreendi ao ler “Colares de Xangô e Sapatos bicolores” de William Kennedy (lançado em 2012 nos Estados Unidos e em 2014 no Brasil, pela Biblioteca Azul, 424 páginas). Livro que acabei de reler na quarentena porque gostei. Achei uma bela, deliciosa e divertida narrativa sobre Cuba. Com elementos heroicos, loucos, gangsterismo, tiros, mortes e o sobrenatural que paira nos textos do escritor de Albany. O livro é a soma de três. O primeiro em Albany, em agosto de 1936, é um tocante conto de sete páginas sobre a infância de Daniel Quinn. O segundo uma novela de cento e quarenta e três páginas que se passa numa Havana conturbada a partir de doze de março de 1957.

O terceiro e mais longo, um romance de duzentos e cinquenta e oito páginas que transcorre num período de doze horas no dia seis de junho de 1968 em Albany. Este foi o dia em que Bob Kennedy, candidato a presidente pelo Partido Democrata, foi assassinado. Nas ruas explodem distúrbios provocados pelo movimento negro que luta por direitos civis. Os Estados Unidos pegam fogo. O livro foi escrito para ler as três partes, claro. Mas a segunda parte não me saiu da cabeça. O jornalista Daniel Quinn que deseja ser escritor aparece em Havana no bar El Floridita e numa noite só conhece Ernest Hemingway, que está mais doido que nunca. E uma bela burguesa local chamada Renata Suárez Otero, parecida com Ava Gardner e que além de estar envolvida com os revolucionários é chegada numa santeria, sincretismo religioso entre o catolicismo e rituais yorubá, equivalente a nossa macumba.

Daí o título do livro que também poderia ser “Miçangas de Xangô e Sapatos de duas cores”. A noite promete. Hemingway, para variar, arrebenta a cara de um tal Joe Cooney, o melro de Baltimore, que não estava fazendo nada além de cantar mal. Quinn se apaixona de imediato pela cubana fatal e ela vai ajudá-lo a encontrar Fidel Castro em Sierra Maestra. Foi para isso que ele foi lá. O ditador Fulgêncio Batista que tomou o poder através de um golpe militar em dez de março de 1952 para instaurar um governo corrupto e subordinado aos gangsteres americanos garantia que Fidel virou presunto. O ditador foi desmoralizado pelo jornalista americano Herbert Matthews, que entrevistou Fidel na mata.

O boato sobre a morte de Castro foi realimentado com a mesma tática que Jair Bolsonaro usa no Brasil hoje em dia. Mentir sempre. Quinn resolveu conferir, para desmoralizar o ditador, repetindo a epopeia de seu avô na luta pela independência de Cuba, que se livrou do jugo espanhol para ser quintal dos Estados Unidos. E nesta aventura na ilha ele se vê no meio de uma tentativa de assassinato de Batista e de quebra, casa-se com Renata numa sessão de santeria. Sem contar que no final de tudo, entrevista Fidel Castro, enquanto os dois fumam charutos. O verdadeiro espírito latino-americano com toque africano está todo lá. Melhor impossível.

Acho que Kennedy poderia ter se resumido a segunda parte e a transformado num livro com maior musculatura. Ele discorre com tanta naturalidade e algumas vezes humor que fica claro que se assim quisesse assim faria. O Caribe não é desconhecido para ele. Embora seja de Albany, foi gerente editorial do San Juan Star, de Porto Rico. Conhecia Gabriel Garcia Marquez, que o levou a Cuba para se encontrar com Fidel Castro. Ele sabia onde estava pisando e sabia como ir em frente. De qualquer forma, ninguém chegou mais perto de escrever o mais interessante romance sobre a Revolução Cubana. Pelo menos que eu saiba.

 

Written by edilsonpereira