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O pedreiro Genésio Nascimento veio de Sabaudia, aportou em Curitiba e adorou a cidade. A pequena cidade do Norte do Paraná certamente tem restaurantes que vendem comida por quilo, mas a exuberância e diversidade de pratos em algumas casas do gênero na capital fascinaram o pedreiro. Ainda mais que muitos fixam um limite máximo de cobrança – a partir daí está liberado. O cálculo de Genésio foi o seguinte: se ele comesse no almoço o equivalente a duas refeições, estaria bem alimentado o dia todo e economizava. Por R$ 15,00, Genésio almoçava e jantava numa tacada só. E com qualidade.

Ele virou o terror dos donos de restaurante. Na hora do almoço, faminto e com uma cratera no estômago, porque começava a trabalhar por volta das 6 horas, ele apavorava. Por volta das 13 horas, o estômago roncava mais que motor de Fórmula 1 na reta dos boxes. Foi assim que ele fez um pit stop num restaurante bacana na Anita Garibaldi. Genésio entrou, leu o aviso de que a quantidade estava liberada depois de passar dos R$ 15,00. Ele respirou feliz e foi fundo na formação de seu prato que assumiu o formato de um acidente geográfico – montanha. Numa mesa, um engraçadinho olhou e comentou com a mulher:

“Você já viu o Monte Sinai?”

Ela respondeu:

“Claro que não!”

“Então olhe para trás.”

A mulher olhou e se segurou para não rir. Quando Genésio foi pesar o Monte Sinai, se fosse pagar o preço real daquilo, seria algo em torno de R$ 35,00. O caixa Felix Brito fez cara feia, mas não podia contrariar o cartaz grudado bem atrás dele: passou de R$ 15,00, é livre. Ele resmungou e disse:

“Se você comer tudo isto, tudo bem. Mas a casa tem multa para o desperdício.”

Genésio ficou quieto. Félix insistiu:

“Desperdício de comida é pecado e crime.”

Genésio disse apenas:

“Sim, senhor.”

E não disse mais nada. Félix deixou o irmão tomando conta do caixa e ficou limpando as mesas ao redor da mesa em que Genésio sentou. Ele apostou com o irmão Jairzinho que aquele pedreiro não deglutia metade daquele prato que já era conhecido por Monte Sinai.

“Acho que o Monte Sinai é dez metros menor que aquilo. Pode perguntar para o Moisés!”, disse num canto o sujeito que terminou de almoçar com a mulher, mas continuou sentado observando Genésio, para ver se realmente ele ia abduzir tudo aquilo. Ninguém sabe onde Genésio arrumou espaço: mas o Monte Sinai se desmanchou diante dos olhos de Félix, que esqueceu o prejuízo e passou a pensar na possibilidade não muito agradável de o sujeito passar mal e cair duro em seu restaurante. Até explicar que não foi a qualidade da comida, o estrago já estava feito. Principalmente porque Genésio ficou parado, começou a ofegar e a suar como fosse mina d’água.

Não aconteceu nada. Genésio limpou o prato. Levantou-se, passou no caixa, pagou a conta e ainda pegou cinco balas de um baleiro para os clientes fazerem boquinha doce depois do almoço. Quando Genésio virou as costas, Jairzinho perguntou:

“Ele comeu tudo?”

Gerson respondeu ainda perplexo:

“Tudo. Não deixou um grão no prato. Este sujeito engoliu o Monte Sinai.”

Para evitar que tal prejuízo se repetisse, Gerson acrescentou no cartaz atrás do caixa. Livre, mas o prato não pode exceder a um palmo de altura. Era apenas uma precaução. Os fregueses tradicionais de Félix não entenderam o cartaz, mas também não estavam preocupados.

Publicado originalmente na Tribuna do Paraná no dia de novembro de 2013.

Written by edilsonpereira