Num mês do emblemático ano de 1961, uma mulata mineira mudou-se para a maior das duas casas de madeira no fundo do quintal. Era a de dois cômodos, um quarto e uma sala-cozinha. A janela do quarto abria para a casa da frente enquanto a janela da sala-cozinha abria para o fundo do quintal, onde havia um muro branco que separava o terreno da casa do vizinho, um médico baiano que se mudara há alguns meses para a rua Estácio de Sá.

O garoto, impressionado com a exuberância da mulata, perguntou para a velha:

“Quem é esta mulher?”

“É Giovana. Mulher do investigador.”

Giovana era o que se chamava de mulher de fechar o comércio. O garoto tinha nove anos. Mas, por precaução, a velha colocou a palavra-chave investigador para o menino não ter ideias pecaminosas em relação à mulata. Giovana era aquilo que homens adultos definiam por uma gostosa. O investigador aparecia de vez em quando o que significava que Gioavana não era mulher apenas do investigador. Mas estes detalhes ele descobriu com o passar do tempo. Giovana tinha um filho, cujo pai não era o investigador. Era o Humberto. Um elemento a mais para envolver a mulata numa atmosfera de mistério. E mistério era o que não faltava quando o assunto era Giovana.

“Se ela é mulher do investigador, aonde ela vai toda arrumada, vó?”

“Não é da sua conta.”

Um dia ele ia conhecer o investigador. E conheceu. Era um japonês gordo, bonachão e sorridente. Com bigodinho semelhante ao de Cantinflas, o comediante mexicano, acrescentado por barbicha tão pequena que parecia filhote de barba.

“Bom dia, seu Gregório.”

Ainda mais isso. O japonês se chamava Gregório. Ele nunca ouviu falar de japonês chamado Gregório. E agora morava no fundo de casa uma mulata que era mulher do Gregório. Que era investigador. Ele também nunca ouviu falar em investigador japonês. Todas as preocupações ficaram em segundo plano quando um dia bateu na porta da casa da velha o médico baiano. Ele estava furibundo.

“O seu neto jogou torrões de barro no muro que separa as nossas propriedades. E sujou. Eu exigo que a senhora mande ele limpar.”

O médico baiano não deixou alternativa. A velha disse:

“Sim, senhor. Ele vai limpar.”

O garoto jurou que não sujou o muro do vizinho. Não adiantou. Pesou contra ele os antecedentes. E não eram poucos. Ele apanhou de rabo de tatu e ainda limpou o muro. O episódio se repetiu e o garoto cumpriu o mesmo roteiro. Apanhou e limpou. A velha estava ficando farta daquilo quando o médico apareceu uma terceira vez. E desta vez a velha se encrespou:

“Quando foi isso?”

“No final do dia de ontem.”

“Não pode ser. Ele estava comigo. Ele passou a tarde encerando a sala e os quartos.”

Cera Parquetina. Além de raspar o assoalho de madeira com palha de aço, ele tinha de encerar e depois passar o escovão. E, finalmente, passar uma flanela no assoalho para dar brilho. Aquilo consumia uma tarde inteira. O médico baiano não estava acostumado a ser contrariado. Queria saber quem sujou o muro branco. Ele disse que tinha um filho adotivo, a pessoa mais santa do mundo. Era o Justino. O médico colocava as mãos no fogo por ele. Então só podia ser o neto da vizinha.

“Ele não foi.”

Por via das dúvidas, ela pediu para o garoto limpar o muro. E tratou de se prevenir. Contou o caso para o investigador Gregório, que se prontificou em ajudar. Ele morava nos fundos e ficou atento três dias. Até flagrar um ruído no muro branco. Ele pulou a janela da sala-cozinha e flagrou o filho adotivo do médico arremessando torrões de terra no muro branco. O japonês pulou o muro, pegou o garoto, que gritou:

“Pai, tem um japonês louco querendo me bater.”

O médico apareceu e Gregório mostrou as mãos do menino sujas de terra vermelha.

“Todo este tempo era o seu filho que sujava o muro branco. E o senhor acusando o neto de minha locadora. Este caso vai parar na delegacia.”

O médico baiano se assustou e gaguejou:

“Quem é senhor?”

O japonês tirou a carteira e mostrou para o médico:

“Kunihiro Kobayashi. Investigador policial.”

O médico percebeu que estava em apuros e pediu arreglo. Na mesma semana, humilhado e ofendido, ele se mudou da Zona Dois. De cidade. E do Paraná. Voltou para a Bahia. Mas, antes de voltar, quis saber o motivo da rebeldia do filho adotivo.

O garoto disse:

“Eu não quero ficar nesta cidade. Ela é feia.”

Talvez ele tivesse razão. Mas o muro branco não tinha nada com isso. Gregório, que na realidade se chamava Kunihiro Kobayashi, disse para a velha que o caso estava encerrado. E fez uma profecia:

“Aquele garoto manhoso ainda vai dar trabalho para o médico.”

Mas esta era outra história. Nunca mais se teve notícia do médico baiano.

Written by edilsonpereira