Havia fitas todos os dias. Tarde e noite nos dias de semana e de manhã a noite aos sábados, domingos e feriados. Os filmes noturnos eram para adultos e sessões matinais para crianças. O público dependia da fita. A maioria das mulheres não gostava de faroeste e a maioria dos rapazes não gostava de fitas românticas. Todos gostavam de filmes históricos e bíblicos. Mas não havia fita que atraía mais gente que A Paixão de Cristo na Sexta-Feira Santa. As sessões começavam cedo e iam até meia-noite. As filas eram longas em todas as sessões. O filme era o mesmo do ano anterior. Mas depois de um ano a vontade de revê-lo renascia e contagiava parte dos moradores.

“No princípio Deus criou o céu e a terra.”

O cinema o fascinou desde o princípio. Ele não sabia dizer com exatidão qual a primeira sessão que viu. No entanto, a primeira pode ser a que foi com a família na tarde de 27 de março de 1959. Sexta-Feira Santa. Primeiro por ir com a família. Ele se lembra de ir apenas uma vez ao cinema com a família: neste dia. Não podia ir sozinho porque acabara de fazer sete anos. E depois desta sessão foi a várias outras com primos, amigos e sozinho. A sessão daquele 27 de março ficaria gravada nos anais da família. Se foi a primeira do garoto foi a última da tia. O filme começava com a criação do mundo para o espectador entender como surgiu o pecado e a missão do Messias. Na tela a serpente seduzia Eva para comer o fruto proibido.

“Deus sabe que, em qualquer dia que comerdes dele, se abrirão os vossos olhos.”

Quando a serpente apareceu a tia se contraiu como estivesse num fosso de víboras. O garoto percebeu. A avó também.

Ela segurou a mão da filha e disse:

“Calma que o bicho vai embora.”

A avó sabia que a filha tinha medo de cobra. Medo era palavra pálida para expressar o que ela sentia. Pânico ainda não definia. E tudo começou no interior da Bahia. Os quartos das moças não tinham janelas para evitar a entrada furtiva de rapazes à noite enquanto todos dormiam. O problema era o quarto ficar escuro. Um dia a moça entrou no quarto e ao pegar peça de roupa pegou junto uma cobra-espada escondida ali. A cobra não era venenosa mas se assustou se enroscou nela. Ela correu para fora de casa gritando com a cobra enroscada no corpo e o velho viu a filha com a cobra e matou o bicho. A filha pegou trauma de cobra para o resto da vida. E na tela Deus também estava furioso com a serpente.

“És maldita entre todos os animais.”

E quando Ele castigou o réptil que personificava o mal e o réptil serpenteou gigante na tela do cinema, os nervos da tia não suportaram. Para piorar, o sujeito na poltrona de trás também se assustou e as pernas esticaram e tocaram nas pernas da tia no banco da frente. Ela saltou achando que estava sendo atacada pela cobra da tela. E soltou um berro tão aterrador que o cinema inteiro se assustou. E não restou alternativa para a família que ir embora no começo da fita porque a tia não tinha condições emocionais de ver o resto. Além disso ficou tão assustada que não podia voltar sozinha. O garoto ficou inconformado e jurou voltar ao cinema. E voltou. Centenas. Muitas centenas de vezes. Sem a tia naturalmente.

Written by edilsonpereira