lidagoebbels

O ministro Joseph Goebbels era baixo, manco e feio. Como diz uma personagem no filme Lida Baarova: “O anão manco”. Além disso era casado e tinha seis filhos. Em condições normais seria tipo para o qual mulher bonita e jovem jamais pousaria os olhos. Ludmila Baarova era jovem, linda e nasceu em Praga no dia 7 de setembro de 1914. Ela queria ser atriz de sucesso. A mãe desejava para a filha, para compensar frustração de não ter sido atriz e famosa. Ludmila passou a ser conhecida como Lida e fez em Praga o primeiro filme aos 17 anos. Aos 20 era atriz de sucesso na Tchecoslovaquia.

Como Berlim era o centro gravitacional do cinema europeu nos anos 30, foi descoberta por diretores alemães. A UFA era o estúdio estatal da Alemanha. Mas Berlim não era apenas o centro gravitacional do cinema. Era também um barril de pólvora sobre o qual se assentava o crescente progresso econômico e militar alemão conduzido pelos nazistas. Que tinham em Joseph Goebbels um dos ministros influentes. Foi ele quem pela primeira vez na política cismou de dar importância estratégica aos novos meios de comunicação como o rádio, o cinema e à indústria fonográfica.

O cinema, deduziu corretamente Goebbles, magnetizava multidões. E quem o controlasse poderia controlar as massas. Com a ascensão nazista em 1933, ele passou a ser o número 1 do cinema alemão que controlava com mão de ferro. Se Hollywood vislumbrava o lucro em primeiro lugar, a UFA queria disseminar os ideais nazistas. Mas Goebbels também gostava de mulheres bonitas, principalmente atrizes. Não só ele. Hermann Göring casou-se em 10 de abril de 1935 com Emmy Sonnemann uma atriz de Hamburgo e Adolf Hitler gostava de receber visitas de atrizes famosas como Renate Muller.

Goebbels tinha fama de garanhão, apesar de manco e feio e ao conhecer Baarova em 1936 se apaixonou à primeira vista. O namorado de Baarova, Gustav Fröhlich (interpretado no filme por Gedeon Burkhard), comprou mansão numa ilha na periferia de Berlim, em Schwanenwerder, para os dois morar. A vida parecia sorrir para o casal. O primeiro filme de Barrova em Berlim, Barcarole, foi grande sucesso de público e crítica. Mas o vizinho dos dois na nova mansão era Goebbels, casado com Magda, modelo de mulher nazista.

Lida poderia ser mais uma atriz na longa fila de atrizes constrangidas, em troca de papéis importantes, a se relacionar com o ministro. Todos na UFA sabiam de que Goebbels papava as estrelas. A aventura se transformou em algo sério e de conhecimento público. Magda aceitou a situação por algum tempo mas em 1938, perto da guerra, Goebbels quis trocar a mulher pela atriz. Magda era amiga de Adolf Hitler e foi se queixar ao Führer. Que ficou uma fera. Ele chamou Goebbels para conversar e mandou acabar a brincadeira com Lida. Ordem do Führer era para ser cumprida. Acabou-se o idílio entre Goebbels e Lida Baarova.

As coisas poderiam ficar assim. Mas começou a longa trajetória de decadência, destruição e perseguição a Lida Baarova, a mulher que sonhou ser a nova Marlene Dietrich. O filme mais recente dela foi retirado de cartaz por ordem de Hitler. Era perseguida e vigiada pela Gestapo. Fugiu para Praga, mas em sua cidade natal era considerada traidora. Fugiu para a Itália fascista e de 1942 a 1944, fez cinco filmes. O fascismo caiu na Itália e ela fugiu novamente. Depois da guerra foi presa pelos aliados e extraditada para a Tchecoslovaquia onde foi acusada de colaborar com o nazismo. O país fora invadido pelos nazistas. Os tchecos não tinham boa recordação deste episódio.

A família de Lida Baarova foi presa, a mãe morreu num interrogatório e a irmã se suicidou. Depois de dezoito meses presa, Lida Baarova teve colapso nervoso e foi internada num sanatório. Algum tempo depois foi liberada e fugiu para a Argentina para voltar em seguida para a Itália onde apareceu num pequeno pápel no filme “Os boas-vidas” (1953) de Federico Fellini. Depois disso sua vida se diluiu no ostracismo. E pensar que teve convite e chance de ir para Hollywood. Se fosse ser o que foi na Alemanha em seu curto apogeu é outra história. Mas não teria comido o pão que o diabo amassou. Foi ingênua ou ambiciosa? O certo é que quem caiu fora do nazismo e dos tentáculos de Goebbels se deu bem. Incluindo Fritz Lang e Marlene Dietrich. Lida morreu aos 86 anos pobre e esquecida em 2000 em Salzburgo após sofrer Mal de Parkinson.

Esta é a história de Lida Baarova. Boa parte está no filme de 2016 disponível na Netflix. Filme de Filip Rencé. Não é possível dizer que se trata de grande filme. Não é ruim e mal feito. Tem a intensidade dramática e ritmo de minissérie da Globo. Não é um defeito. É apenas uma questão de estilo. O filme foi originalmente produzido para a televisão alemã. Achei correto e com boa reconstrução de época. Ainda mais se levar em conta que é de baixo orçamento para o cinema mas custou muito mais que outras produções televisivas. Provavelmente por isso não tem profundidade psicológica e tensão dos grandes filmes do cinema.

O elenco não compromete. O ator que interpreta Goebbels (Karl Markovics) está bem. Consegue ser mais feio que o ministro. A eslovaca Tatiana Pauhofová não é tão linda quanto Lida foi na juventude, embora pareça mais jovem que a atriz em seus vinte e poucos anos. Tatiana tinha trinta e três à época do filme. Onze anos mais que a personagem. São detalhes. Mas as minisséries televisivas não se preocupam muito com detalhes e nuances, porque o forte da televisão é o folhetim. É uma narrativa para multidões e não pode se dar ao luxo ser “profunda”.

Claro que poderia ser melhor, mas é um filme honesto que pode causar estranheza por não demonizar os personagens nazistas como a maioria dos filmes americanos, embora haja muitas cenas de perseguições aos judeus, incluindo a famosa e horrível Noite dos Cristais. Tenho fascínio pelas estrelas da Alemanha dos anos 30. Escrevi sobre Renate Muller, gosto de Lale Andersen, cantora de Lili Marlene, gosto da sueca Zarah Leander e muitas outras, como a chilena Rosita Serrano. Leander foi estrela mais brilhante da época de Hitler. Ninguém teve tanta fama, tanto sucesso, ninguém ganhava cachês tão altos quanto a diva com grave e sensual voz de contralto. Acho ela mais bonita que Greta Garbo.

Leander não era nazista mas sabia que era uma grande estrela alemã. Quando lhe quiseram impor a cidadania alemã em 1943, simplesmente rompeu com a UFA e voltou para a Suécia. Depois da guerra foi proibida de se apresentar na Alemanha e Áustria. Como outras divas alemãs, nunca mais voltou a brilhar. Renate Muller teve careira mais curta. No dia 7 de outubro de 1936 simplesmente foi jogada do terceiro andar de um hotel e claro morreu. Estava com 31 anos. Teria sido mais um servicinho da Gestapo. A vida destas mulheres não era fácil. Por isso um filme sobre Lida Baarova não deixa, por si só, de ter ter seu fascínio.

Lida aparece aos 80 anos, interpretada pela atriz Zdenka Procházkova, fumando e contando a história de sua vida. Mas a maior virtude do filme é tirar das prateleiras empoeiradas da memória um pedaço obscuro do longo século 20, uma trágica e até certo ponto patética história de amor. Mais. É um relato do poder como afrodisíaco irresistível. De como é perigoso deixar-se seduzir por quem o ostenta. A distância entre poder e glória da queda e do ostracismo pode ser mais curta que se imagina. E quase sempre trágica. A velha atriz encerra o filme sozinha sentada numa poltrona na penumbra, a penumbra em que foi jogada no final dos anos 30, ainda muito jovem, quando acreditava estar no paraíso e estava apenas à beira do inferno.

Written by edilsonpereira