Eu vi ontem a versão de “O Grande Gatsby”, de 2013, com Leonardo DiCaprio e direção de Baz Lurhmann (que fez “Moulin Rouge”, em 2001). Primeiro vou falar do livro que vem antes do filme. O autor Francis Scott Fitzgerald saltou do anonimato do dia para a noite em 23 de março de 1920 quando publicou “Este lado do paraíso”, livro de estreia que retratava uma geração desiludida com a primeira guerra mundial e que descobriu na gandaia inconsequente a forma mais adequada de viver. São os loucos anos 20.

O livro foi sucesso imediato. O autor virou celebridade. Tinha apenas vinte e quatro anos. O sucesso subiu à cabeça. Fitzgerald achava com certa dose de petulância que já era um grande escritor e embarcou numa gandaia sem fim regada a álcool, festas, viagens. Só que não conseguia repetir o êxito inicial. O que o incomodava. Mas ele não conseguia escrever direito porque bebia muito, gastava muito e tinha que escrever contos para as revistas para ter dinheiro para continuar gastando. E sua mulher Zelda Sayre tinha menos juízo que ele. Formavam uma dupla do barulho.

Alguns anos depois Fitzgerald escreveu “O Grande Gatsby” publicado abril de 1925. O livro não chamou atenção. Nos vinte e cinco anos seguintes vendeu apenas 25 mil exemplares, embora tivesse ganhado versão cinematografica em 1926, produção da Paramount Pictures com Warner Baxter e Lois Wilson nos papéis principais e direção de Herbert Brenon. Era um filme mudo com uma hora e vinte minutos de duração e que no Brasil ganhou o título de “Tudo pelo dinheiro”. Esta tiragem era irrisória no mercado editorial norte-americano.

Quando morreu no dia 21 de dezembro de 1940 aos 44 anos em Hollywood em decorrência da vida regada a álcool e festas, Fitzgerald era um escritor decadente, praticamente desconhecido ou ignorado, enquanto seu oponente literário, Ernest Hemingway, vivia o apogeu da carreira. Era um grande astro. Ninguém se lembrava de Fitzgerald e muito menos de “O Grande Gatsby”. Depois da morte do autor ele foi aos poucos reabilitado, num processo que ganhou intensidade no final dos anos 40 e começo dos anos 50, enquanto Hemingway entrava em declínio, o que contribuiu para seu desespero que desembocou no suicídio em Ketchum no dia 2 de julho de 1961.

Fitzgerald não só continuou a crescer como escritor como Hemingway foi despencando. E o livro de 1925 tornou-se clássico. O que “O Grande Gatsby” tem que ver com isso? Tudo. O livro hoje vende todos os anos centenas de milhares de exemplares. Na minha opinião é o melhor livro sobre gângster embora não tenha assaltos a bancos e tiros de metralhadoras entre gangues. Ao contrário, é uma trágica história de amor. O livro se lê numa sentada. Gostoso, bem escrito, uma história bem resolvida. Quanto ao filme, vou falar agora.

Se for para ser rigoroso, poderia dizer que o filme não é grande coisa, disfarçado por uma fotografia luxuriosa e cenários exuberantes. A trilha sonora é um acinte. Modernosa e ignorando a rica sonoridade dos anos 20. Este o ponto fraco do filme. Mas no meio desta pandemia a gente fica sensível. Então vou começar a dar descontos. Além disso, gosto de Fitzgerald e do livro. Então a gente vê o filme torcendo para não ter complicação. Algumas coisas não dá para engolir. Lurhmann exagera no luxo. Mas ele sempre faz isso. Basta ver “Moulin Rouge”. Fica a impressão de que interpretou e não reconstituiu as festas dos anos 20. O que não é muito legal. Ficou excessivo.

Mas vamos deixar os defeitos de lado e ver o que se aproveita. Não sei se Leonardo DiCaprio é grande ator. Na realidade, Hollywood não trabalha com o conceito de grande ator, mas sim de astro e estrela, alguém que cintila no firmamento do show bizz e leva multidões ao cinema. O que move Hollywood é dinheiro e não talento. Eu diria que DiCaprio se enquadra na categoria de astro. No entanto, achei que ele até se sai bem como Jay Gatsby. Carey Muligan não compromete como Daisy Buchanan, embora senti falta do glamour irresponsável da personagem.

Joel Edergton está bem no papel do mulherengo Tom Buchanan, até porque o segredo da história e também do filme está na empatia entre o narrador Nick Carraway (Tobe Maguirre) e Jay Gatsby. E neste ponto a coisa funciona. Maguirre inclusive tem ligeira semelhança com Fitzgerald. A cara patética pega bem. Como vejo mais filmes antigos e poucos filmes recentes sempre me assusto com o ritmo alucinado das fitas de vinte a trinta anos para cá. Mas como no livro, o filme deixa uma lição sobre os ricos. O desdém em relação às camadas menos favorecidas da população. “Eles destruíam coisas e pessoas e depois se refugiavam em seu maldito dinheiro.”

Esta frase não deixa de martelar na cabeça nestes dias de pandemia. A histeria dos ricos pensando em seu dinheiro e querendo levar os pobres para um carnaval de contaminação do vírus. É isso aí. O filme foi um bom passatempo para passar o tempo enquanto este vírus que os ricos brasileiros trouxeram para dizimar os pobres de seu país não vá embora. E é uma forma de rever F. Scott Fitzgerald.

Além desta versão de 2013 e da primeira em 1926, o livro teve ainda duas outras versões cinematográficas. A segunda saiu de 1949 e no Brasil ganhou o título “Até o Céu Tem Limites” enquanto em Portugal se chamou “Cruel Mentira”. Direção de Elliott Nugent e Alan Ladd e Bety Field nos papéis principais. É considerado um dos dez melhores papéis de Ladd na carreira, embora a crítica não gostasse do desempenho de Field. Alguns historiadores considerarem esta a melhor versão do livro de Fitzgerald. Teve também uma versão de 1974 com Robert Redford e Mia Farrow, roteiro de Francis Ford Coppola.

Quem quiser conferir como eram as músicas dos anos 20 e que fariam melhor ao filme pode conferir o link abaixo:

 

Written by edilsonpereira