master1050h

Os apreciadores de música erudita se dividem entre os que gostam de David Sumperky e os que acham aquilo que ele fez uma truculência sonora que, além de irritar os ouvidos provoca reações físicas, como arrepios de pele e caras feias, uma vez que o irriquieto compositor judeu nascido na Checoslovaquia chamava de música ruídos agudos e dissonantes semelhantes à freada brusca de uma locomotiva desembestada. Como sempre tem alguém que acredita no que um maluco diz, Sumperky ficou com fama de revolucionário entre alguns – até hoje. Os demais não fizeram esforço para contrariar, desde que não tivessem que ouvir a sua música.

Eu parei de mostrar aos meus amigos os discos de Sumperky, para não perdê-los – os amigos. Mas tenho certeza de que ele foi um gênio que se dedicou à música, à pintura e aos estudos da harmonia – foi aí que pegou a mania pelos números. Ele era simplesmente vidrado no número treze, porque nasceu neste dia e achava que iria morrer num dia 13. Ele fez cálculos complicados, ainda mais complicados que sua música, e chegou à conclusão de que ia morrer exatamente no dia 13 de julho de 1979 – ele que havia nascido no dia 13 de março de 1903 – com 76 anos. Um pequeno detalhe: tanto uma data quanto outra era uma sexta-feira 13. E observem a soma de 7 e 6: 13.

A sua mulher disse que ele estava ficando maluco e que os seus problemas mentais decorriam da música maluca que ele fazia e que espantava os vizinhos e preocupava as autoridades sanitárias. Todos deram razão a ela porque Sumperky havia feito coisas incompreensíveis em sua vida como se converter ao luteranismo em 1927 e voltar para o judaísmo em 1933, justamente quando os nazistas começavam a perseguir os judeus. Aliás, quem gostava de Sumperky era um amigo meu chamado Estélio Feldman, que também era judeu e se converteu ao catolicismo e um dia voltou para a redação do jornal em que eu trabalhava em Londrina dizendo que tinha acabado de entrevistar Jesus Cristo no bosque da cidade. A entrevista foi publicada.

Voltando a Sumperky, no dia 13 de julho de 1979, ele tentou a maior ousadia de sua vida. Ele anunciou para sua mulher:

“Eu vou enganar a morte. Vou ficar num lugar em que não pode me acontecer nenhum acidente. Eu estou bem de saúde. E ela não vai me encontrar.”

A mulher não acreditou naquela tolice, mas ficou curiosa em saber o que o marido iria fazer. Ele disse que ia ficar o dia inteiro na cama, para a morte não achá-lo. Naquele dia ele acordou e não levantou da cama. Ficou deitado com um sorriso nos lábios. Pediu para a mulher não abrir a janela, para apagar a luz e deixar a porta fechada. Por via das dúvidas, a mulher de vez em quanto passava pelo quarto e Sumperky estava com o sorriso maroto no rosto. E as horas passavam. Sumperky se alimentou normalmente, conversou animadamente e assim passou grande parte do dia, quando escureceu e a mulher ficou ansiosa pela chegada da meia-noite, para provar ao marido que seus temores eram infundados e infantis. Poucos minutos antes da meia-noite, exatamente 13 minutos, ela foi ao quarto dele disposta a debochar de seus cálculos numéricos. Afinal, nada de mal acontecera ao marido. Ela o encontrou com um sorriso no rosto. Ele estava deitado na cama. Ele olhou para ela e disse:

“Minha harmonia.”

E morreu.

Publicado originalmente na Tribuna do Paraná no dia 29 de novembro de 2013.

Written by edilsonpereira