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            O pouco que soube daquela história eu devo a um assustado caixa que anotou errado o preço de um produto e chamou a superiora que estava no fundo da farmácia atendendo outra pessoa e demorou alguns minutos para vir anular a operação. Na minha frente, a um metro e meio de distância, um casal esperava ser atendido enquanto conversava. Os dois usavam máscaras brancas, portanto não sei nada mais que isso: ela usava calça jeans, camiseta azul de manga comprida, gorro colorido com tonalidades branca, azul e vermelha e segurava um casaco cinza de lã no braço direito. Ele vestia calça preta e usava casaco xadrez de lã e chapéu preto. As vozes vinham abafadas por causa das máscaras mas eram audíveis.

            Ela perguntou:

“O que você está achando deste ano?”

Ele riu por trás da máscara e disse com voz abafada e debochada:

“Vamos dizer que é um ano diferente para que não fique pior.”

Ela riu e concordou:

“Vamos dizer que é um ano diferente.”

Ele voltou a falar:

“Na Argentina a temperatura está vinte graus negativos. Vai esfriar por aqui também.”

Ela disse:

“Eles estão às voltas com uma enorme nuvem de gafanhotos.”

Ele ficou sério e disse:

“Sabe, estou pensando seriamente que estamos atravessando um momento crucial.”

Ela indagou:

“Crucial ou glacial?”

“Crucial. Como aquele negócio do Egito.”

“Que negócio do Egito?”

“As sete pragas.”

“Eu só sei que nada sei.”

Ele perguntou e havia um ligeiro tom de angústia na voz:

“Será que seremos felizes novamente?”

Era uma pergunta interessante. Eu queria ouvir a resposta. Mas a superiora do moço do caixa apareceu e perguntou:

“O que aconteceu?”

O moço respondeu envergonhado:

“O produto tinha desconto. Mas a máquina não registrou.”

“Não registrou porque você não apertou esta tecla aqui.”

Ela mostrou a tecla que era para ser apertada e disse:

“Puxa vida! Agora tenho que levar tudo isso para registrar de novo.”

Ela pegou a compra de um homem que estava de costas para nós e levou para o fundo da loja para registrar de novo. A moça que estava na fila na minha frente disse ao rapaz que parecia ser marido ou namorado dela.

“Estou começando a achar que não existe felicidade. E que a gente se esforça para sobreviver. Resumindo, a vida é um negócio meio besta.”

Ele disse:

“Nós somos felizes.”

A garota olhou-o assustada:

“Somos?”

“Eu acho que sim.’

“O que é felicidade mesmo?”

Ele respondeu:

“Felicidade é uma descarga elétrica.”

“Sério?”

“Sim.”

Então ele contou que há alguns anos quando estudava o ensino médio no Gratulino de Freitas e tinha apenas quinze anos saiu com uma garota que adorava. Ela se chamava Ulrica e tinha dezesseis anos. Era a garota mais bonita da sala. Foi surpreendente. Uma coisa que ele atribuía a uma destas loterias da vida que premiava o sujeito com uma descarga inesperada de felicidade elétrica. A garota brigou com o namorado porque o encontrou com uma amiga e decidiu se vingar. Ele não sabia disso. Ela o levou para casa dela porque os pais tinham ido para a casa de uns parentes em Joinville e ela estava sozinha. Chegando lá ela preparou dois sanduiches, abriu uma garrafa de vinho, os dois comeram e beberam e quando ele pensou que teria de ir embora, começou a chover. Ela então decidiu que ele ia dormir na casa dela aquela noite. Ela o levou para o quarto e começou a se despir. Ele percebeu que ela queria deitar-se com ele, como se diz na Bíblia. Tudo aquilo era novo e fascinante para ele.

O rapaz suspirou melancólico:

“Foi a minha primeira vez. Não poderia ter sido mais belo que isso.”

A garota perguntou interessada:

“E você sentiu uma descarga elétrica?”

Ele respondeu sério:

“Sim. Eu estava transando e senti uma enorme descarga elétrica.”

“E daí?”

“E dai que eu tive uma vontade enorme de fazer cocô.”

Uma expressão de horror estampou nos olhos da garota.

“Credo!”

O rapaz balançou a cabeça afirmativo:

“Te digo.”

“E o que você fez?”

“Eu falei, espere um pouco amor. Nesta hora não interessa com quem a gente esteja, a gente chama de amor.”

A garota resmungou maliciosa:

“Eu sei disso. Sei muito bem.”

Em seguida ela indagou interessada:

“E o que seu amor fez?”

“Ela ficou me olhando assustada. Afinal eu estava dentro dela bem no auge.”

A moça levou a mão esquerda com luva ao rosto e balbuciou:

“Meu Deus!”

O rapaz continuou:

“Eu fui no banheiro e me aliviei. Nunca fui tão feliz. Aí me limpei e voltei a transar com ela. Agora sim me sentindo muito feliz.”

“Credo! Ela soube que você teve uma caganeira na hora de transar?”

“Eu não disse caganeira.”

“Mas foi o que aconteceu.”

“Eu disse que fui lavar o rosto porque fiquei nervoso. Acho que ela entendeu ou não desconfiou. Mas se desconfiou não disse nada. E a gente transou beleza. Foi uma coisa linda. Foi a minha primeira vez.”

A mulher voltou do fundo da farmácia com os produtos. Os dois na minha frente ficaram em silêncio enquanto ela passou por nós. O rapaz do caixa demorou mais alguns minutos para fechar a conta. A mulher da farmácia voltou para o fundo e a moça na minha frente disse preocupada:

“Ainda bem que nunca tive este tipo de felicidade. Acho que seria horrível.”

“A felicidade é algo que a gente não escolhe. É como um raio. Ninguém sabe onde vai cair.”

Ela indagou preocupada:

“Você já teve vontade de ir ao banheiro enquanto transava comigo?”

“Não. Com você nunca.”

Os olhos dela demonstraram gravidade enquanto perguntou:

“Então quer dizer que você nunca foi feliz comigo?”

O rapaz se espantou e respondeu meio inseguro:

“Não é bem assim. Eu era um adolescente que sonhava ir para a cama com uma garota. Passei anos e muitos meses pensando nisto. Então acumulou uma grande energia que acabou provocando aquela tensão. Depois a gente amadurece.”

A garota indagou desconfiada mais uma vez:

“Amadurece e não é mais feliz?”

“Não. Amadurece e é feliz de outro jeito.”

“Mas se não tem descarga elétrica não é felicidade.”

Eu pensei:

“Agora ela pegou este boboca de jeito.”

Ele disse como fosse um especialista em descargas elétricas:

“Agora eu controlo a descarga elétrica. Mas ela acontece do mesmo jeito. Só não vou mais ao banheiro. E você deveria achar que isto é uma coisa boa.”

O rapaz do caixa chamou os dois e a conversa sobre felicidade acabou. A lentidão do rapaz do caixa prosseguiu e uma mulher a um  metro e meio atrás de mim na fila exclamou:

“Meu Deus!”

Virei para olhar. Era uma mulher gorda com uma garota. Ela me irritou porque estava sem máscara e sem luvas. Eram pessoas assim que saíam por aí compartilhando o vírus com todo mundo que encontrava pela frente. A filha que também estava sem máscara perguntou:

“Que foi, mãe?”

A mulher respondeu altiva e triunfal:

“Você deveria agradecer a Deus todos os dias pela mãe que tem.”

A garota se espantou e indagou:

“Por quê? O que aconteceu?”

A mulher mostrou o celular para a filha e disse:

“Estou vendo a notícia de uma mãe que queria dormir e deu dois compridos para o filho de onze anos dormir.”

“Ele não dormiu?”

“Não.”

“O que ela fez?”

“A mãe foi lá no varal e pegou um pedaço de corda de plástico e amarrou no pescoço do garoto, apertou e matou ele.”

“Credo, mãe!”

“A vida é um circo dos horrores, minha filha! Aprenda isso.”

E bradou mais uma vez em tom triunfante:

“Agradeça a Deus a mãe que você tem.”

A garota abraçou comovida a mãe.

O garoto do caixa ergueu a cabeça em minha direção e disse:

“O próximo.”

O próximo era eu. Entreguei os produtos. Dez ampolas de Epocler, uma caixa de Targus e um tubo de Diclofenaco dietilamônio para as dores lombares. O rapaz usava máscara branca e tinha os dedos longos como os dedos de um pianista polonês. Ele se embaraçou também com a minha compra, mas demorou menos do que com os dois clientes anteriores. Sai da farmácia. Havia poucas pessoas na rua principal. Fui andando lentamente por uma rua transversal sob uma chuva fina até em casa. Estava de chapéu marrom e um casaco que me protegia da chuva fina. Enquanto fazia o percurso de mil metros naquela rua deserta pensei na felicidade e num amigo que tive na adolescência, o Rômulo. Ele e a felicidade não se entendiam por causa de um trauma que teve ainda na infância:

Um dia nos longínquos anos sessenta ele me confessou na escola durante o intervalo como algo muito grave:

“Não sei se sou o Rômulo ou se sou o Remo.”

Eu pensei que fosse alguma anedota. Mas não era. O pai escolheu aqueles nomes para os gêmeos que nasceram um ano depois do casamento. Era uma homenagem ao dois garotos criados por uma loba e que teriam fundado Roma. O pai e a mãe eram italianos. Rômulo e Remo eram muito parecidos um com o outro ao ponto de a mãe nunca saber quem era quem. E quando um deles morreu a mãe ficou confusa. Ela não sabia qual dos dois morreu. Como gostava mais do nome Rômulo, ela registrou que o morto foi o Remo. Mas poderia ter sido o contrário. O sobrevivente ser o Remo. Essa dúvida angustiou Rômulo que poderia ser o Remo para o resto da vida e, segundo ele, o impedia de ser feliz:

“Como a felicidade vai me encontrar se nem eu sei quem sou?”

Era uma boa pergunta.

 

Written by edilsonpereira