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            Por volta das 17 horas do dia 23 de junho, uma terça-feira, eu fui para as Caieiras com a minha cachorra, uma velha cocker spaniel preta com algumas manchas brancas. As Caieiras ficam na entrada da baía de Guaratuba de um lado e protegida por um grande morro de outro. É um lugar cheio de velhos barcos que ainda entram no mar com pescadores. Era também um lugar com belas praias até há alguns meses. Mas o mar numa destas investidas inesperadas com ondas violentas devorou boa parte das praias e deixou grandes pedras amarelas no lugar. Por isso, muita gente que construiu belas casas nas proximidades da praia estavam vendendo por preços módicos antes que o mar as levassem. Eu fui até o lado extremo sul onde ainda havia um pedaço de praia. Não esperava encontrar ninguém. Naquela hora do dia, ao cair da tarde, um sol dourado refletia seus raios sobre o mar, a areia, as pedras e as árvores. Quando desci do automóvel com a cachorra, me pareceu um tanto estúpido andar com máscara. Não havia quase ninguém. Então tirei a que usava. Uma lufada de ar fresco encheu meus pulmões do mais legítimo ar puro do Oceano Atlântico.

            Olhei a cachorra e disse peremptório:

“Vamos lá, querida!”

            Caminhamos despreocupados centenas de metros. Adiante duas crianças brincavam com seus pais e por prudência fiz meia volta e retomei o caminho para onde parti. Não havia marcas de alguém ter passado por ali. Este vestígio de solidão era tranquilizador. Era como estar em um planeta novo sem a presença do vírus e com as qualidades do meu maravilhoso planeta natal, o seu sol, o seu mar, as suas ondas e suas florestas. Bem perto do lugar onde deixei o automóvel, um velho e raro exemplar restaurado de Fiat 600 pertencente a meu generoso amigo argentino Macedônio Hernandez, dono de uma churrascaria na cidade, a famosa Adiós Pampa Mia, havia um homem sentado sobre uma grande pedra angular com a cabeça enterrada sobre as mãos. Quando aproximei, ele ergueu a cabeça e me contemplou. Também estava sem máscara. Imediatamente, assustado, peguei minha máscara e coloquei no rosto. Ele, talvez em resposta ao meu gesto, fez o mesmo. Mas, claro, não impediu de eu ver o seu rosto.

            Eu balbuciei:

“Alan Kersten?”

Ele respondeu com um aceno afirmativo de cabeça.

Em seguida disse:

“Não se preocupe. Não estou contaminado.”

Eu respondi:

“A gente nunca sabe.”

Ele disse:

“Realmente. A gente nunca sabe.”

Eu perguntei:

“O que você está fazendo aqui?”

Ele respondeu:

“Eu queria falar com você.”

“E como sabia que eu estava por aqui?”

“Macedônio contou.”

Sim. Ele também conhecia Macedônio Hernandez. Não tinha como escapar.

Eu comentei contrariado:

“Eu vim passear com a cachorra. Ela precisa sair. Foi acostumada e agora está velha. Não há mais tempo para mudar os hábitos.”

Ele disse:

“Eu entendo.”

Acrescentei:

“Além disso, é bom espairecer. Este negócio de fazer nada em casa está ficando insuportável. Seria menos se outras pessoas fizessem o mesmo neste país irresponsável. E assim a quarentena terminasse logo. Mas não é o que acontece. Há um componente trágico e suicida muito acentuado em nossa gente.”

Alan me olhou com expressão grave e concordou:

“Eu também percebi esta trágica tendência. Um horror!”

Era o que eu tinha para falar. Mas como ele queria falar comigo, certamente tinha outras coisas para expressar. Eu não poderia fugir daquilo porque Alan Kersten, na realidade Alan Fábio Maurício Marcelo Kersten, foi um grande amigo nos tempos em que trabalhei no jornal O Estado do Paraná. Grande fotógrafo. Ele foi solidário comigo em pelo menos três episódios. Eu sabia que ele tinha uma casa em Guaratuba no Nereidas. Ele era mais um catarinense no meio de milhares de catarinenses que cruzaram uma fronteira que ignoravam e foram para Curitiba. Era de Joinville. Centenas e talvez milhares de nativos de Joinville foram para Curitiba. Centenas deles estavam em Guaratuba. Nada disso era novidade. Assim como não era novidade que seu nome era uma homenagem da mãe, uma bela descendente de italianos, ao ator francês Alain Delon. O filho não nasceu tão bonito quanto ao homenageado mas também não chegava a ser um estrupício. A mãe de origem italiana tinha nome germânico. Erica. O pai, o Sr. Félix Kersten, era descendente de alemães. De família que tinha muito dinheiro e morava em Joinville. Era dono de uma pequena indústria que produzia componentes elétrico e bronzinas para veículos. O que sabia mais da família era que o Sr. Kersten teve um grande trauma na vida. A mulher um belo dia, no começo dos anos oitenta, sumiu de casa. As pessoas da cidade diziam que foi embora com um amante. Depois descobriram que o Sr. Kersten também tinha amante com quem se casou. Talvez por isso a Sra. Erika arrumou um amante. Mas o sumiço da Sra. Kersten abalou a família. Como Alan saiu do jornal antes de eu me aposentar e eu me aposentei e ignorei o mundo, não soube mais nada dele, da família e de outras coisas.

Por isso fiz a pergunta que me pareceu mais óbvia e fácil:

“Tudo bem com você?”

Ele ergueu a cabeça e fez um movimento com o pescoço para relaxar os músculos num gesto análogo ao de boxeadores antes de uma luta.

Ele respondeu:

“Não estou bem.”

Instintivamente dei um passo atrás. Ele disse que não estava contaminado. Mas eu não tinha bola de cristal para saber o que era que ele tinha para não estar bem. Naqueles dias qualquer coisa era uma ameaça. E qualquer coisa que não era boa estava relacionada ao vírus. Era a pior coisa daqueles dias. Principalmente algo que a gente não sabia. Eu não sabia qual era o problema que afligia meu amigo. Ou ex-amigo. Se sabia definir que fomos amigos não sabia definir se agora éramos. Neste momento a gente pensa que se o sujeito tivesse ganhado na loteria não teria procurado um velho amigo de redação, mas quando está no desespero se lembra da gente. É um pensamento mesquinho. Mas ele cai na cabeça da gente. Eu também considerei que não deveria ser mesquinho embora ser generoso é uma coisa e se aproximar de alguém contaminado era outra.

Eu perguntei:

“O que aconteceu?”

Ele baixou a cabeça e disse:

“Minha vida virou do avesso!”

Eu perguntei meio desconfiado:

“Por causa do vírus?”

Ele ergueu a cabeça, me olhou por trás da máscara preta de Durango Kid sobre o nariz e disse:

“De certa forma, sim.”

Inconscientemente dei um passo atrás.

Ele disse:

“Se continuar se afastando assim vai acabar entrando no mar e morrendo afogado.”

O mar estava longe. Mas entendi a ironia.

Fui covarde e disse:

“A cachorra que está me arrastando.”

Ele fingiu acreditar na minha perfídia e disse:

“Por causa da merda deste vírus eu fui para a casa de meu pai em Joinville.”

Eu disse:

“Fez bem.”

Alain Kersten ignorou meu comentário e continuou:

“Afinal, o velho está com oitenta anos.”

Eu balancei a cabeça de forma afirmativa e disse:

“Grupo de risco. Fez muito bem.”

Mais uma vez ele ignorou meu comentário.

Ele disse:

“A segunda mulher dele morreu no final do ano passado. Estava sozinho. Ela foi amante dele antes do segundo casamento. Você sabia?”

“Você me disse qualquer coisa a respeito disso alguns anos atrás.”

“Pois bem. O velho estava sozinho e meus irmãos pediram para eu ficar com ele. Não podia ficar sozinho nesta quarentena. Até a empregada parou de ir limpar a casa. Então eu fui.”

“Fez muito bem.”

“Isto foi no final de março. Quarentena é uma merda. Eu fiquei ali naquela casa enorme. No começo a gente começa a ver filmes, depois tenta outra coisa, bebe um pouco e o tempo não passa. Saia apenas para ir ao supermercado. Nada mais.”

Eu disse compreensivo porque entendia um pouco do assunto depois de algumas semanas de experiência:

“Quarentena é foda. Principalmente uma que começa e a gente não sabe quando e como vai terminar. Estava lá em cima e vim para o litoral por uma emergência. Tomei todos os cuidados. Trouxe até a cachorra., Ainda bem. Acho que estaria louco se ainda estivesse lá em cima. Me parece que o vírus está fazendo uma verdadeira blitz lá em cima.”

Ele ignorou mais uma vez o que eu disse e continuou;

“Naquele casa eu fiquei lembrando o tempo em que minha mãe desapareceu. Coisa triste. Uma das coisas mais tristes de minha adolescência. Ela simplesmente estava ali conosco e de uma hora para outra sumiu. Meu pai demonstrou surpresa. Ele não sabia o que dizer. A polícia não achou vestígio de minha mãe. A conclusão foi a de que ela conheceu alguém e foi embora. Afinal, meu pai tinha dinheiro e os filhos não iam passar necessidades. Esta foi a versão que acabou prevalecendo. Algum tempo depois meu pai alegou estar sozinho e se casou com a sua segunda mulher. Eu soube tempos depois que ele a conhecia. E que foi amante quando era casado com minha mãe. Mas ignoramos tudo isto em nome da harmonia familiar. Cada filho seguiu seu destino.”

Eu me senti um pouco mais seguro e me aproximei e sentei em outra pedra ao lado de Alan Kersten, até para corrigir a impressão ruim que meu temor inicial provocou. Claro que fiz isto porque percebi que o problema ali não era com o vírus. Havia algo estranho naquela história. E para me penitenciar de meus temores iniciais eu disse:

“Acho que vou tirar esta máscara. A brisa do mar me faz bem.”

Alan também tirou a dele e disse:

“Eu coloquei esta porra porque achei que você desconfiou que eu estava contaminado.”

“Me desculpe, amigo. Mas estou tomando todos os cuidados. A gente fica um pouco neurótico com este vírus por aí. O problema é que estou numa fase de que vale mais um neurótico vivo do que um cara bacana morto.”

Alan Kersten balançou a cabeça e riu. Depois levou a mão direita ao rosto e começou a chorar um choro convulso.

Claro que a primeira coisa que pensei foi:

“Caralho, acho que falei alguma merda!”

E, neste caso, o melhor era ficar quieto e esperar o que ia acontecer. Alan chorou um  choro doloroso como o de um marido traído. Depois limpou os olhos com o indicador e o polegar e disse:

“Cara, meu pai matou a minha mãe! Que bosta!”

Eu ando meio surdo. Mas ouvi direito. E não sabia o que dizer. Olhei a cachorra. Ela ignorava tudo aquilo. Estava cansada. Com a lingua vermelha escorrendo ofegante para fora da boca.

“Isto é muito pior que uma merda de vírus. O vírus mata a gente. Esta merda fica dentro da gente corroendo o peito como ácido sulfúrico, entende?”

Claro que eu não entendia. Nunca tive ácido sulfúrico corroendo o meu peito. Ainda bem. E acho que Alan Kersten também não teve. Usou apenas uma metáfora. Eu não respondi. Estava atônito.

Alan Kersten voltou a chorar.

Eu não podia me esconder por trás do silêncio como um tatu no buraco.

Eu perguntei:

“Como é que você sabe disso, amigo?”

Usei com ele  a palavra amigo depois de muitos anos.

Ele contou:

“Eu não tinha o que fazer naquela maldita casa. Comecei a abrir velhos baús no sotão e olhar fotos antigas. Vasculhava cômodo por cômodo. O tempo passava lentamente. Um belo dia eu bati acidentalmente numa pequena parede embaixo da escada e senti que havia alguma coisa oca. Meu pai não saia do quarto dele. Por curiosidade furei a parede. Embaixo da escada havia um vão. E dentro dele havia ossos de um cadáver.”

“Caralho!”

“Isto é assustador!”

“Claro que é.”

“Mais ainda quando ao lado dos ossos deste cadáver encontrei as roupas de minha mãe. E junto com estas roupas estavam seus documentos.”

“ Caralho!”

“Aquilo foi muito horrível.”

“E o que você fez?”

“Eu não sabia o que fazer. Mas também não podia ficar sem fazer nada.”

“Sim. Também acho.”

“Eu subi para o quarto de meu pai e disse para ele que tinha encontrado alguma coisa embaixo da escada para o primeiro andar.”

“E daí?”

“Ele disse sem me olhar. Então você descobriu o meu terrível segredo? Ainda bem!”

“Caralho!”

“Ele disse isso. Foi como uma confissão. Eu não disse nada. Ele acrescentou. Faz quarenta anos que guardo esta merda. Não aguentava mais. Ela descobriu que eu tinha um caso com a Gerda. Eu era um industrial. Não queria escândalo. Ela queria fazer escândalo. Então para abafar o caso eu fiz aquilo num fim de semana.”

“E depois o senhor se casou com a Gerda!”

“Casei. Não foi premeditado. Eu apenas não queria ficar sozinho. Gerda nunca soube de nada. Ela também achou que sua mãe foi embora. Nunca contei para ninguém. Se quiser pode avisar a polícia. Estou pronto para confessar tudo.”

Alan Kersten ficou em silêncio. Então eu perguntei:

“E depois disso o que você fez?”

“Nada. Depois de quarenta anos, o que a polícia vai fazer? A justiça vai dizer que ele era culpado e mandar ele de volta para casa porque não está em idade de cumprir pena. E até faz sentido. O velho não aguenta um mês na cadeia.. Por isso achei melhor ir embora. Eu disse para ele que não poderia ficar mais ali. Que ele se virasse com o vírus. Ele respondeu que sabia disso e que não ia me censurar. Então eu peguei o o meu carro e vim para cá. Mas até agora eu não sei o que devo fazer.”

Eu fiquei quieto. Alan concluiu:

“Eu fui embora. Não posso ficar ao lado de um homem que matou a minha mãe. Espero mais que o vírus apareça por lá e leve ele. E acho também que ele também espera. Eu só não sei se esta coisa terminar e se ele ou eu ainda estaremos vivos. Se a gente sair vivo desta vai ser muito ruim eu ter que olhar para ele de novo.”

Eu fiquei em silêncio. Não sei por quantos minutos. Era fim de dia. A tarde foi embora rapidamente e a noite caiu levemente sobre nós.

Alan disse:

“Por isso eu o procurei. Gostaria que você me dissesse o que eu devo fazer.”

Eu olhei a cachorra. Ela estava começando a ficar com frio. Olhei para o Fiat de Macedônio. Tinha que levar o carro para ele e depois ir embora para casa. Não havia mais tempo para conversa longa.

Eu disse sincero para Alan Kersten:

“Amigo, eu acho em primeiro lugar que você deve sobreviver. Depois, se isto acontecer, fica mais fácil ver como é que fica.”

“Mas você não acha isto trágico?”

“Sim, é trágico. Mas mais trágico ainda é colocar uma tragédia sobre outra. Resolva a primeira e depois a segunda. E depois desta não espere que outra não vá aparecer. A vida dos humanos é marcada por esta coisa abominável que é a tragédia.”

Alan me olhou. Parece que entendeu alguma coisa embora eu não soubesse o quê. Ele se levantou e foi em silêncio para o seu carro. Eu esperei ele ir embora para depois ir para o Fiat 600. Para sair da Caieiras havia uma ladeia íngreme. O Fiat 600 não tinha tanta potência para isso. Não seria fácil. Era nisso que pensava.

Written by edilsonpereira