Se existe padroeiro do passageiro de ônibus interurbano, ele esticou o feriado e foi para a casa de parente, porque a muvuca na Rodoferroviária foi coisa de Noé mandar construir arca com urgência e berrar: “Corram que o mundo acabou!”. Ônibus atrasados, centenas de pessoas querendo sair do lugar e ninguém saia de lugar nenhum. Gente nervosa, gente deprimida, gente em pânico: “Eu tenho compromisso urgente amanhã, gente!”. O cara da empresa disse como fosse deputado federal: “Lamento, mas não posso fazer nada”. No Brasil é assim. Ninguém faz nada quando é preciso e quando precisa que a coisa funciona, ela não funciona.

Um sujeito ficou histérico e começou a rir: “Se com a gente é assim, quero ver quando a Copa começar!”. Outro cara balbuciou: “Rapaz, é verdade!”. Foi até bom. Nestas situações acontece algo comum, acho, até em outros países. De repente quatro ou cinco pessoas que nunca se viram na vida se reúnem e começam a dar palpite sobre tudo, como velhos conhecidos, na maior intimidade. Um cara, cujo nome eu não sei (aliás, não fiquei sabendo nome de ninguém e eles também não perguntaram o meu), disse: “O brasileiro é muito burro. Tem tudo e só faz lambança!”. O legal é que sempre surge o contraditório. Se tivesse dito que o brasileiro era inteligente, alguém ia dizer o contrário. Mas como disse que era burro, um cara de Londrina, que tinha jeito de nordestino, emendou esta: “O brasileiro é muito inteligente. Mas ele é inteligente ao contrário”.

Com uma teoria daquela para explicar, a gente ia esperar o ônibus por uns bons minutos sem reclamar. Ele disse: “Brasileiro é inteligente para fazer jabaculê, é inteligente para fazer negociata, dirigente de time é inteligente para subornar zagueiro do time adversário para amolecer o jogo, estudante é inteligente para colar na prova, o pastor fica rico, o padre é pedófilo, o bacana é inteligente para inventar jogo do bicho que é contravenção, mas uma multidão joga, e assim por diante. Inteligente é. Só que faz coisa errada”. Todo mundo balançou a cabeça atônito com tanta sabedoria popular. O único que murmurou alguma coisa foi para concordar: “Rapaz, não é que você está certo? O brasileiro só é inteligente para fazer coisa errada!”. Naturalmente que não era todo mundo, mas um número suficiente para entornar a nação.

Se fosse inteligente para fazer a coisa certa, a Rodoferroviária já tinha terminado, os estádios da Copa estavam prontos a preço abaixo do noticiado, deputado seria honesto, prefeito não roubava, trânsito não teria tantos mortos e feridos, o Fluminense estaria na Segunda Divisão (teria subido para a primeira divisão há anos honestamente e não beneficiado por um golpe de inteligência ao contrário) e assim por diante. Eu fiquei besta. Como o brasileiro era inteligente ao contrário decidi conferir se estava certa a teoria do cara que chamei de Paraíba Midnight. O ônibus das 23 horas chegou pontualmente 1 hora da manhã do dia seguinte – com duas horas de atraso.

Eu falei com um cara da empresa: “Estou calmo. Tenho compromisso amanhã num cartório em Londrina. Negócio de milhões. Se perder eu vou processar vocês. Alguém vai ter que pagar”. Na realidade, não eram milhões. O cara arregalou os olhos como se eu tivesse uma Parabellum na mão direita e usasse na cabeça chapéu de Virgulino Ferreira da Silva. Por pouco, não fiquei zarolho para dar maior credibilidade. O sujeito disse: “Espere um pouco”. Foi falar com o cara que tentava colocar um amontoado de gente no ônibus e cochichou alguma coisa. Antes de o ônibus sair ele veio na minha direção e disse: “Como eles não venderam duas poltronas leito do ônibus, o senhor pode usar uma delas”. Eu fui embora atrasado, pagando menos por um conforto maior. Meu ônibus chegou lá pelas 3 horas da madruga. Nesta hora eu estava para lá de Ponta Grossa, perto do Imbaú. Paraíba Midnight estava certo. O Brasil funciona. Mas anda ao contrário. Que nem caranguejo.

Esta crônica foi publicada na Tribuna do Paraná no dia 24 de abril de 2014.

Written by edilsonpereira