bordel

Estou isolado neste apartamento há setenta dias enquanto um vírus letal lá fora ameaça todo mundo, principalmente os velhos e doentes. Não estou doente embora com dores lombares e artroses. É o preço de chegar aos setenta. Só saio de casa para ir ao mercado uma vez por semana. O mercado fica a cem metros. E ainda assim sou o primeiro. O mercado abre das sete às oito da manhã para os velhos e fodidos do grupo de risco. Pego uma rua secundária por onde não passa ninguém. Vou de máscara e luvas. Sozinho no mercado não sou vítima fácil do vírus. Mesmo assim toco nos produtos com sentimento misto de repulsa e temor. Lavo tudo quando chego em casa. A vida não está fácil. E podia ser pior. Podia não ver o sol nascer de novo. Estou vendo. Mas tudo está tão triste que às vezes lamento chegar aos setenta. Para passar as horas, vejo filmes, leio livros, ouço música e bebo vinho. Uma garrafa de argentino ou chileno a cada quatro dias. O corpo não absorve mais com vigor álcool, socos e vírus. Todo cuidado é pouco.

“Tio, não reclame. Você está muito bem. Não tem crianças para reclamar o dia todo!”

Hoje é domingo. Minha sobrinha Zenaide ligou de manhã. Ela não aguenta mais os filhos em casa. Assim como está em pânico por não saber se vai continuar no emprego. Está tudo incerto, impreciso e inseguro. Não é a pessoa mais indicada para eu me queixar. Ela sempre tem um problema maior que o meu. Perdi o hábito de reclamar com ela qualquer coisa que tenho. Milton, o marido, comprou um passarinho. Um periquito amarelo que come as orquídeas dela. Em vez de se revoltar com o marido, acha aquilo engraçado. Porque gosta dele. Mulher quando gosta do sujeito não vê defeito, mas quando não gosta não vê qualidade. Eu desligo o telefone fixo e me pergunto porque ainda o tenho se o celular toca a todo instante com mensagens do Watts App. Noventa por cento porcarias. Volto para o quarto do computador onde estão os livros e a televisão, além, claro, do computador. Antes achava que perdia tempo no Facebook. Hoje acho que até aqui me ajudou a suportar a quarentena. Tenho uma amiga em Londrina que tem bom senso de humor. Gente humorada quando morresse deveria ir para o céu sem entrevistas preliminares com São Pedro. Elas fazem as pessoas felizes. Ainda bem. Uma amiga na Alemanha me disse que a tendência entre as mulheres alemãs é achar os homens coreanos bonitos. Achei absurdo.

Mas ela reafirmou com autoridade:

“Os homens europeus não estão mais com nada!”

Fiquei pensando em Alain Delon, Terence Stamp, Marcelo Mastroiani, Jean Sorel e David Hemmings.

“David Hemmings é bonito?”

Perguntei para Veridiana na frente do Cine Plaza em 1970. Ela tinha assistido ao filme “Blow Up” de Micheangelo Antonioni baseado no conto “As babas do diabo”, de Julio Cortazar. Eu gostava muito desta garota. Eu me apaixonava fácil na adolescência. Às vezes duas vezes pela mesma garota, como Leonora. Veridiana estudava o Clássico no Colégio Gastão Vidigal. Eu estudava o Científico. Ela gostava de sujeitos barbudos e com cara de intelectual. Eu não tinha barba e não era intelectual. Não me deu nada além de um sorriso gentil. Depois me apaixonei por Leonora pela segunda vez. Ela estudava no primeiro ano do Clássico. Também não me dei bem. As garotas e os poucos rapazes que estudavam no Clássico eram intelectuais. Aprendiam latim, grego, francês, inglês e espanhol. Sem contar filosofia e sociologia. Sabiam discorrer sobre o último filme de Hitchcock mesmo sem ter assistido, assim como eu tinha facilidade em citar a escalação do Palmeiras, Botafogo e Santos sem pestanejar. Por isso eu não tinha elementos para palpitar se David Hemmings era bonito ou feio. Sem contar que ela era mulher e naquele tempo homem não achava homem bonito. Pelos menos os caras que estudavam o Científico. Mas tinha um pequeno problema contra a minha teoria. Hemmings se parecia com Paul McCartney. E todas as garotas diziam que ele era o mais bonito dos Beatles. Então aceitei. David Hemmings era bonito. Não ia brigar com Veridiana e com nenhuma garota por uma bobagem desta. Não fazia sentido. Agora aceitar que coreano é bonito passou dos limites. Mas também não vou brigar. Eles parecem todos iguais e não entendo uma palavra do que dizem. Mas esta amiga não conhece a música “Broto legal” da Celly Campello. Como posso discutir com alguém que acha coreano bonito e não conhece “Broto legal”? Há um abismo etário entre nós. E isto afeta as percepções. A quarentena deixa as pessoas muito sensíveis.

O meu amigo Ganchão por exemplo:

“O que mais sinto é a falta de botecos!”

Fico imaginando ele na pequena Cambé neste isolamento social trovejando como um leão enjaulado e furioso contra a insanidade que tomou conta do país. Sempre o achei a nossa versão de Woody Guthrie, que escreveu na guitarra “this machine kills fascists”. Gancho não chega a matar ninguém, assim como Guthrie, mas nunca deixou de aplicar cacetadas nos insanos com as armas que Deus lhe deu. Agora ele, inquieto que é, está saudoso de entrar num boteco pé sujo, encostar no balcão e ouvir a filosofia popular dos humilhados e ofendidos.

E hoje é domingo:

“Domingo era dia de ouvir Chicão da Zélia no antigo Bar do João da Véia!”

Bem, é hora de deixar o Facebook e tentar terminar de ver o filme “Frida”. Que parei duas vezes. E não passei da meia hora. As notícias de mortes do vírus causam angustia suficiente. E a vida da pintora mexicana foi um inferno.

Claro que eu pensei:

“A vida de Frida foi muito sofrida!”

Decidi ver outro filme. A escolha recaiu pela centésima vez em “Os brutos também amam”. Mais romântico. Não me canso de rever alguns filmes. Além deste, “Casablanca”, “O Falcão Maltês”, “Blade Runner”, “Os Imperdoáveis” e outros. Também releio muito. Depois do filme, almocei e fui para a cama reler um livro. Terminar a segunda parte do romance “Colares de Xangô e Sapatos Bicolores” de William Kennedy. Adorei tanto a segunda parte do livro que me soou como um pequeno romance sobre a revolução cubana que agora estou na terceira leitura. Renata, a burguesa cubana que gosta de macumba e revolução e Ernest Hemingway enfiando a mão na cara de um patrício porque cantava mal são cenas que valem a releitura.

Algumas perguntas são deliciosas:

“Estou a caminho de me tornar seu terceiro amante?”

Estava nesta pergunta quando o celular tocou. Fiz sentado na cama com as costas apoiadas em dois travesseiros um movimento com os ombros para aliviar a tensão. Coloquei o livro ao lado da perna direita sobre a cama aberto na página em que estava lendo. Atendi ao celular. Era Leonora. Fiquei apreensivo. Há alguns anos encontrei Leonora no centro da cidade. Ela foi tão calorosa que me surpreendi. Ela me contou que o marido morreu e por isso vendeu o apartamento na capital e foi morar no litoral numa casa que tinham. Os filhos se casaram e estava sozinha. Não estava mal de vida porque ficou com a pensão do marido. Depois deste dia, vez e outra me ligava. Cada vez mais frequente. Com a quarentena as frequências aumentaram. A última foi há alguns dias. O cachorro dela morreu no dia primeiro de maio. Quer dizer, foi morto. O animal, um Lhasa Shitzu preto, começou a ter espasmos na noite anterior e estava com a língua de fora de tanto ter espasmos. Leonora chorou a madrugada inteira. E por volta das dez horas me ligou dizendo que não aguentava mais chorar. Queria saber o que deveria fazer. O cachorrinho chamado Bartolomeu de Gusmão mas que atendia pelo nome de Bartô também não aguentava mais ter espamos, mas não morria. Eu sugeri para ela ligar para um veterinário.

“Mas hoje é feriado do dia do trabalho!”

Eu sabia que era. Mas sugeri. Vai que encontrasse um plantão. Ela tentou e encontrou um veterinário de plantão que era o mesmo que cuidava de seus cinco cães. Quer dizer, quatro cadelas e um cachorro, o Bartô. Liguei meia hora depois para saber o que tinha acontecido e ela estava chorando copiosamente:

“O Bartô morreu neste instante. Nos meus braços! O que vou fazer de minha vida?”

Era um pequeno drama no meio de uma pandemia. Aquilo me tocou. Ela contou que o veterinário disse que Bartô estava com um tumor no cérebro e aquilo interferiu no sistema nervoso. Por isso os espasmos. Ele não ia parar de ter espamos até morrer. Bartolomeu estava com vinte anos. Mas não morria. O cachorro era a última ligação dela com o marido. Já que os filhos foram cuidar de suas vidas. Foi ele quem comprou para ela. O veterinário disse com todo cuidado que a solução mais caridosa era dar um sedativo e aplicar em seguida um troço para matar o cachorro sem ele sofrer. Uma eutanasia. Leonora concordou mas não ia deixar o bicho morrer sozinho. Ficou fazendo carinho no rosto dele enquanto ele ressonava cansado porque o sedativo interrompeu os espasmos. Depois da segunda injeção, o coração do bicho parou de bater. Neste instante ela atendeu minha ligação. Fiquei preocupado. Naquele dia liguei mais duas vezes para ver como ela estava. Resumindo, ela enterrou o cachorro no quintal de sua casa e ficou duas noites sem dormir. E no terceiro dia me contou algo surpreendente:

“Nem quando meu marido morreu eu chorei e sofri tanto. E nem senti a falta dele como estou sentindo a falta de meu cachorrinho. O querido da minha vida!”

Ela chorava e eu pensava que se ela chorou pelo cachorro mais do que chorou pelo marido, a minha cotação no universo emocional dela devia estar em baixa. Algo perto de zero. Estas coisas não fazem bem para o ego da gente. Mas continuei ouvindo porque sabia que ela precisava conversar com alguém e ela não estava querendo me ofender. Era mais uma sozinha em sua casa no meio da pandemia. E com medo de sair nas ruas. Por causa do vírus. Ela mora perto de Santa Catarina. As notícias chegam como tiros de metralhadora. Fazendo estragos. A nora da vizinha, que era enfermeira num hospital de Joinville, foi visitar a mãe do marido num final de semana e infectou a família toda. Foram os primeiros casos na cidade. Aquilo apavorou Leonora. A tragédia estava acontecendo na casa ao lado.

De repente ela me perguntou assustada:

“Você sabe se o vírus pula o muro?”

Eu não sabia explicar. Este vírus é novo e terrível e os cientistas estão descobrindo a cada dia uma nova habilidade dele. Ainda não chegaram na parte de pular o muro. Agora ela liga de novo. Claro que atendi tenso. Será que o vírus pulou o muro? Se pulou, Leonora está fodida. Está sozinha na cidade e eu não posso ajudá-la. É uma situação aterradora. Claro que a gente não deixa de pensar mesmo que de relance que depois que o marido morreu ela se lembrou que eu existia. Mas quando era jovem e linda e usava blusa branca e saia escocesa, eu não tive chance. Agora está velha e sozinha e sabe que eu também estou sozinho. Ela já sugeriu que podíamos corrigir um grande equívoco. E insinuou que morar perto do mar seria bom para mim. Agora não tenho mais interesse em corrigir nada. Só estou preocupado em não ser pego pelo vírus. Afinal, ele está pegando todo mundo. Principalmente os velhos. E coisa que me preocupa. Está matando escritores e nenhum general. Pode parecer absurdo, mas começo a achar que este vírus é fascista. Aldir Blanc, Sérgio Sant’Anna e Olga Savary foram levados. Por enquanto. E para entristecer mais ainda, Rubem Fonseca e Luiz Alfredo Garcia-Roza também foram embora nestes dias tristes. É muita gente boa indo embora. E a gente aqui tentando ficar. Estou assustado. Isto influencia nos reflexos. Eu estava silencioso. Não soube responder se o vírus pulava o muro. E agora ela liga de novo. Será que o vírus pulou o muro? Leonora fez pausa dramática no outro lado. Não estranhei. Ela fez curso superior de teatro há mais de vinte anos e conhecia os macetes da interpretação.

Por fim disse:

“Hortência me ligou!”

Hortência era a irmã mais velha de Leonora. Trabalhou no Banco do Brasil e fez teatro amador. Ela ainda mora em Maringá. Separou do marido. Mora sozinha num apartamento no quinto andar do edifício em que morava com o marido. Ele mora no apartamento do terceiro andar. Ele se aposentou. As duas filhas do casal moram na Europa. Uma na Itália e outra na Alemanha. A da Itália com um sujeito de cento e cinquenta quilos e a da Alemanha com uma dona chamada Gertrude Heine.

Eleonora disse:

“Gregório não quer sair da cama!”

Gregório era o marido de Hortência. Agora ex-marido. Ela teve câncer e superou. Ele teve infarto, tem diabetes, setenta anos. Está com tudo no grupo de risco. E além disso é hipocondríaco. Com o vírus entregou os pontos.

“Ele disse para Hortência que vai esperar a morte na cama!”

“Que loucura! Mas se ele ficar quietinho lá duvido que o vírus chegue até ele.”

“Ela vai lá todo o dia fazer sopa e levar na cama para ele. Ele está prostado. Por isso não sai do apartamento e não quer viver. Ela que paga os boletos dele. Acha que se o vírus encostar um dedinho nele está perdido.”

Eu pensei que o vírus tivesse coroas. Não dedinhos.

Claro que não comentei. Eu observei:

“Viver em quarentena é foda.”

Ela disse:

“Ele é depressivo e neurótico.”

“Qual é a diferença entre depressivo e neurótico?”

“Não sei. Mas ele é as duas coisas.”

“Ele precisa buscar forças para superar isto.”

“Como? Ele está perdendo forças! Perdeu trinta quilos. De onde vai tirar forças? Ficou louco?”

Ela estava certa. Mas o que eu ia dizer?

“Não está fácil.”

“Mas te liguei não foi por isso.”

“Tem mais?”

“Tem.”

Eu tremi. O que seria agora?

Ela disse:

“Sabe o meu pai?”

Quem não conhecia o pai de Leonora. E também pai de Hortência. Ele foi um dos responsáveis por a gente não namorar no final dos longíquos anos 60 quando eu ia para a frente da catedral de madeira nas manhãs de domingo para vê-la passar com a sua imaculada camisa branca e saia escocesa ao lado da mãe e do pai. Como sonhei com aquela menina sem a saia escocesa! Só Deus sabe. O coronel Gabriel Garcia Lopes era um homem austero, moralista, cristão, honesto, decente, admirado por todas as pessoas de bem da cidade e temido por todas as pessoas que não eram de bem. Ele ia à missa de farda e com medalhas no peito. Aquilo impressionava. O coronel tinha grande moral na cidade e até na capital. O próprio bispo Dom Jaime fazia questão de cumprimentá-lo, sem pedir para ele beijar o anel episcopal que oferecia para todos os outros beijar. Lembro-me até hoje do dia em que cheguei para o coronel e disse solene e respeitoso:

“Eu queria namorar a sua filha!”

Eu tinha dezessete anos e ela dezesseis. Ele respondeu como se eu fosse um inimigo argentino:

“Com esta cara de índio se não sair da minha frente vai namorar o meu chicote!”

Nem sabia que ele tinha chicote. Recado dado, recado entendido. Dois anos depois ele foi transferido para Cruzeiro do Oeste. E foi o responsável pela construção do quartel da Polícia Militar da cidade. Com dinheiro da comunidade. Sem um tostão do governo do Estado. Ganhou mais medalhas e no dia da inauguração ganhou uma espada de prata do governador. Na ausência dele, tentei namorar Leonora mais uma vez. Agora ela era aluna do Clássico. Amiga de Veridiana. Mas agora foi ela quem disse não. Ela sorriu e ficou com Maurílio que ia estudar engenharia. E com quem três anos depois se casou. Os dois se mudaram para a capital. Eu fiquei muitos anos sem vê-la até também me mudar para a capital. A vida nunca foi fácil para mim. Talvez por isso enfrento este vírus com altivez e galhardia, com um pouco de bravura e elegância, embora às vezes perca a estribeira no Facebook. Leonora me faz aquela pergunta. Como eu ia me esquecer do Coronel Gabriel Garcia Lopes?

“Não tenho boas recordações dele. Ele morreu de diabetes, não foi?”

“Foi. Hortência disse que há pouco mais de dez anos conversou com Adelaide Viana.”

“Nunca ouvi falar.”

“Era uma putona amiga de minha mãe. Meu pai odiava a Adelaide. E ainda mais a amizade dela com minha mãe.”

Eu nem sabia que a mãe de Leonora era amiga de putas.

Eu disse:

“Ele estava certo. Naquele tempo pegava mal mulher de família ser amiga de prostitutas.”

“Eu sei. Acontece que Adelaide soube que Hortência estava doente. Meu pai estava fora e ela apareceu em casa com remédio caseiro que curou a menina. Ela morava a cinquenta metros de nossa casa numa espécie de pensão onde levava os homens. Nessa época a gente morava perto do Osvaldo Cruz. Depois disso, quando tinha algum problema de saúde, a mãe pedia conselhos para Adelaide que era boa nisso e as duas ficaram amigas.”

“Por que ela não largou a putaria e botou consultório de benzedeira e curandeira? Ia ganhar mais dinheiro.”

“Adelaide gostava da gandaia. Teve três filhos e não criou nenhum. Entregou todos para a mãe dela criar.”

“Tudo bem. Mas não entendi porque você conta tudo isso.”

“Hortência me contou agora de manhã que Adelaide pediu para contar isso para as irmãs dez anos depois que ela morresse.”

“O que ela contou?”

“Que meu pai não gostava da amizade dela com a mãe porque tinha medo que minha mãe soubesse das patifarias que ele fazia na zona.”

“Teu pai ia na zona?”

“Não saia de lá.”

Aquilo era uma surpresa. Eu indaguei achando que não fosse óbvio:

“Ele gostava de putas?”

“Pois é. Isso que é mais estranho. Ele era moralista. Não gostava de deitar com as putas. Mas gostava de ir lá e ver o ambiente porque era alegre. Ele tomava cerveja. Se divertia. Ia com os amigos.”

“Não vejo nada de mal nisso.”

“Acontece que depois de ficar bêbado ele queria dançar com as putas.”

“Acho normal. Bêbado faz coisas excêntricas e inesperadas.”

“Mas como ele não dormia com nenhuma, elas também não aceitavam dançar com ele depois que ele estava bêbado.”

“Acho que estavam certas. Mas se fosse eu no lugar delas eu dançava. Tomar dinheiro de bêbado é mais fácil e não teria que trepar com ele.”

“Esta é uma opinião sua. Não era a opinião delas.”

“Perfeitamente.”

“Como nenhuma delas dançava com ele, ele tirava a roupa, ficava pelado e dançava sozinho em cima das mesas.”

“O coronel?”

“Sim. Meu pai.”

“Caralho! Eu nunca ia imaginar uma coisa desta.”

“Nem eu. E tem mais.”

“Tem mais?”

“Sim. Ele dançava com uma rosa na bunda.”

“Uma rosa na bunda?”

“Sim. Na bunda. Não era enfiada no ânus. Era uma rosa vermelha, com o talo preso entre as duas bandas da bunda e a flor no alto, bem no começo do rego. Ele requebrava o traseiro enquanto todo mundo se esborrachava de rir. Tinha gente que rolava no chão.”

Naturalmente fiquei perplexo e sem saber o que dizer. Não consegui imaginar o coronel tirando cerimonioso o quepe, as medalhas, a farda e ficando pelado com a expressão austera com que me encarou e dançando sobre as mesas de um bordel como uma odalisca com uma rosa vermelha na bunda. Eu não conseguiria imaginar uma cena desta nem nos meus piores pesadelos. Nem nos meus mais rancorosos desejos de vingança.

Respirei fundo e perguntei meio desconfiado:

“E onde ele arrumava a rosa vermelha?”

“Não sei. Vai ver que levava para dar para alguma puta que achasse bonita.”

Estava atônito. Sinceramente me deu vontade de sair fora do apartamento para respirar um ar fresco. Pela janela, embora fosse mês de maio friorento, estava sol bonito. Eu precisava respirar. Mas me lembrei do vírus. Era melhor não vacilar. Se fosse de máscara não ia respirar direito a atmosfera ligeiramente cálida e de um colorido quase sedutor.

Eu perguntei:

“Leonora, por que você me conta tudo isso?”

“Foi a única pessoa que me lembrei para contar. Não queria ficar com esta história só para mim. Além disso, você gosta de escrever e não está fazendo nada. Pode passar algumas horas escrevendo isto. Ajuda a preencher as horas e os dias.”

“Entendi.”

“Lembrei também que a gente deixou de fazer tantas coisas porque meu pai era um sujeito austero. A gente o respeitava muito. Nunca íamos imaginar que ele fazia uma coisa desta.”

Eu disse:

“Entendi.”

Mas a verdade era que eu não entendia nada. Estava ainda meio perplexo. Claro que eu jamais iria esquecer uma das coisas que o coronel não deixou Leonora fazer. Namorar comigo quando eu era o único cara próximo a ela. Tinha se mudado de perto do Osvaldo Cruz e morava na época na Cerro Azul. Ela usava camisa branca e saia escocesa para ir à missa das nove. Como sonhei com ela sem aquela saia escocesa. Ele não deixou porque eu tinha cara de índio. Depois Leonora foi para o Clássico. E aí ficou intelectual. Ficou exigente. O resto vocês sabem. Mas tudo isso ficou no passado. E esta história serve agora apenas para preencher de melancolia estes dias vazios que estou passando dentro deste apartamento.

 

Written by edilsonpereira