Foot on soccer ball

            A notícia de que Margarida ganhou gêmeos no final de abril e morreu no hospital assustou Sofia Loren. Foi um rolo que ela não entendeu mas não queria repetir com ela, que ficou grávida na mesma época. O que sabia era que Margarida numa das idas e vindas para o hospital pegou o Corona. Os médicos perceberam, trataram de fazer o parto antes e deu certo em parte. As crianças sobreviveram mas a mãe morreu. Sofia Loren não queria mais ir para o hospital para ganhar o bebê e não voltar para casa. Queria parto normal. Em casa. Onde o Corona não entrava. Maquiavello de Almeida achou absurdo. Mas entendeu o drama da mulher. O problema era que nenhuma mulher no país ganhava nenê em casa. A não ser num lugar inóspito. Era tudo no hospital e na base da cesariana. Comose fábrica de bebê. A mãe chegava barriguda, o médico abria, tirava o nenê, embalava num pacote, devolvia para os pais e tudo estava resolvido. Os três voltavam felizes para casa.

            Sofia Loren disse:

            “Com o vírus circulando por aí eu não vou para o hospital nem fodendo. Morro em casa no parto mas não vou ficar entubada até ir pra uma vala comum num cemitério clandestino.”

            Esse negócio de cemitério clandestino foi exagero dela.

Maquiavello entendeu.

Ela disse:

“Prefiro morrer barriguda em casa do que de vírus que nem a Margarida.”

Maquiavello pensou:

“Aí fodeu. Eu não sou nem louco de fazer o parto.”

A ideia era absurda. Mas não para ele. Maquiavello nunca fez parto de mulher. E nem de cachorra. Mas há cinco anos foi para Matinhos com a namorada Odirlene, que conheceu antes de casar com Sofia Loren, para a casa de uns parentes dela no litoral. Era para ser coisa bacana de fim de semana. Os parentes eram um casal de tios. O diacho foi que chegando lá caiu um temporal. O que Maquiavello deduziu que prejudicou o fim de semana. E como não bastasse o temporal, a cachorra da família dos tios de Odirlene, uma vira-lata chamada Helen Maria, aleijada de uma pata, estava grávida e resolveu ter as crias naquele fim de semana e sob a noite de temporal. E para piorar, os parentes da Odirlene ficaram apavorados e não entendiam nada de partos de cachorra.

Odirlene intimou:

“Maquiavello, faça alguma coisa!”

Ele não sabia o que fazer. Não era veterinário e nunca teve animais de intimação. Mas como ninguém entendia ele achou que teria que dar um jeito. E acabou aprendendo alguma coisa. Com os cães aprendeu principalmente era deixar a coisa acontecer e afastar os filhotes porque a mãe fragilizada podia matar algum deles num movimento involuntário. Helen Maria teve um filhote atrás de outro com intervalo médio de uma hora. Maquiavello tirava solene cada filhote e colocava de lado, numa coberta em que a mãe se aproximava e lambia a cria e depois voltava para o seu lugar sabendo que a coisa não tinha acabado. Uma hora depois vinha outro filhote e ele repetia a operação até de madrugada quando Helen Maria parou de ter filhotes. Ele ficou mais cansado que obstetra da Previdência. Contabilizou oito filhotes. Um deles nasceu estropiado e para seu espanto a própria Helen Maria tratou de liquidar o infeliz. Ele se lembrou deste episódio e murmurou:

“Mas você não é uma cachorra!”

Sofia Loren ouviu e ficou assustada:

“E quem disse que eu sou uma cachorra?”

Mais aquilo. Ele respondeu sem se importar com o protesto da mulher:

“Foi um pensamento. Não esquente. Estou pensando.”

Sofia Loren achou melhor ficar quieta.

Mas ela resmungou:

“As pessoas tão falando em lockdown, Maquiavello!”

Ele olhou espantado para a mulher.

“Lockdown? O que é lockdown?”

Ela disse com as mãos sobre o ventre enorme:

“Não sei. Mas estão falando muito nisso.”

Maquiavello pensou:

“Lockdown! Que nome bonito!”

Foi então que se lembrou que ainda não tinha escolhido o nome da criança. Não podia escolher porque não sabia o sexo. Com aquele negócio de vírus e todo mundo falando para ficar em casa, Sofia Loren não fez exames para saber o sexo da criança. Ele não tinha dinheiro para pagar exame particular e o do SUS era na base do faz quando for possível. E até o começo de março não foi possível. Um sorriso de esperança brotou no rosto cansado de Maquiavello:

“Lockdown!”

Por que não? Se fosse garoto seria um belo nome. O filho poderia realizar o grande sonho do pai de ser jogador de futebol. Jogar num grande time do Brasil. Ir para a Europa. Espanha ou Inglaterra. E com aquele nome teria tudo para impressionar. Lockdown. Só de imaginar, seu corpo estremecia de felicidade. Se esse sonho se realizasse, todos os dias de entregador de pizza teriam valido a pena. Cada noite chuvosa ou fria foi válida. Ele fechou os olhos e imaginou a voz excitada do locutor de rádio que era mais emocionante que a voz do locutor da televisão:

“A bola chegou aos pés de Lockdown. Este é o craque do time. O garoto dominou com categoria, passou pelo primeiro, pelo segundo e rolou para o companheiro. Lockdown corre para o meio da área e recebe a meia altura. Mata no peito, rola na coxa, deixa cair e chuta de primeira no ângulo do adversário. Goooool do Arsenal. Que categoria de Lockdown. Gooooolllllll de Lockdown!!! O craque brasileiro do Arsenal.”

Ele abriu os olhos, só de pensar uma coisa daquela era feliz.

Ele olhou Sofia Loren e disse:

“Lockdown é um nome bonito! Gostei.”

Ela preocupada com o parto. Maquiavello pensou que estava certa. Para Lockdown matar no peito e fazer o gol para o Arsenal em algum campo da Inglaterra era preciso nascer e crescer. E hospital era uma zona perigosa naqueles dias. Não era preciso ir longe. Bastava anotar o que aconteceu com a Margarida. Como ele ia resolver o problema? Não queria perder Sofia Loren e muito menos a criança.

Sofia Loren perguntou:

“Em que você está pensando?”

Ele não respondeu. Mas uma ideia caiu na cabeça como um cometa meteórico das galáxias, fazendo maior estrago.

Ele disse:

“Puta que pariu!”

Maquiavello lembrou da vizinha. Dona Angelina Lunardelli. Ele e a velha não se entendiam. Aliás, não sabia de onde ela tirou aquele Lunardelli, se era afrodescendente e o sobrenome carcamano. Os dois não se entendiam em nada. Maquiavello fumava maconha e a velha sabia. Quase o denunciou para a polícia. Ela tinha três filhos. A filha engravidou de três sujeitos diferentes e a velha tinha que criar os netos cujos pais desconhecia. E ainda teve que arrumar dinheiro para castrar a filha antes que aquele furor uterino enchesse a casa de mais filhos de outros homens que ninguém conhecia. Um dos filhos da velha era traficante, mas ela não sabia, claro. O mais novo ninguém sabia o que fazia. A velha tinha um cachorro que latia justamente quando não devia. De madrugada, acordando Maquiavello. Ela tinha um gato que fazia cocô na varanda da casa de Maquiavello. Um dia o gato sumiu e a velha cismou que foi obra de Maquiavello e o denunciou à polícia por envenenamento. A velha contou o crime em detalhes tão impressionantes e criativos que Maquiavello quase acreditou na versão dela. Ele só não foi preso porque o gato reapareceu faceiro e cagando em sua varanda como nos velhos tempos e a velha e a polícia fizeram cara de que nada tinha acontecido. Ele tinha tudo para odiar e esquecer a velha. Mas agora se lembrava dela com esperança porque foi benzedeira e parteira antes de ser evangélica e condenar o passado de macumbeira. Na realidade, ele não achava que ela foi macumbeira. Apenas benzedeira e parteira. Mas o pastor que era um pilantra tratou de encontrar um rótulo pecaminoso mais forte e de grife e ela aceitou ter sido macumbeira. Agora era apenas uma evangélica. Neopentencostal furiosa. Ele flagrou ela no começo de março no celular no portão de casa dizendo para a amiga e para quem quisesse ouvir:

“Mentira. Pode ir no templo sem problema. O pastor disse que o vírus não é merda nenhuma. É um bosta. É coisa do capeta. Só pega em que não acredita no Senhor. Nós acreditamos e estamos livres dele. Ele disse que quem tem fé não pega o vírus. Eu não vou pegar este vírus. Não vou usar máscara. E não vou deixar de sair de casa.”

Só que a velha não saia de casa. Quem ia cozinhar e cuidar daqueles filhos vagabundos dela? Mas ela tinha uma qualidade, pensou Maquiavello. Foi benzedeira e parteira.

Ele balançou a cabeça e disse:

“A coisa tem que ser por aí.”

Em seguida perguntou para Sofia Loren:

“Teu pai ainda tem aquele trinta e oito?”

Sofia Loren arregalou os olhos assustada:

“Está ficando louco?  O que pensa em fazer?”

Maquiavello não tinha tempo para explicações. E nem ia adiantar.

Ele disse:

“Mulher, para de fazer perguntas e se apresente com respostas.”

Ela não respondeu e ele insistiu:

“Tem ou não tem?

Ela respondeu chorando que ainda tinha.

“Eu preciso desta merda.”

A mulher pensou:

“Agora fudeu tudo!”

Ela começou a chorar. Mas depois daquela conversa, no primeiro vacilo do velho ela foi lá na casa dele e trouxe, chorando, o trinta e oito. Os dias passaram. Numa noite chuvosa no começo de junho, Sofia Loren se remexeu na cama e disse chorando e desesperada:

“Eu acho que chegou a hora, Maquiavello!”

Ele estava dormindo e acordou pensando que hora deste piá nascer! Eram onze da noite, chovia cântaros lá fora e o vírus dominava os hospitais. Além disso fazia um frio do caralho.

Sofia Loren disse:

“Eu não quero morrer, Maquiavello!”

Ele não respondeu. Ele sabia qual a sua responsabilidade em tudo aquilo. Se levantou, botou roupa, foi até a sala e pegou o trinta e oito de dentro de um vaso. Ele guardou a arma na cintura e saiu no meio da noite embaixo de chuva. Na cama no quarto, com as mãos no ventre, Sofia Loren ouviu alguns minutos depois o maior berreiro na vizinha. Mas isto não a preocupou. Ela se preocupava que estava sozinha e o marido saiu. E a criança ia nascer. E ela não sabia o que fazer. Vinte minutos depois de sair Maquiavello voltou com a vizinha. Dona Angelina Lunardelli. Ela entrou no quarto assustada com as mãos para o alto como uma meliante. Sofia Loren também se assustou. Não sabia o que ia acontecer. Aquilo era coisa de doido.

Maquiavello disse para a velha e ele falava sério:

“Se a criança morrer, a senhora morre junto!”

A mulher não gostava de Maquiavello e nem de Sofia Loren. Mas gostava de sua vida. Além disso tinha três netos para criar e filhos que só davam trabalho. Achou que não era hora de complicar as coisas.

Ela disse:

“Me traz uma garrafa de pinga.”

Maquiavello respondeu:

“Só tenho uma de uísque que ganhei no natal de um granfino do Batel!”

A velha balançou os ombros e disse:

“Que seja!”

A velha bebeu meia garrafa de uísque no gargalo.

Depois disse:

“Saia do quarto e me deixe sozinha!”

Maquiavello saiu. Ficou na sala fumando baseado. Era preciso acalmar a mente. Ela estava tensa. Um baseado não resolveu a parada e ele tomou três doses de uísque. Começou a suar. Meia hora depois ouviu choro de criança. A velha saiu do quarto empapada de suor.

Ela disse:

“A criança nasceu!”

Maquiavello perguntou:

“Menina ou menino?”

A velha respondeu inexpressiva depois de pegar a garrafa de uísque sobre a mesinha diante do sofá e matar o resto no gargalo:

“Menino!”

Maquiavello disse feliz, mais para si do que para a velha:

“O nome dele é Lockdown!”

A velha estava cansada. Não queria saber nome de ninguém. Queria ir embora, mas o vizinho ainda estava com o trinta e oito nas mãos. Ele percebeu e disse tentando apaziguar as coisas na base da diplomacia:

“A senhora me desculpe os maus modos. Mas com este vírus por aí eu não poderia vacilar. E a única pessoa em quem pensei foi na senhora.”

A velha não respondeu e saiu furibunda. Maquiavello desconfiou que no fundo ela entendeu o drama dele. E de todo mundo. Ela saiu no meio da chuva para a casa dela, ele olhou e depois que ela fechou o portão ele entrou no quarto. Sofia Loren tinha expressão cansada e feliz. A criança tinha cara de recém-nascido que é igual em todo lugar. Mas Lockdown chegou no meio daqueles dias e noites difíceis e ele era o filho deles.

Written by edilsonpereira