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Há nas ruas de Curitiba um encanto que outras cidades não têm. Pelo menos as outras que conheço. Soube que em Amsterdã e Paris parece haver algo igual e, por conta da salsa zairense, em alguns bairros de Kinshasa. Mas impressionam os cantores de rua de Curitiba. A primeira curiosidade é que não se sujeitam a um ritmo ou gênero musical, tampouco faixa etária ou etnia. E, como não bastasse, não formam um grupo homogêneo; nem sequer são boêmios ou notívagos. São quase desconhecidos entre si e, ainda assim, se concentram próximos uns dos outros, ao longo da rua XV e nas praças Tiradentes e Osório. Há desde uma dupla sertaneja mutante, cujo cantor fixo é um negro de cabelos loiros, até outra dupla, formada por dois cegos, um deles eventualmente substituído pela mulher do outro. Há o grupo de bolivianos que não desgruda da praça Tiradentes, dividindo o lugar com os pombos e o grupo latino heterogêneo, com peruanos e argentinos, que toca El Condor por onde passa. Há o saxofonista solitário da praça Osório, com solos melancólicos, há o homem do clarinete acompanhado por seus filhos em instrumentos de percussão, nas proximidades da antiga sede do Bamerindus.

Em comum, quase todos não cantam, com exceção do antológico Plá, que por sua vez agride a golpes certeiros as cordas de um violão enquanto vocifera os últimos ataques contra a Coca-Cola e a burguesia. Vestido de branco, barbas e cabelos longos, Plá evoca o último hippie e uma reencarnação apressada de Raul Seixas. Ele se posta em frente ao McDonald’s, cantando e vendendo discos, camisetas e quitutes naturalistas. A maioria desses músicos não é jovem, como o Zé do Bandoneon, que gravou CDs e faz ponto perto da Ghignone. E outros já partiram deste mundo, como o saudoso Henry Pollack, que se foi, mas deixou sua música e o som assanhado de seu violino na XV, cultivado por parentes e amigos.

Há um desses músicos de quem gosto desde o primeiro dia em que o ouvi. É o cego do acordeão, que se apresenta na Feira do Largo, aos domingos e durante a semana fica na Monsenhor Celso. Com que vigor entoa seu variado repertório, que inclui tangos, sucessos antigos e até ataca com músicas sacras. Tudo que sai daquela sanfona angustiada é música. A realidade é que há uma profusão de músicos em cada canto no centro de Curitiba. E, antes que pensem que reclamo, me apresso a dizer que acho formidável a presença desses profissionais. Eles são tão pontuais e onipresentes que cheguei a suspeitar que recebessem cachê da prefeitura para alegrar a cidade, todos os dias. O que, aliás, não seria injusto. Porque é agradável ouvi-los em sua incansável missão de lançar na atmosfera da cidade uma onda que transborda sonoridades, em vez do insuportável rumor de buzinas, com o qual as outras cidades honram seus habitantes. É impossível o espírito passar impassível diante desses sons, sem um instante de comoção.

Esses artistas anônimos ressoam uma agradável onda emotiva que por um momento nos resgata a uma condição mais humana. Sobre a confusão de vozes e passos, os sons vibram e cessa a agitação interior. Então eu paro e sento em um daqueles bancos e ouço e penso que nem tudo que é bom custa alguma coisa. Qualquer cidade, em qualquer lugar, pode, quando quer, ser um pouco melhor. Basta que alguém pare em algum canto, pegue um instrumento e toque uma música, enquanto o tempo e as pessoas passam.

Narrativa publicada em O Estado do Paraná no dia 28 de maio de 2004.

Written by edilsonpereira