A primeira coisa que ele ouviu na primeira semana em seu primeiro ano na primeira série do ginásio em 1964 foi a história do diretor Giampero Monacci. Ele era um pisano de cabelos rebeldes e expressão de ator italiano. Foi fascista e depois mudou para os aliados. Com o fim da guerra, ele andou por alguns lugares do mundo até entrar num navio e aportar no Rio de Janeiro em março de 1954, de onde foi para Maringá. Ele deu aulas de matemática, física e química e depois de inglês e francês. E como era um sujeito inteligente e habilidoso, embora meio nervoso, ele virou diretor. No entanto, a história que se contava em rodas de novatos era que o professor não podia ouvir ronco de motor de avião.

“Ele corria fazer buraco no chão para se esconder.”

Os mais velhos que conheceram o professor que veio a morrer em junho daquele ano, antes de completar quatro decênios de vida, contavam que ao servir no norte da África, ele tinha que fazer buracos na areia, para se esconder dos aviões que se aproximavam. E ficou com este trauma em sua vida. Não podia ouvir barulho de avião que queria abrir buraco. A sorte dele era que avião era coisa rara na cidade por aquele tempo. Os mais velhos arriscavam um palpite:

“Eu acho que ele morreu por causa do trauma da guerra.”

Algo semelhante ocorreu a F. D. Mateus.

Ele estava na Itália e sua coluna foi atacada pela aviação inimiga. A coluna avançava. As bombas caíam e o comandante ordenava:

“Marchem, marchem, marchem!!!”

A coluna marchava, enquanto rajadas abriam buracos na estrada e bombas faziam crateras com estertores tão intensos que era impossível lembrar de outra coisa a não ser a ordem do comandante:

“Marchem!”

A coluna avançou, tomou a posição e sobreviveu. E o soldado F. D. Mateus nunca mais, desde aquele dia, deixou de marchar. O garoto conheceu o velho Mateus e o viu muitas vezes de camisa de manga curta no verão e velho paletó escuro no inverno, com bengala, em direção ao correio, indo levar ou buscar correspondência ou entrando na bilbioteca pública. Era impossível não ouvir o ruído de seus passos e não contar a cadência monótona:

“Um, dois, um, dois, um, dois.”

Eles não foram os únicos. Na rua Mem de Sá a uma quadra da casa da velha morava um homem delgado que tinha um caminhão para transportar café. Era o Sr. Francisco, que depois se mudou para a rua Estácio de Sá. Ele era um homem simples todos os dias do ano, menos um, no dia 10 de maio, quando a cidade comemorava o seu aniversário e entre os escolares que desfilavam, desfilava também uma coluna de pracinhas, homens com idade entre quarenta e cinquenta anos, que lutaram na Itália. O locutor anunciava:

“Os pracinhas, os heróis da guerra. Palmas para eles.”

Entre os ex-combatentes de guerra também estava Odwaldo Bueno Netto que morou na ilha de Santa Helena e trouxe o primeiro cinema para a cidade. A cidade tinha veteranos de todos os matizes. O japonês Katayama era fotógrafo e não gostava de falar da guerra.

Ele resumia:

“Eu era mecânico. Consertava aviões no hangar. Nada mais.”

Ele passou os anos da guerra num hangar consertando aviões, até ela terminar.

Havia ainda o homem solteiro que morava num pequeno quarto num prédio da rua Santos Dumont e passava as tardes na Padaria Herval, onde tomava café e drinques. Ficava lá, despreocupado com o mundo em volta. Um dia ele sumiu. O dono da padaria contou que ele morreu. E contou um segredo:

“Ele foi um cientista alemão. Um químico.”

Os olhos do garoto arregalaram. Todos eram homens que passaram pela guerra e tinham em suas memórias cenas de fogo das quais não gostavam de recordar. O garoto pensou que certamente havia outros que por uma razão qualquer não podiam ser reconhecidos e que levavam vida normal como se a guerra fosse um pesadelo numa noite escura para ser esquecido.

Written by edilsonpereira