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Aconteceu de o Sabiá levar o maior susto quando voltou a Maringá, depois de trinta anos ausente. Ele descobriu que todo mundo estava morrendo. Quer dizer, as pessoas que ele conhecia. Uma tia, a professora do Oswaldo Cruz e o açougueiro se foram. A benzedeira e a lavadeira Severina em semanas. E, agora, Adelaide, a vizinha loira. Ele gostava de vê-la estendendo roupa no varal, ela erguia os braços, o vestido encurtava e as pernas roliças apareciam, perigosamente, até bem perto de onde ele queria olhar. Um dia ele entrou na casa dela para entregar um recado e ela estava no sofá da sala, com um vestido branco curto, sem sapatos e olhava para ele com aquela cara de divina e ele esqueceu o recado.

Isso foi quando era apenas um garoto que ficava de cócoras com as mãos no queixo, olhando Adelaide estender roupa, enquanto os amigos o chamavam para jogar bola. Ele teve uma fase na vida que se chamava Adelaide. Ele só queria ver as pernas da Adelaide. Agora, morreu. E ele não aguentou, quebrou o juramento de não beber mais e foi para o boteco ao lado do armazém do Orcílio, que não gostava dele, porque pendurava e não pagava as contas. Isso, quando jovem. Orcílio não morreu, estava com o armazém no Mandacaru. Sabiá entrou no bar, pediu uma branquinha e bebeu, olhando a rua, pensando na vida e na morte.

E só abria a boca para dizer:

“Que coisa!”.

Pois é, até as pernas da Adelaide estavam indo embora.

Orcílio passou, viu o Sabiá e estranhou. Parecia maduro. Sabiá, trinta anos mais velho. Orcílio se comoveu com a cara de coitado de Sabiá e perguntou:

“De volta, Sabiá?”

O outro, jururu:

“Voltei.”

Mas um voltei tão triste, que Orcílio sentou.

“Que aconteceu?”

“A vida não vale nada, Orcílio: um dia se está vivo e no outro, puf!”

A observação comoveu Orcílio, que também pediu uma branquinha. E de branquinha em branquinha, repassaram a vida, filosofaram sobre a morte e ficarem bêbados. Até que um olhou o outro e Orcílio disse, decidido:

“Vamos no velório da Adelaide, dar adeus.”

Sabiá não pensou nisso. Era noite, o enterro seria no dia seguinte. Antes tarde que nunca. E foram, trançando as pernas. Chegando, Sabiá cumprimentou quem viu e achou tudo triste e quieto. Fez comentários sobre a defunta.

“Boa mulher.”

Todo mundo concordou, porque passou o dia concordando que Adelaide era boa mulher.

“Honesta.”

Ninguém protestou. E voltou o silêncio. Sabiá achou que era pouco e foi para o discurso aberto, em voz alta, diante do caixão.

“Meus amigos, minhas amigas! Meus queridos conterrâneos.”

Mal sabia o que fizera Adelaide nos últimos trinta anos!

“Esta mulher foi um exemplo.”

As pessoas prestavam atenção, ressabiadas.

“Boa mãe, boa católica.”

Adelaide tinha virado evangélica fazia tempo.

“E amava o marido.”

Adelaide largou o cara e foi morar com o pastor. O pastor fugiu para Arapongas e a Adelaide ficou só. Antes de falar mais besteira, Sabiá foi barrado por um parente da defunta.

“Você está bêbado! Não sabe o que está falando.”

E o cara disse que Sabiá não conhecia a Adelaide.

“Não conheço? Quantas vezes olhei as pernas dela no varal?”

Foi constrangedor.

“Eu amo esta mulher desde menino!”

Foi demais. Orcílio, percebendo o tempo feio, se afastou. Sabiá, sem controle, esquentou o velório.

“Eu provo, beijando os lábios da Adelaide.”

Claro que ninguém acreditou que fosse fazer aquilo. Azar deles, porque Sabiá pulou em cima do caixão e sapecou o mais apaixonado beijo do mundo nos lábios frios da defunta. Quem não paralisou ou desmaiou, foi em cima de Sabiá. O peso fez o caixão despencar. Na rua, Orcílio ouviu o alarido e arregalou os olhos. Esperou Sabiá sair voando, como um passarinho, movido por um pé no traseiro.

“Por Deus, homem, você beijou a defunta? Que coragem!”

Orcílio era puro respeito.

“E agora?”

Sabiá disse, chorando:

“A vida é curta e o mundo cruel. Vamos beber que a gente ganha mais.”

E voltaram para o boteco. Orcílio pensou e concordou: a vida é curta e o mundo cruel. Ele abraçou Sabiá, um filósofo, e disse:

“Que beijo que a defunta ganhou, hein Sabiá!!!”

Narrativa publicada em O Estado do Paraná no dia 14 de setembro de 2004.

Written by edilsonpereira