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O mundo não é perfeito. Para um sujeito que foi trotskista, como Viriato, isto não devia ser novidade. Mas os trotskistas também se apaixonam. E nestes dias bicudos um dos melhores lugares para se apaixonar é a internet. Tudo começou no Facebook. Foi lá que ele conheceu Úrsula, que na juventude também foi trotskista.  Era o tipo de garota que ele sempre desejou. Eles passaram a trocar mensagens e depois a se falar todos os dias pela webcam, trocaram fotografias e Viriato resolveu conhecê-la pessoalmente em Gaspar onde a garota morava. Ele avisou que ia e ela disse que o esperava. Foi aí que o sonho começou a se desfazer. Ele foi de ônibus. Viriato sabia tudo sobre Úrsula, inclusive que era casada. Tanto ele quanto a dona achavam o detalhe irrelevante porque o marido trabalhava num navio mercante e ficava ausente durante meses. A verdade era que ela se sentia sozinha. Viriato foi cauteloso e chegou de mansinho na frente da casa da mulher. Ele não precisava ser esperto para descobrir que o marido voltou de viagem e estava lá.

Era simples: depois de meses ausente ele voltou para ficar uma semana com ela. E sem avisar. São imprevistos que acontecem. Num primeiro momento, Viriato suou. Num segundo, ficou furioso. E no terceiro, caiu fora. Só de pensar em Úrsula com o marido, Viriato ficou deprimido. Ele andou pelo centro da cidade esperando a hora de o ônibus voltar. Viriato chutava tampinhas na calçada, quando viu num poste um cartaz:

“Pai Maneco (Niels Henningsen) resolve qualquer problema amoroso, sentimental e sexual. Não chore e nem se sinta derrotado. Lute por seu amor.”

Era o que precisava. A novidade do cartaz era o nome do pai de santo:

“Niels Henningsen?”

Como o sujeito virou Pai Maneco era um enigma. Viriato perguntou para a primeira pessoa que encontrou onde ficava a rua em que Pai Maneco morava. Descobriu e foi conferir. Quando chegou, ficou impressionado: o pai de santo era alto, loiro, de olhos azuis e tinha sotaque estrangeiro. Ele perguntou:

“O que o moço quer?”

Antes de dizer que queria consultar, Viriato perguntou:

“O senhor é babalorixá?”

Pai Maneco respondeu que era de Witmarsum. Viriato achou que entrou numa fria. Qualquer pai de santo sabe o que é babalorixá. Niels Henningsen aparentemente não sabia. Pai Maneco fez cara de quem não gostou do jeito desconfiado de Viriato:

“Você veio fazer consulta ou olhar o meu alvará?”

Viriato não podia dar meia volta. Pai Maneco não ia entender se ele caísse fora. Viriato disse:

“Eu quero saber o que está acontecendo comigo.”

Pai Maneco continuou desconfiado, mas foi até um pequeno quarto, chamou Viriato. No quarto ele botou turbante, enfiou charuto na boca, acendeu a coisa, enfiou a mão numa cumbuca e tirou um monte de pedras quadradas com símbolos estranhos e que pareciam pedras de um de jogo de dominó. Pai Maneco olhou aquilo, fechou os olhos e resmungou numa língua estranha. Viriato não era otário. Aquilo era dinamarquês. Ou norueguês. Talvez holandês. Quem sabe sueco ou finlandês. A única coisa que ele entendeu foi:

“Odin, faderen til alle og krigsherre.”

Pai Maneco resmungou por algum tempo. Viriato sabia que ia morrer com uma grana para largar de ser curioso. Ou de ser otário. Ao final do resmungo e depois de mexer com as pedras sobre a mesa, Pai Maneco disse:

“O homem do mar sabe que você veio. Ele viu as fotos. E está furioso. Se a noite chegar e você ainda estiver aqui será homem morto, porque ele tem a proteção das trevas.”

Viriato se assustou, claro. Aquilo encaixava com a situação, mas podia ser truque. Viriato disse apenas para conferir se Pai Maneco estava blefando:

“Eu não entendi bem o que o senhor disse.”

Pai Maneco olhou para Viriato, parecia enfarado:

“Você entendeu o que eu disse. Você veio atrás da dama loira e pode encontrar a dama de negro. Ela virá com a noite que se aproxima.”

Viriato não quis saber mais nada. Perguntou quando foi a consulta, enfiou a mão no bolso, pagou e correu para o centro da cidade onde pegou o primeiro táxi que achou. E foi para Itajaí, fugindo da noite, da dama de negro e do homem do mar, que àquela altura estava babando de ódio.

Publicado originalmente na Tribuna do Paraná no dia 31 de outubro de 2015.

Written by edilsonpereira