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O anão tinha os dois pés virados para trás e por esta razão subia a escada com extrema dificuldade. O seu irmão, um sujeito estranhamente magro e alto, carregava o triciclo do anão nas costas. A professora ao lado me olhou em tom de censura, como eu tivesse alguma coisa com a cena. E, ainda, me repreendeu:

“Por que o irmão não o carrega nas costas, até lá em cima?”

Eu não sabia. A escada era longa. Mas o anão subia com dignidade e até um bizarro prazer, coisa que não passava pela cabeça das outras pessoas que usavam a mesma escada do mesmo terminal. Então eu tive uma ideia:

“Vou carregar este anão até lá em cima, para aliviar a sua jornada.”

Eu me abaixei e disse:

“Moço, me permite?”

O irmão dele interveio:

“O senhor fala italiano?”

“Não. Não falo italiano.”

“Então não adianta. Hoje é quinta-feira e às quintas ele só fala italiano.”

Assim não pude fazer nada. Mas, por uma inútil solidariedade, fui devagar, acompanhando o anão até o fim da escada, quando ele ergueu a cabeça e se revelou num largo sorriso, de quem era feliz.

O irmão colocou o triciclo no chão, o anão subiu em cima e saiu pedalando com seus pés virados, lépido entre as pessoas, pedalando com um enorme sorriso no rosto. O irmão do anão me olhou com uma expressão rancorosa e disse:

“La planta uomo nasce in Itália non seconda a nessuno.”

Era uma citação. De Garibaldi. Eu pensei na hora:

“Este cara não é erudito.”

É só olhar para a cara do sujeito que a gente sabe se ele é erudito ou não. Ele foi atrás do anão, desaparecendo entre as outras pessoas. A professora me olhou escandalizada:

“Você viu a cara do anão?”

Sim, eu vi a cara do anão. E também vi a cara do irmão do anão.

“O anão estava feliz? Como pode?”

Sim, como pode um anão com os dois pés para trás e que se move pela cidade num triciclo ser feliz enquanto as pessoas altas e com os dois pés para frente passam céleres de um lado para o outro carregando o enorme fardo da infelicidade? Como pode? Esta era a pergunta no rosto da professora. Sabem o que respondi?

“Não sei.”

Eu gostaria que as pessoas me perguntassem coisas que sei responder, mas elas me perguntam coisas estranhas. No entanto, eu desconfiava que o espírito daquele anão estava íntegro, não havia nada errado e por isso, aquela escada podia ir até o fim do mundo, que ele ia escalar com altivez de um guerreiro nórdico. Ou romano, já que era quinta-feira. O curioso é que as pessoas ao redor despertaram de seu torpor habitual quando o anão saiu pedalando no triciclo, passando entre elas, como fosse um escândalo. Mas subir a escada com os pés virados, não era escandaloso. Elas estavam perplexas porque ignoravam que os anões são práticos. Eles não se apegam a convenções e, as vezes, nem podem. Talvez por isso levam a vida com mais sabedoria, leveza e uma certa dose de humor.

Então lembrei-me de uma história de um outro anão, das bandas do Uberaba, que andava em um carro muito pequeno, parecendo carrinho de criança, mas as moças queriam andar no carro do anão, porque o anão era um sujeito muito simpático e divertido. E lembrei-me mais, ainda, de Buñuel. O cineasta espanhol não gostava de padre, mas gostava de anões. E sempre dava um jeito de colocar um deles em seus filmes, porque os considerava inteligentes e bem dispostos. O anão que trabalhou no filme Nazarin tinha duas amantes altas e os três eram felizes. Bukowski também tem uma boa história de anão.

Narrativa publicada em O Estado do Paraná no dia 7 de maio de 2004.

 

Written by edilsonpereira