gato-CharlesBukowski

Eu nunca fui chegado a gatos. E tinha pavor de gatos pretos. Influência dos gibis e filmes de horror. Assim como não passava embaixo de escadas. A vida nunca foi fácil e não queria perder tempo e energia desafiando a velha sabedoria ou crendices populares. No entanto, em 1978 fui morar na Vila Madalena em São Paulo numa casa de amigos em que um deles tinha um gato. Gato preto ainda por cima. E que dormia no nosso quarto. Luís gostava do Oscar. Oscar era o gato. Como paguei adiantado e não sabia da existência do gato preto, não podia sair correndo.

O jeito foi domar meus temores. Quando chegou o inverno, eu tinha pouca coberta, mas uma noite gelada senti meus pés aquecidos. Um calor gostoso. Quando fui conferir, era Oscar enrolado neles. Como não acontecera nada ruim até aquela noite, ignorei a presença do Oscar e voltei a dormir com os pés aquecidos. Mudamos tempo depois para um sobrado maior no mesmo bairro, onde cada um de nos tinha um quarto. Oscar foi junto. Sumiu o temor com os gatos de maneira geral e com gatos pretos em particular. Mas não tive gatos depois disso, embora vez e outra tivesse vontade.

O gato é um bicho limpo. É animal doméstico. Mas gosto de cães. Tenho uma cocker spaniel há catorze anos. Que na realidade foi comprada pela minha ex-mulher. Que queria levar o animal para a praia. Mas o bicho quis voltar para Curitiba. E a escolha da cocker latiu mais alto. Por que a gente gosta de cães? É um bicho simples que ama todo mundo. Tem o dom do perdão. Parece que o cachorro tem a índole que Jesus pediu para todo humano ter. Claro que Jesus não pediu para nenhum humano sair mordendo as pessoas. Mas estamos falando das boas coisas.

Os gatos, todos sabem, não são assim. São caprichosos. São astutos. Os gatos são chatos. Tanto que um jornalista e escritor inglês chamado Jon Ronson garante que os psicopatas preferem os cães. Está no seu livro “O teste do psicopata”. Ele diz que os psicopatas preferem animais obedientes. Como o cão. E tinha um bom exemplo. Adolf Hitler desprezava gatos. Gatos e judeus. Nesta quarentena encontrei um monte de fotos de escritores com gatos e me interessei pelo assunto. Fui pesquisar se muitos escritores gostavam de gatos. Levei um susto. A lista de escritores que gostavam de gatos é enorme.

A explicação seria a seguinte: os gatos, como os escritores, são criaturas voluntariosas, que não gostam de ser controladas. A maioria dos autores é introvertida e os gatos se encaixam com perfeição no mundo deles. Como disse a autora americana de ficção científica, Andre Norton (o nome era Alice Mary, mas usava nome de homem), “talvez seja porque os gatos não vivem de acordo com os padrões humanos, não se adaptam ao comportamento prescrito, que eles estão tão unidos às pessoas criativas”. Gostei da tese dela.

Mas a verdade é que muitos escritores tinham afeto profundo pelos felinos. Eu reuni alguns deles. A começar por Isaac Newton, escritor e cientista que elaborou a lei da gravidade. Ele gostava tanto de gatos que inventou uma porta giratória para o uso de seus bichanos. Outro que tinha relação especial com os gatos era Edgar Allan Poe. O autor de “O gato preto” chegou a afirmar que “gostaria de poder escrever tão misteriosamente quanto um gato”. Ele tinha uma gata chamada Cattarina que o vigiava enquanto escrevia. Provavelmente dava alguns conselhos. Assim, até eu, né Edgar?

Conhecido por ser o divulgador de Allan Poe na Europa, o poeta francês Charles Baudelaire escreveu que os gatos eram “seráficos”, ou seja, místicos, anjos que estão na primeira posição na hierarquia angelical. Baudelaire os considerava tão sutis e harmoniosos quanto os anjos. E como muitas pessoas que gostam de gatos, ele não gostava de cães. A um amigo reclamou em carta que não estava mais conseguindo viver com a sua amante Jeanne que trouxe os cães dela para casa e afugentou o gato dele. Reação do poeta: “Quelle horreur! Quelle horreur!”

Mais um francês amante da gataria. Alexandre Dumas, autor de “Os três mosqueteiros” e “O Conde de Monte Cristo”. Ele se lembrava do animal de estimação da família, Mysouff, a quem a mãe amava muito: “Ela costumava chamá-lo de Barômetro. Mysouff marca meu bom e mau tempo”, dizia a velha. O gato esperava ele como um relógio quando chegava em casa do trabalho. Mysouff sabia quando Dumas terminaria o trabalho e acompanhava o mestre nas caminhadas para o escritório.

Mais tarde, Dumas foi dono de Le Docteur e Mysouff II. Este último era o favorito, embora dizimasse toda variedade de pássaros exóticos de Dumas cultivava. O escritor disse: “O gato, um aristocrata, merece nossa estima, enquanto o cachorro é apenas um tipo escorbuto que conseguiu sua posição com baixas lisonjas”. Tadinho dos cães. Ainda bem que eles são mestres na arte do perdão. Ô Dumas, não precisa ofender os cães para agradar os gatos. Que coisa feia! Vamos em frente.

O inglês Charles Dickens tinha um gato chamado Bob. Que morreu em 1862. O escritor tirou a patinha do defunto e anexou a um abridor de cartas, no qual, escreveu, “CD In Memory of Bob 1862”. Em seguida lamentou: “Que presente maior do que o amor de um gato?”. No outro lado do Atlântico, Mark Twain concordaria. As fotos dele com gatos não deixam dúvidas. Gostava dos bichanos. Quando seu gato preto chamado Bambino fugiu de casa, o escritor publicou um anúncio no New York American oferecendo recompensa de cinco dólares para quem encontrasse o animal e devolvesse em sua casa na 21 Fifth Avenue, em Nova York. Ele descreveu o bicho como “grande e intensamente preto, tem uma franja fraca de cabelos brancos no peito e que não era fácil de encontrar na luz natural”. Não consegui descobrir se ele encontrou o felino.

Atravessando o Atlântico de novo para Londres, encontramos Herbert George Wells, mais conhecido por H. G. Wells, autor de “A guerra dos mundos”, “O homem invisível” e “A máquina do tempo”. Ele tinha um gato que chamava cerimoniosamente de Sr. Peter Wells. E que de acordo com o escritor tinha o hábito de se levantar da cadeira em que estava e saia da sala como forma de protesto, se um hóspede começasse a falar muito ou muito alto. “O gato, que é um animal solitário, tem uma mente única e segue seu caminho sozinho, mas o cachorro, como seu dono, está sempre com a mente confusa”, disse o escritor. Mais um que não sabe elogiar o gato sem ofender os cães.

Vamos agora falar dele. O machão. Fodão. Mas que gostava de um gatinho. Ernest Hemingway. Ele pegou gosto pelos bichanos quando vivia na Finca Vigia, sua casa em Cuba. Numa das viagens o escritor ganhou um gato de seis dedos, também conhecido por polidáctilo. Ele deu o nome de Snowball. E gostou tanto que em 1931, quando se mudou para a casa em Key West, na Flórida, levou o gato. Tinha por ele grande afeto. “Um gato tem absoluta honestidade emocional. Os seres humanos, por um motivo ou outro, podem esconder seus sentimentos. Um gato, não”. Ele chegou a ter 23 gatos. Os gatos de seis dedos passaram a ser conhecidos como Gatos de Hemingway. Visitantes testemunharam que a casa do escritor em Key West que se transformou em museu tem hoje mais cerca de 50 descendentes de Snowball.

O inglês Aldous Huxley escreveu sobre tudo e ficou famoso por dois livros: um deles é “Admirável Mundo Novo”, que virou clássico. Mas os maconheiros e hippies dos anos 60 adoravam mesmo o livro sobre experiências do autor com substâncias lisérgicas ao qual deu o nome de “Portas da percepção”. Este livro é responsável pela escolha do nome da banda The Doors. Mas como o assunto é gatos, Huxley disse: “Se você quer ser um romancista psicológico e escrever sobre seres humanos, a melhor coisa a fazer é manter um par de gatos”. O conselho está registrado para quem está interessado em ser um romancista psicológico, embora eu não entenda porque tenha que ser um par.

O amor do poeta William Butler Yeats pelos gatos pode ser encontrado em poemas como “O Gato e a Lua”, onde usa a imagem de um gato para se representar e a imagem da lua para representar sua musa, Maude Gonne, uma dona da sociedade londrina, feminista e atriz que inspirou o poeta ao longo da vida. O poema faz referência ao gato de Gonne chamado Minnaloushe, que senta e olha para a lua que muda. Yeats metaforicamente se transforma no gato que anseia por amor da dona indiferente a ele. O poeta felino comovente se pergunta se Gonne mudará de idéia. Maude Gonne nunca concordou em se casar com ele, apesar de ele pedir a mão dela apenas quatro vezes.

Outro poeta gatuno é T. S. Eliot. Escreveu muitos poemas sobre gatos, compilando em 1939 quinze deles no “Livro dos Gatos Práticos do Velho Possum”. A coleção de quinze poemas caprichosos dedicados aos felinos abordava a psicologia, pecularidades e exentricidades de um gato. Claro que ele tinha gato. Chamava-se Jellylorum. E não podemos deixar de falar de Andrew Lloyd Webber, também conhecido por Barão Lloyd-Webber Kt, que musicou os poemas de T. S. Eliot e levou os nomes Old Deuteronomy, Rum Tum Tugger e Mr. Mistoffelees para a Broadway, onde ficaram dezoito anos em cartaz como parte do musical Cats.

Poeta gosta mesmo de gatos. Mais dois. William Carlos Williams trabalhou como médico pediatra para complementar a carreira de escritor, que rendeu o Prêmio Nacional do Livro de Poesia de 1949 e o Prêmio Pulitzer de 1963, este póstumo. O estilo direto captava a essência das pequenas coisas do cotidiano. O gato foi usado para compor uma cena simples no poema “Poema (como o gato)”.

Mais uma. Elizabeth Bishop foi uma grande poetisa norte-americana. Um belo mês de novembro chegou de navio em Santos para ficar duas semanas. Ela gostou do país e ficou mais de vinte anos. Bishop conheceu a arquiteta e urbanista Lota de Macedo Soares, as duas se apaixonaram e Bishop foi morar no Rio de Janeiro, depois nos arredores de Petrópolis e finalmente em Ouro Preto. Além de gatas, Bishop gostava de gatos. No segundo caso, felinos. Tanto que escreveu uma canção de ninar para seu gato americano, Minnow, e outro poema sobre seu gato brasileiro, Tobias, que ficava em pânico durante tempestades com raios.

Todo mundo sabe que Raymond Chandler teve grande influência no romance policial moderno. O estilo noir recheado de homens frios e garotas quentes. Felinas. Sua criação o detetive Philip Marlowe é protótipo do detevive do romance policial moderno. E seus livros “O sono eterno” e “O longo adeus” são clássicos do gênero. Mas atrás deste escritor que forjava personagens durões estava um amante dos gatos. Sua gata Taki dava prazer mas também enchia o saco. Em carta a um amigo ele se queixou: “Nossa gata está ficando positivamente tirânica. Se ela se encontra sozinha em qualquer lugar, emite gritos de gelar o sangue até que alguém venha correndo. Ela dorme em uma mesa na varanda de serviço e agora exige ser levantada para cima e para baixo. Ela toma leite morno por volta das oito horas da noite. E por volta das 19h30 começa a gritar”. Sem paciência não há amor que resista, Raymond! Parece que não sabe!

Vamos em frente. Patricia Highsmith não tinha reputação de ser amigável (“Minha imaginação funciona melhor quando não preciso falar com as pessoas”). Mas a excelente autora de “O talentoso Ripley” e “Estranhos no trem” encontrou uma maneira perfeita para a imaginação funcionar. A companhia de seus gatos. Ela fazia tudo com eles – escrevia ao lado deles, comia com eles e até dormia junto deles. Era uma suruba litero-felina. Ela os manteve ao seu lado toda a vida até morrer em sua casa em Locarno, Suíça, em 1995.

Embora botasse o pé na estrada, Jack Kerouac amava gatos. Ainda mais Tyke, seu gatinho, cuja morte infeliz escreveu com detalhes em “Big Sur”. O argentino Jorge Luís Borges era outro que tinha gato. Era Beppo, em homenagem a poema de Lord Byron. E o patrício Julio Cortazar tinha um gato chamado Theodor W. Adorno. Ele foi outro que escreveu sobre seu gato, neste caso no livro “A volta ao dia em oitenta mundos”.

Claro que nesta lista não poderia faltar o velho safado. Charles Bukowski tinha um gato de uma orelha chamado Butch Van Gogh Artaud Bukowski. O nome mais comprido que encontrei até agora. Ele disse: “Ter um bando de gatos por perto é bom. Se você está se sentindo mal, basta olhar para os gatos, se sentirá melhor, porque eles sabem que tudo é exatamente como é. Não há nada para se animar. Eles apenas sabem”. Outro velho doido que gostava de gatos era aquele que deu um tiro na cabeça da mulher no México pensando em acertar a maçã que ela equilibrava na cabeça. Ele mesmo: William Seward Burroughs.

Bill Burroughs é conhecido por escritos selvagens induzidos por drogas, mas também tinha lados suaves – quando se tratava de gatos. Ele escreveu uma novela autobiográfica, “The Cat Inside”, sobre os gatos que possuiu ao longo da vida. A última anotação no diário antes de morrer se referia ao puro amor que tinha por seus quatro gatos: “A única coisa que pode resolver um conflito é o amor, como senti por Fletch e Ruski, Spooner e Calico. Amor puro. O que sinto pelos meus gatos presentes e passados? Ame. O que é isso? Analgésico mais natural que existe. AMOR”. Depois dessa é bom parar aqui. Mas a lista de autores que tinham afeto pelos felinos não termina. É longa. Muito mais longa que este texto.

 

Written by edilsonpereira