testa

Eu vi, juro que vi, placidamente, nas arquibancadas dos estádios, entre bárbaros e loucos torcedores, muitos pernas-de-pau correrem de um lado para outro, atrás da bola que os ignorava. Oh, meu Deus, que coisa triste! Vi, claro, muitos craques. Que tratavam a bola com uma intimidade, que parecia a namorada deles. Parecia que, depois do jogo, eles a levariam para a lanchonete. Mas os pernas-de-pau, que faziam lá? Mistérios da vida em que o mérito nem sempre vale alguma coisa.Eu acredito que o Maringá Esporte Clube, acho que o de 1974, foi o pior time profissional, para o qual torci, que vi jogar. Era um time que sucedeu o Grêmio, a cidade não aceitou e deu no que deu. Em nada. O time, no fim de seu ciclo de vida, era medonho. Tinha um sujeito chamado Gilnei, que ostentava, com orgulho, a camisa 10. Era pernalta. E perneta.

Foi o pior jogador de bola que vi num time profissional. Era capaz de coisas impossíveis. Por isso acabou tornando-se um ídolo às avessas. A torcida gostava de ir ao campo vê-lo jogar, para rir, já que alegria o time não dava. Na cara do goleiro, chutava a bola para trás, desmoralizando o adversário. E quando errava, até fazia gol. Era um delírio. A torcida o apelidou de Garibaldo, porque corria desengonçado, sem saber para onde ir, como o pássaro da série televisiva Vila Sésamo.

Por que me lembro de uma coisa medonha dessas? Por causa de um sujeito chamado Testa. O cara era exatamente o contrário: um craque. Da cabeça aos pés: toque de bola, postura em campo, domínio de bola, cabeça erguida e olhava os colegas. A bola ia que nem Sedex. Sem erro. Encomenda garantida. Podia jogar em qualquer time profissional. Dos bons, claro. Mas não jogou.

Era começo dos anos 80. Ele pensou, pesou e preferiu trabalhar. Não digo que jogador não seja trabalhador, mas era coisa insegura, dependente de malícia fora de campo. Não tinha essas mutretas de hoje em dia que se vende um cabeça de bagre para o estrangeiro, pega os dólares e quando o cliente vai ver, comprou gato por lebre. Ainda assim, jogador de futebol, depois de alguns anos, está encostado. Jovem, forte e encostado. Quem é que não pensa duas vezes?

Aqueles, eram outros tempos. O sujeito que jogava bola era poeta. Já nascia com o verso feito. Não era como hoje, que o cara aprende inglês, italiano, espanhol e alemão e depois vai para uma escolinha de futebol, aprender o ofício. Tinha nego que chegava para o Testa e falava: “Vamos jogar em Primeiro de Maio, precisamos de um craque”. E lá ia o Testa. Era fim de semana. Ficava por conta da diversão. A bem da verdade, vi outros tipos com o mesmo feitio. Mas o Testa, talvez, tenha sido o melhor deles.

Este já seria um bom motivo para me recordar dele. Mas havia outro. A gente trabalhava em dia de Natal e o Testa apareceu com uma camisa nova. Estava na cara, era presente. Alguém perguntou: “Presente de Natal, Testa?”. Ele respondeu: “Não, de aniversário”. Ele não era de sarro e nem cínico. Por que falou aquilo? Ele explicou: nasceu no dia 25 de dezembro, que nem Jesus Cristo. Por isso seu nome era Gilberto Natal Testa. E, assim, sempre estava no prejuízo. Ou ganhava presente de Natal, ou de aniversário. Nunca os dois. Mas também, nem precisava! Aquela bola que ele jogava só podia ser presente do cara lá de cima, aquele que nasceu no mesmo dia em que o Testa nasceu. Só podia ser isso. Por isso, nem ligava.

 

Esta crônica foi publicada no dia 22 de dezembro de 2004, na página 4 de O Estado do Paraná.

 

 

Written by edilsonpereira