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            Os caras chegaram por volta das cinco da tarde. Dalva abriu a porta do apartamento. Eram três homens fortes. Usavam jalecos brancos, estavam de máscaras e luvas. Ela deixou os caras entrar e disse que Verona estava dormindo no quarto. O cara mais forte disse que era melhor assim. Ele estava acostumado com aquilo e não queria perder tempo. Perguntou onde ficava o quarto e Dalva disse que era a primeira porta do corredor. O sujeito atrás dele estava com uma vestimenta branca nas mãos. Dalva deduziu ser a camisa. Artêmio sentado no sofá de cabeça baixa ignorava o que estava acontecendo.

Dalva disse:

“Eles chegaram, Artêmio!”

Ele murmurou:

“Eu vi.”

Os três foram direto para o quarto de Verona. Eles abriram a porta, acenderam a luz. Ela acordou e eles disseram que ela deveria ir com eles. Ela se assustou e perguntou quem são vocês. O mais forte disse que os pais mandaram eles levarem ela para uma temporada na clínica. Ela baixou a cabeça e começou a chorar. Nem tentou berrar. Mas os caras sabiam que aquilo podia ser apenas reação inicial e por prudência botaram mordaça na boca e a fizeram vestir a camisa de força que o segundo sujeito tinha nas mãos. Amarraram as mangas nas costas e estavam prontos para sair. Quanto mais rápido melhor para evitar dramas que não ajudavam em nada. Verona foi andando trôpega e se não quisesse caminhar os caras sabiam que teriam de erguê-la e sair arrastando pelo apartamento e corredor até o elevador. Os caras eram fortes e estavam acostumados com aquilo. Parece que Marluce também entendeu tardiamente a situação porque não esboçou reação. Seria pior. Na sala, Dalva entregou uma sacola de tecido azul com roupas, documentos e objetos pessoais.

            “As coisas dela estão aqui!”

            O terceiro sujeito pegou sem fazer perguntas. Dalva chorava e não teve coragem de olhar no rosto de Verona. Os caras não disseram nada. Eles levaram Verona. No sofá, Artêmio olhava o chão. Tudo demorou de cinco a dez minutos. O apartamento ficou em silêncio. Eles não ouviram barulho no corredor. Dalva foi para a poltrona ao lado do sofá e sentou em silêncio. Alguns minutos depois que Marluce saiu, Dalva caiu no pranto. Artêmio continuou em silêncio por longos minutos e quando Dalva parou de chorar, ele murmurou:

            “A gente não tinha escolha!”

            E depois que ele disse aquilo os dois ficaram em silêncio por mais de uma hora, até a noite cair sobre a cidade e todos eles. Um frio arrepiante entrou pela janela. Dalva se levantou de olhos inchados, acendeu a luz da sala, caminhou alguns metros, olhou para a rua e fechou a janela. A rua e a calçada estavam desertas e parcialmente banhadas por uma luz amarela da lâmpada do poste. Ela voltou e olhou o calendário na parede. Era uma bobagem. O celular trazia segundos, minutos, horas e dias. Mas ela gostava de calendários. Eles faziam recordar a sua infância quando as lojas da cidade davam calendários de brinde para os clientes no fim do ano. Dalva respirou fundo e anotou mentalmente aquele dia. Dezenove de junho.

Ela parou no centro da sala e disse para Artêmio:

“O inverno começa amanhã.”

Artêmio saiu de seu estupor como estivesse saindo de um longo sono e comentou com voz sonolenta e arrastada:

“Vai ser um longo inverno para ela, coitada!”

Dalva não respondeu e foi para a cozinha. Ela não queria reclamar. Mas o braço doía. Aliás, o braço nunca deixou de doer. Ela não reclamava porque tinha problemas urgentes. Um deles era Verona. Outro era o vírus. Ela estava com tumor no braço e não ia pisar no hospital enquanto a situação não ficasse normal. Só faltava ir para o hospital para ver um problema e acabar morrendo ainda mais rápido por causa de outro. O médico disse que precisava fazer tratamento doloroso para não ter de cortar o braço. Ou algo pior. Ela sabia o que era o pior mas não queria tratamento doloroso. O médico disse que pelos exames aquilo poderia esperar dois ou três meses. Não mais. O certo era cuidar o mais cedo. O braço doía e Dalva acreditava que mais cedo ou mais tarde ia perder o braço. Enquanto isso o braço ajudava a fazer o almoço, jantar, lavar a louça, estas coisas.

Ela nem ouvir Artêmio murmurar:

“Onde foi que erramos?”

Era uma pergunta. Mas disse de um jeito que não parecia pergunta porque não tinha ninguém para responder. Ele carregava a derrota no peito. Talvez não fosse erro e nem derrota. Talvez fosse isso mesmo. Ninguém era perfeito. Verona sempre foi brilhante e louca. Estava agora com trinta e cinco anos. Dois filhos. Um de cada pai. De namorados fugazes. O primeiro nos anos de universidade. Achou que deveria ficar grávida para saber como era ser mãe. Uma curiosidade. A filha mais velha foi criada pela avó paterna. O segundo filho anos mais tarde ganhou quando estava trabalhando. Queria ficar em casa ganhando salário e curtindo gravidez. O filho mais novo ficou com o tio paterno. Sorte deles. Os pais foram tão irresponsáveis quanto Verona embora o pai da primeira tenha mudado de vida depois de passar uma temporada numa clínica de recuperação para dependentes em substâncias químicas. Uma guinada de cento e oitenta graus. Virou pregador evangélico e passou a prestar assistência para a filha que estudou em bons colégios. Quanto ao segundo filho, o pai do garoto foi fuzilado numa madrugada pela Polícia Militar. Uma destas mortes cheias de perguntas e sem  respostas procedentes. Tudo isto sem Verona acompanhar o que estava acontecendo. Ela não quis ficar com filhos.

Para quem tentava entender ela respondia:

“Odeio rotina! Amo os meus filhos mas não sirvo para ser mãe.”

Artêmio e Dalva cansaram de tentar explicar para a filha que a vida era feita de rotinas. A natureza era feita de rotinas. Até os cometas e os asteróides tinham rotinas. O sol e os planetas tinham rotinas. Não havia rotina maior que esse negócio de o dia nascer e depois ir embora para a noite aparecer e ela também ir embora para o dia reaparecer numa rotina infinita. Também eram rotineiras, mas um pouco mais espaçosas, as estações do ano. Assim como eram rotinas aquele negócio de nascer, crescer e morrer a que todos humanos estavam condenados. Tudo na vida era rotina. Verona gostava de se apaixonar e engravidar. Pode parecer uma coisa louca. A maioria das mulheres gosta de engravidar desde que tenha um companheiro para participar desta jornada ou aventura que muitas julgam maravilhosa que é acompanhar o crescimento dos filhos, para ter a ilusão de que vão se eternizar através deles. Verona gostava dos filhos, mas não da responsabilidade de criá-los.

“O que tem isto de estranho?”, perguntava.

As pessoas não entendiam. E assim entrava na contramão do convencional. A sociedade costumava colocar estas pessoas que andavam na contramão do convencional em lugares melancólicos e tristes para aprenderem que o mundo era feito de rotinas. Ou então pirassem de vez e ficassem com aqueles olhares catatônicos num canto da sala ou do quarto sem encher o saco de ninguém. Para evitar que Verona enchesse a casa dos pais de filhos, Artêmio tratou de encomendar ao médico uma ligação de trompas quando Marluce fez o segundo parto. Ele teve de assinar uma declaração assumindo a responsabilidade pela cirurgia se alguma coisa desse errado depois. Verona nem soube. E também não procurou descobrir porque não engravidou mais. Acreditou que ficou estéril por algum problema durante o parto e que isto também não tinha importância. Não fosse a cirurgia teria aumentado sua cota de filhos neste mundo mais umas três ou quatro vezes, cada um de pai diferente e todos criados por pessoas que se apiedavam do infortunio das crianças, porque Verona não gostava da responsabiliade de criar filhos. Depois de terminar a universidade, ela gostava de andar por aí. Conhecia o Brasil. Fortaleza, Natal e Parati. Goiania, Manaus e Ilhéus. Chegava nestes lugares e trabalhava em bares. Conhecia rapazes e moças. Formava uma nova turma e quando aquilo começava a virar uma nova rotina ia embora para outro lugar. Quando ficava sem dinheiro, ligava para Artêmio. Ou para Dalva. Eles pediam para a filha voltar para casa, mas ela tinha sempre um bom argumento. Ao final mandavam dinheiro. Mas depois de março ela não tinha para onde ir. A não ser para os bares da cidade. Bebia e quando bebia não se lembrava no dia seguinte do que fez. Estava acostumada a acordar em camas e quartos estranhos.

Os pais ficaram  preocupados. Estavam velhos. Grupo de risco. Não adiantava prudência se Verona agia daquele jeito. Sem contar um problema adicional: estava agressiva.

Dalva entrou em pânico:

“Verona, se você pegar esta merda de vírus e trazer para casa, eu e seu pai estaremos em periogo.”

Verona olhou perplexa para a mãe:

“Ficou louca, mãe? Por que eu iria trazer um vírus para casa?”

Não adiantava discutir. Ela sempre tinha razão.

Era isso. Aquilo tinha que terminar de algum jeito. O jeito foi falar com o pessoal da clínica.

Da cozinha, Dalva perguntou:

“Vou fazer canjica, você quer?”

Artêmio respondeu na sala, a voz era a de um doente:

“Não. Perdi a fome. Estou sem vontade de comer.”

“Não adianta ficar assim. Você tem que comer alguma coisa.”

“Então me faça uma sopa.”

“Tudo bem.”

Depois ele se levantou e foi até a cozinha:

“Será que lá eles tem cobertores bons? Eu vi na televisão que semana que vem terá frente fria.”

Dalva não tinha pensado nisso. Ela disse:

“Não adianta você ficar assim. Você sabe que cobertor é de menos. Eles vão ter que amarrar ela na cama porque ela não vai ficar tranquila. Da outra vez foi assim. E desta não será diferente.”

Artêmio baixou a cabeça pensativo:

“Isto é verdade.”

Dalva disse:

“Meu medo é o vírus.”

“Mas lá não é um hospital como os outros.”

“Você viu o que aconteceu aqui? No sanatório! Seis pacientes foram  infectados e quando fizeram exames o hospital inteiro estava contaminado. Todos os pacientes e funcionários.”

“Todos!”

“Todos. Médicos, enfermeiros, faxineiras. Todo mundo.”

“Meu Deus!”

“Sem contar que em muitos asilos o contágio é grande. Foi assim na Itália e também na França e na Espanha. Aqui pelo nosso secular desleixo vai ser ainda pior.”

“Meu Deus!”

Ao ver que Artêmio estava entrando em pânico, Dalva tentou apaziguar:

“Mas essa clínica é boa. Boa e cara. Por isso eu confio. Eles disseram que lá vai ser diferente. E que o controle é rígido.”

“Espero que seja.”

“Eu também. Porque não temos alternativa.”

“Não temos mesmo. Se Verona fosse um pouco sensata. Só um pouquinho, nada disso estava acontecendo.”

“Mas não é. E não adianta você ficar assim. Verona não aceita disciplina. Ela não tem medo de colocar as pessoas em risco porque não tem medo de correr riscos. Este negócio de sair toda noite, dormir com pessoas estranhas e voltar bêbada, a gente sabe onde ia parar. Ela nem ligava para este vírus que está por aí e colocava todo mundo em risco.”

“Eu sei.”

“E não só isso. O comportamento agressivo. Como se a gente inventou tudo isto que não deixava ela viajar por aí. Não fomos nós. A gente nem saiu de casa, no foi para a Europa, não foi para os Estados Unidos. Nós nunca saímos do país. Foi esta gente irresponsável que foi para fora e trouxe esta praga para cá. Agora a gente tem que fazer a nossa parte.”

“Eu sei.”

“A sopa está quase pronta.”

Artêmio baixou a cabeça. Ficou com vontade de chorar. Não ia adiantar.

Ele disse:

“Acho que vou tomar banho. Deixe a sopa esfriar que depois eu tomo.”

Ele se afastou. Dalva terminou de fazer a sopa e colocou na mesa. Em seguida ela serviu a canjica numa vasilha, sentou e ficou comendo lentamente em silêncio. Quando terminava de comer, Artêmio chegou de banho tomado e de pijama.

“Você já fez a canjica?”

“Eu fervi de manhã e coloquei na geladeira. Só precisou esquentar e colocar canela.”

“Ah!”

Ele sentou e tomou sopa em silêncio. Ela pensou em voltar a falar de Verona. Achou melhor ficar quieta. Nas últimas semanas a filha agrediu a pai e a mãe. Chegou bêbada de madrugada várias vezes. Há dois dias quebrou o apartamento porque o pai não deu dinheiro para sair à noite. Eles só tinham uma saída. Falar com o pessoal da clínica de recuperação. Verona esteve lá há dez anos. Antes de ganhar o segundo filho. Foi horrível. Era um lugar soturno e triste. Ela voltou tão assustada que por algum tempo não bebeu e não saiu à noite. Comportou. Até arrumou emprego. Arrumou namorado bacana. O cara fez planos e queria casar. Os pais pensaram que finalmente as coisas seriam como sempre sonharam. Mas, nada. Aos poucos foi relaxando a disciplina e tudo voltou como antes. Ela conheceu o pai do segundo filho e a história se repetiu. Se pelo menos ela fosse morar sozinha ou com alguma amiga ou amigos os pais não seriam atingidos pela vida errática. Mas Verona precisava da casa e do dinheiro dos país porque seus breves empregos eram apenas parte de seu estilo de vida. Eram dois estilos de vida que não combinavam. O dela e o dos pais.

Dalva olhou Artêmio. Ele estava velho e cansado.

Ele ergueu a cabeça e perguntou:

“Pensando nela?”

“Sim. Claro.”

“Pense em outra coisa!”

“Eu tenho medo de ela fugir e vir aqui e matar a gente.”

Ele parou de tomar sopa. Não tinha pensado nisso.

Respirou fundo e disse:

“Prefiro não pensar numa coisa desta!”

“Mas eu penso.”

“Pensando estas coisas você vai ficar deprimida.”

“Eu já estava deprimida com esta quarentena. O medo de pegar este vírus. E foi este medo que acabou fazendo com que nossa relação com Verona ficasse insuportável.”

“A nossa relação com ela sempre foi insuportável.”

“Se a gente sobreviver a tudo isto o mundo nunca será o mesmo.”

“O nosso mundo, Dalva, nunca é o mesmo uma semana depois de outra.”

“O nosso inverno será longo.”

“O de Verona também!”

 

 

 

 

 

Written by edilsonpereira